Neymar enterra o 7 a 1 do Brasil contra a Alemanha. Com que direito?

Neymar enterra o 7 a 1 do Brasil contra a Alemanha. Com que direito?

O fracasso da seleção na Copa de 1950 machucou o brasileiro durante 64 anos. A surra diante dos alemães vai durar muito mais

Robson Morelli

27 Março 2015 | 12h58

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O povo brasileiro não pode mais sofrer a derrota de 7 a 1 diante da Alemanha na Copa do Mundo em casa, em 2014. Tudo porque o principal jogador da seleção, Neymar, decidiu enterrar aquela derrota e acabar com o sofrimento do torcedor após o amistoso em Paris contra a França, nesta quinta, vencido por 3 a 1. Neymar tem esse direito? Como melhor jogador do time nacional talvez alguns entendam que sim. ‘Parem de sofrer’, diria o craque num palanque.

Ocorre que não é tão simples assim. O fracasso da Copa do Mundo de 1950, também disputada por essas terras, durou 64 anos para ser menos dolorida, jamais esquecido. Na verdade, a derrota para a Alemanha no Mineirão ocupou seu lugar no coração dos brasileiros, uma vez que muitos acham que a seleção do próprio Neymar, que não jogou aquela partida, fez mais feio do que o time de Barbosa, o goleiro condenado diante dos uruguaios no Maracanã. Entendo que o torcedor tem o direito de amargar e remoer seu sofrimento toda vez que a seleção estiver em campo até o dia em que o futebol do Brasil voltar a ser digno de aplausos. Aplausos em pé de uma plateia satisfeita e novamente orgulhosa.

E isso nada tem a ver com vitórias e bons resultados, como foi diante dos franceses. O Brasil de Dunga, pós Copa do Mundo de 2014, ainda não perdeu nas sete partidas que fez. Mesmo assim, a seleção continua sem empolgar, com poucas jogadas de encher os olhos. O próprio Neymar deu sono em Paris e só ‘acordou’ quando Willian o chamou para fazer o segundo gol brasileiro no Stade de France, o que não quer dizer que ele não seja craque. O futebol foi apenas razoável, sem grandes momentos ou momentos capazes de enterrar o passado recente. Não há dúvidas de que o time de Dunga é mais arrumado, e há uma movimentação maior no meio e na frente. Mas é pouco.

Do lado de fora do campo, o fracasso de 7 a 1 provocou quase nada no futebol brasileiro, a não ser uma MP assinada pela presidente Dilma que tenta reorganizar a vida e compromissos dos clubes, mesmo assim a vigorar somente em 2016 e que ainda precisa passar pelas canetadas do Congresso.

Dunga viveu isso na Copa de 1990, quando seu time foi detonado e aquela era ficou conhecida por seu nome. Pagou por todos. Quatro anos mais tarde, no entanto, o Brasil comandado por Parreira foi campeão do mundo nos Estados Unidos, dando resposta ao sofrimento e vergonha do torcedor de quatro anos antes. Meia dúzia de amistosos não pode esconder os 7 a 1 da Copa. Desse ponto de vista, Neymar precisará fazer muito mais para acabar com o sofrimento do povo brasileiro, que tem o direito de sofrer com o futebol.