Ceni começa a aceitar algumas críticas e isso vai ajudá-lo no São Paulo

Ceni começa a aceitar algumas críticas e isso vai ajudá-lo no São Paulo

Ninguém gosta de ser contestado, mas também não há treinador capaz de tapar o sol com a peneira

Robson Morelli

23 Maio 2017 | 11h49

Rogério Ceni nunca foi um jogador comum. Nas duas décadas em que brilhou no São Paulo, o torcedor aprendeu a entendê-lo, assim como parte da imprensa, que sempre fez e ainda faz a ponte do clube com o torcedor. Não há informação desprovida de senso crítico. Nem deve haver. Ceni deveria saber disso.

Fosse diferente, o próprio clube faria seu noticiário, despejando para o torcedor um mar de rosas das coisas boas do time. Mas nem tudo é bom no clube. Ceni admitiu ter aprendido nesses oito meses como treinador que o número que mais importa é o de bola na rede.

São Paulo x Avaí: Rogério Ceni comanda o time no Morumbi na vitória por 2 a 0

Pensei que ele já soubesse disso. Já o ouvi dizer após vitórias do São Paulo, quando usava a camisa 01, que o mais importante era o resultado, independentemente dos erros, dos chutes a gol, das jogadas criadas ou desperdiçadas. Há um momento no futebol em que é preciso ganhar de qualquer jeito, como fez o São Paulo diante do Avaí, segunda-feira.

O gol é soberano, embora os números, tão criticados porque foram apresentados em momentos errados por Ceni, quando o time era eliminado, sejam também importantes, não para justificar derrotas ou vitórias, mas para apontar caminhos e aprimorar o que precisa ser aprimorado. É bom usá-los, mas na hora certa.

Não esperem de Ceni, no entanto, compreensão às críticas e cobranças. Ele nunca foi dado a aceitar isso. Lembro-me que num jogo na seleção contra o Barcelona, em que falhou duas vezes, ele disse depois da apresentação que havia feito sua melhor partida. Ceni tem sua própria compreensão dos fatos, mesmo que ela não seja a do senso comum. Ele dá de ombros para isso. Tem esse direito e sempre terá. Daí sua convicção de que o São Paulo estava jogando o fino da bola mesmo com tantas eliminações no semestre. Quem pensa assim, demora um pouco mais para ver os problemas.

E não era essa a percepção do torcedor do São Paulo, incomodado e aborrecido por ser gozado na rua por causa dos fracassos do time. Ceni mantinha sua pose e contestava as contestações. Mas ele sempre foi assim. Quem acompanha sua carreira sabe disso. Ocorre que o treinador agora é obrigado a responder por todo o elenco, por erros e acertos, por falhas, por falta de entrosamento, enfim, por tudo o que envolve o rendimento da equipe. Antes, focava na sua função e entregava a batata-quente para os técnicos do São Paulo, como Muricy Ramalho.

Ceni achou que pudesse pular essa parte, a do trato com a mídia, a do questionamento, da crítica, da ideia diferente. Não pode se quiser de fato ser um grande treinador. Tudo isso faz parte do futebol e do seu crescimento. É um processo para o qual ele não tenha se preparado ainda, o que não quer dizer que não possa aprender. Após o jogo com o Avaí, suas declarações ao SporTV foram duras, mas honestas. Ele pensa o que disse.  Está na dele. Assim como os jornalistas que vão ao Morumbi e aos treinos também estão fazendo o trabalho que eles precisam fazer. Questionar, informar, duvidar, criticar (no sentido de avaliar)…