Piscina: evolução ou retrocesso?
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Piscina: evolução ou retrocesso?

Founders' Cup: largada para as competições oficiais em água doce organizadas pela WSL

Thiago Blum

09 Maio 2018 | 13h03

Jordy Smith não começou bem a temporada da WSL, mas com aéreos como esse, levantou o troféu na piscina de Lemoore

Como diria um amigo, o assunto vale várias sessões filosóficas.

Não se questiona o fato das piscinas de ondas perfeitas chegaram pra ficar.

O fim de semana de festa em Lemoore, na Califórnia, foi um passo definitivo para o que deve ser o esporte. Uma celebração.

Mas é aí que vem minha pergunta: o show no quintal do Kelly Slater foi do mesmo esporte pelo qual me apaixonei?

Não! Não foi! Mas calma… Sou taxativo apenas se o tema em questão estiver diretamente ligado à competição.

Igarashi, Hareb, Jordy, Buitendag e Bourez: diversão e título para o Time Mundo na competição por equipes da WSL

O Team World, liderado por Jordy Smith venceu o ‘campeonato’.

O Brasil, com Gabriel Medina, Adriano de Souza, Filipe Toledo, Silvana Lima e Tainá Hinckel, deu espetáculo e ficou com o vice. E a palavra ‘espetáculo’ da frase anterior não veio por acaso.

No meu olhar, pelo menos neste primeiro momento, as manobras na água doce estão mais para Cirque du Soleil do que disputa por troféu.

Vale demais acompanhar, mas confesso: na segunda hora, já estava entediado. E as questões foram pipocando cada vez que surgia a imagem de um atleta – com os pés no chão -, esperando a máquina se aproximar para ‘dropar’, primeiro para a esquerda, depois para a direita.

Será que o surfe vai virar 100% negócio e a essência será perdida?

A natureza trocada por parque aquático?

E as estratégias? Uso da prioridade, leitura das ondas, tática de competição?

Cobrança de ingressos? E a interação de estar ali pertinho do ídolo logo após as baterias?

Não vou ter mais que descer a serra?

Criativo e radical como sempre, Gabriel Medina teve uma das maiores médias no Surf Ranch de Kelly Slater na Califórina

O fato é que, depois de mais de 15 anos, pela primeira vez consegui desconectar completamente. Não me preocupei com resultado e só fui atrás das imagens no fim do domingo. Em plena era de tudo à mão, em um simples clique. E tendo uma coluna para escrever.

Chegava o momento da primeira pesquisa filosófica. Precisava consultar uma referência.

Fui com tudo, despejei toda minha razão e interrogações. E ele me trouxe pra Terra. Ou melhor, minhas teses foram por água abaixo, dois tubos depois.

Estilo perfeito e craque nas palavras: depois de vários anos no tour, Renan Rocha comenta as etapas da WSL na TV

Experiente, o ex-profissional Renan Rocha, agora comentarista da ESPN, canal que transmite o Mundial ao vivo, nem cogita misturar estações.

“A essência vai estar sempre no oceano, ali (piscina) o surfe vai ser mecânico e didático, onde a apresentação muda. Começando pelo jogo mental, eu vi os surfistas mais nervosos do que competindo no mar, porque ali vira um caldeirão, uma arena, e ele não pode errar. Cria uma concentração que até então, o atleta não tinha. No oceano, se ele errar, pode remar em outra onda e se recuperar. É um novo jogo.”

Mas e a disputa verdadeira?

“Na piscina, o atleta não tem adversário. Não vai ter remada, fica menos competitivo, muda completamente.”

Peraí… Ele tá concordando comigo?! Era disso que eu tava falando.

Silvana, Filipe, Gabriel, Tainá e Adriano: time brasileiro terminou em 2º na Califórnia

Então não pode ter uma etapa do circuito valendo a corrida pelo título da temporada, certo?

