Roubar dinheiro da CBF de amistosos da seleção é matar a fé do torcedor no time

Dirigentes do Brasil são arrolados em esquemas de enriquecimento com jogos da equipe

Robson Morelli

26 Maio 2017 | 11h29

A CBF é uma entidade privada. Então, tudo o que acontece entre as paredes do prédio erguido na Barra da Tijuca diz respeito somente a ela e a seus pares. Certo? Errado. Porque quando você se depara com reportagens como a que Jamil Chade assinou ao longo da semana no Estadão, informando sobre investigações envolvendo o ex-presidente da entidade e dando conta do desvio, por ele, de R$ 30 milhões, a fé no time nacional é abalada. Fé que agita a arquibancada quando o time entra em campo, quando o jogo vale alguma coisa, quando grupos de amigos se reúnem para discutir lances e resultados.

A famosa e respeitada camisa verde e amarela, ainda a única a ganhar cinco Copas do Mundo, e a fazer tremer muitos adversários (houve um tempo em que não fazia isso), é jogada na lata do lixo por dirigentes vampiros que só fazem sugar o prestígio da equipe construído ao longo de 100 anos de história, do suor de jogadores, alguns velhinhos e ainda vivos, que têm pela seleção um respeito quase que sacro. Jamil informa sobre uma série de falcatruas sendo apuradas pela Justiça da Espanha, antes dos EUA e Suíça, que atinge em cheio três dos últimos comandantes da CBF, portanto, da seleção brasileira. São eles Ricardo Teixeira (1989-2012), José Maria Marin (2012-2015) e Marco Polo del Nero (2015-atual). Todos têm o direito de se defender das acusações.

Ocorre que essa gente ainda está por aí. Teixeira vive no Brasil como se nada fosse com ele. Leva vida normal no Rio. Marin está preso em seu apartamento em Nova York, vai à missa e toma sol regularmente em sua prisão domiciliar. Del Nero comanda o futebol brasileiro, não sai do País desde as primeiras acusações com receio de ser preso, mas ainda está no comando da seleção. Ora, sabendo de tudo isso como é que o torcedor vai acreditar que os amistosos do Brasil na Austrália, por exemplo, no próximo mês, contra Austrália e Argentina, são ‘bons’ ou tratam-se de esquemas para enriquecer cartola, no mesmo caminho de vender a imagem e o trabalho dos jogadores e da comissão técnica do time? Sem trocar os comandantes e o sistema, que certeza o torcedor tem de não estar sendo enganado, como ele foi por muitos anos de acordo com as acusações.

Meus pais me ensinaram que dinheiro que é não meu, não é meu e pronto. E esses caras se valem de dinheiro que não lhes pertencem, que é da seleção, dos clubes, do futebol brasileiro como um todo. Tirando a eterna má gestão dos clubes de futebol, salvo raras exceções, a CBF é uma entidade rica e os times são extremamente pobres, como se essas partes não estivem interligadas. Jamil Chade traz luz a um assunto que ainda vai incomodar muita gente no Brasil Sério, aquele que quer mudar e mandar para a prisão seus saqueadores, os do passado e os atuais. O futebol, por tudo o que ele representa por aqui, também merece mais respeito e gente honesta.