Sobreviventes do “Milagre nos Andes” jogam contra chilenos 40 anos depois

brunoromano

15 Outubro 2012 | 21h40

Ainda que sejam vistos como heróis, os uruguaios do time de rugby Old Christians sofreram bastante, mesmo depois de sobreviverem a um terrível acidente na Cordilheira dos Andes, em 13 de outubro 1972. Depois de retornarem com vida de uma tragédia que deixou 29 vítimas fatais, foram considerados canibais por grande parte da população, que assistiu de longe a luta dos 16 sobreviventes.

Os relatos davam conta que era a única opção. Além disso, a união do grupo, os ensinamentos do esporte e o amor pela vida levaram a alguns daqueles jovens para longe do local do desastre, a mais de 3.500 m de altitude, em um ponto remoto da cordilheira andina. No último fim de semana, em lembrança ao feito heroico, os uruguaios do Old Christian foram recebidos com festa pelos chilenos do Old Gregorian, em uma partida de veteranos cheia de história.

Há exatos 40 anos, Fernando Parrado e seus amigos eram bem jovens, todos na média dos 20, com pensamento voltado somente para a viagem de férias – na companhia dos melhores amigos do time, de colegas da escola e familiares. O avião era simples, o dia não era recomendado devido ao mau tempo, mas o ímpeto da excursão fez com que todos embarcassem rumo ao Chile.


O resultado não poderia ser mais desastroso: os pilotos perderam controle da aeronave e caíram, deixando muitas vítimas logo no choque com a montanha. Muitos também perderam a vida nos dias seguintes, com apenas 16 conseguindo sobreviver a 72 dias de montanha, sem nenhuma roupa ou equipamento adequado para a região.

Mais tarde, a história mudou. Os sobreviventes conseguiram reerguer suas vidas e passaram a ser tratados como merecidos herois. O filme “Vivos” (1993), de produção americana, e o livro “Milagre nos Andes”, com relato pessoal de Nando Parrado, contam os detalhes da história. Os sobreviventes que se reencontraram no último fim de semana estão na faixa dos sessenta anos.

Helicóptero, tênis vermelho e o Sr. Catalan

Mesmo que o encontro venha sendo organizado por diversas vezes nos últimos anos, tanto no Uruguai como no Chile, o 40º aniversário foi uma data especial. Doze dos 16 sobreviventes compareceram em Chicureo, nos arredores da capital chilena de Santiago, nas novas instalações do clube. Apenas um deles foi por terra, com receio da viagem de avião.

Antes da partida, uma série de homenagens relembrou a tragédia. Sergio Catalan, trabalhador do campo que ficou marcado por ter sido o primeiro a avistar os sobreviventes foi ao jogo, no auge dos seus 90 anos. O mesmo helicóptero usado no resgate também sobrevoou o gramado. Ele trouxe Nando Parrado, que se emocionou ao receber um diário de sua irmã Susana, que, assim como sua mãe, morreu na queda do Fairchild.

Parrado foi um dos líderes do resgate e ganhou destaque na história por manter o ânimo dos amigos, mesmo com perdas irreparáveis logo ao seu lado na montanha. Seu colega Carlos Paez levantou um pequeno sapato vermelho e acenou para o helicóptero, em memória a promessa dos dois na época: de que iriam se encontrar novamente, ambos com vida, em mais uma tentativa de sair da Cordilheira.

Roberto Canessa, outra figura chave do resgate se lembrou da polêmica do canibalismo e falou à imprensa local: “A tristeza de comer um corpo humano morto foi a grande tragédia da minha vida. Se faria de novo? Hoje sei que faria o mesmo e espero o fizessem se fosse eu quem tivesse morrido ali”.

Dentro de campo, os Old Christians enfrentaram um combinado com ex-alunos do The Grange School e veteranos do Old Boys. Antes da partida, a intermedia do Old Boys enfrentou a equipe principal do Old Chirstians, atuais vice-campeões uruguaios, que acabaram vencendo por 71-14.

O duelo de veteranos terminou empatado com dois tries para cada lado. Um resultado que pouco importa pelo valor do encontro, onde Parrado fez questão de lembrar um dos lemas que nortearam sua vida após o desastre: “aqueles dias me ensinaram a viver sem medo, mas com precaução”.

Uruguaios e chilenos devem continuar se encontrando nos próximos anos. Muitos deles são membros da Fundación Viven, criada em 2006 para difundir a história nos Andes. Assim como os duelos em campo, a fundação existe para não deixar de esquecer os ensinamentos únicos que foram aprendidos, da pior forma possível, por uma equipe de rugby.

Foto: EFE / Reprodução emol.com