“Tem que ter sim, tem que valer a mesma pontuação, é uma onda. Só que numa condição diferente, um jogo diferente. A única pergunta que fica na minha cabeça é: ‘Quantas ondas cada surfista vai ter em cada round?’. Porque no mar, você pega infinitas ondas, ali não. ‘Quanto eles vão poder errar?’. Eu tinha receio das piscinas, mas agora elas estão proliferando. É a chance do esporte chegar numa Rússia, na China, para a modalidade crescer. Para os Jogos Olímpicos vai ser interessante. Mas na vibe de competição, a emoção não chega nem aos pés. No oceano tem remada, tem a série na cabeça… Você cria uma atmosfera de expectativa.”

Lá e cá. Uns prós, outros contras. Hora de ir mais fundo. Com a palavra, quem veste a lycra.

Começando com o campeão mundial Adriano de Souza.

Adriano de Souza entocado em mais uma sessão perfeita da direita do Surf Ranch de Lemoore

“O lado positivo da piscina é a qualidade da onda. Sempre igual durante todo o dia, sem variação. E para um campeonato isso é essencial, colocar a mesma condição para todos os atletas. Vai acrescentar demais no crescimento do nosso esporte, vai agregar muito. Acredito que em um futuro breve vai acontecer um circuito mundial só de piscina em todos os cantos do mundo. Já está acontecendo um mix neste ano, vamos ver o que vai acontecer pra depois ter um parâmetro para o futuro a longo prazo.”

E quem tá começando?

Em entrevista ao site “Tudo pelo Surf”, Michael Rodrigues, um dos estreantes de 2018 na elite, disse que também aprova a chegada das ondas sem sal.

“É uma coisa diferente, que o surfe estava precisando. A gente tem que se acostumar com esse cenário, que vai ser cada vez mais comum. Estou muito ansioso em competir, acho que vai ser um grande evento o WT lá, assim como foi a Founders’ Cup.”

Quase convencido, parti para a última etapa: ouvir aquele amigo que sugeriu filosofar.

Acostumado a ter que conviver com horários rígidos da televisão, o jornalista Rafael Reis, diretor do canal “Série ao fundo”, tocou em um tema fundamental.

“Um benefício absurdo que a competição na piscina traz é a possibilidade de você programar a transmissão do evento para o mundo inteiro. Depois de tantos anos nos bastidores tentando colocar competições no ar,  a gente sabe que o surfe tinha um sério problema de gerar engajamento com a audiência, justamente por ser imprevisível. A possibilidade de dar uma data, uma hora, para o fá sentar e assistir uma bateria, comercialmente agrega muito para o esporte. Tenho certeza que vai trazer mais interesse, mais patrocínio e público.”

Dono da ideia e do negócio: 11x campeão mundial, Kelly Slater em ação no seu quintal de casa

Ah Rafa!!! O tal do negócio. Tá certo. Mas você também é surfista. E a questão técnica, não pesa?

“O surfe em piscina nunca vai substituir o do mar. Você precisa entender muito menos fatores, muito menos tempo de experiência pra dominar uma onda de piscina. Mas ao mesmo tempo, entra outro tipo de pressão: ‘A onda vai estar ali perfeitinha, e eu preciso fazer ela muito bem’. Um tipo de pressão interessante. Senti que no começo, muitos atletas foram conservadores na linha, justamente para não perder a oportunidade de aproveitar a perfeição. Esse tipo novo de estrutura oferecida, vai fazer com que se valorize muito o atleta que extrapole, que não seja burocrático. O Dream Tour, essa ideia de passar pelas melhores ondas do mundo e eleger o surfista mais versátil, capaz de dominar as diferentes ondas do planeta. Nesse contexto, a piscina se encaixa, sim. O cara que quer ser o melhor, tem que dominar todas elas.”

4ª etapa do mundial começa sexta-feira: campeão no ano passado, Adriano de Souza volta à Saquarema

Muito bom ouvir quem sabe e conhece.

Não desisti da reflexão, nem do debate.

A próxima sessão fica só pra setembro, quando os tops voltam para o Surf Ranch da Califórnia, desta vez atrás de pontos no ranking.

Ainda bem que a partir desta sexta eles voltam para o oceano.

E melhor: aqui no Brasil, com a quarta etapa do mundial em Saquarema, litoral do Rio de Janeiro.

Vou poder relaxar… E curtir.