Shelby não morreu

Shelby não morreu

Ícone do automobilismo é cultuado por modelistas. Loja tem pistas de velocidade e off-road. Detalhismo é a marca da casa.

Wagner Gonzalez

12 Agosto 2017 | 08h30

“Dá umas quatro ou cinco voltas mais manso, sem acelerar tudo. Isso vai ajudar a aquecer os pneus e formar uma trilha”

O Jaguar E-Type, meu carro de auto-escola na pista da Shelby (Wagner Gonzalez)

A informação do engenheiro Rogério “Mosca” foi seguida até a terceira ou quarta volta, quando deixei o manso de lado e acabei saindo da pista… Mais duas voltas, uma parada e novas instruções, desta vez com ele ao comando do Jaguar E Type:

“Acelera aqui, quando você vê que a ponta do carro já está fora da sombra da ponte… Nesse cotovelo dá outra aliviada …aqui acelera quando o carro começa a contornar a curva…s sempre acelera progressivamente para manter o carro tracionando…”

Silas Moscardo, piloto assíduo da loja, e seu Porsche 550 (Wagner Gonzalez)

Nova parada e reassumo o comando do clássico GT. No box ao lado um Porsche 550 Spyder é conduzido com maestria por Silas Moscardo, piloto já familiarizado com os segredos desse traçado veloz. Tanto que chegou a virar abaixo de dez-ponto-zero e eu só conseguia chegar a dez-ponto-três, dez-ponto-quatro em uma ou outra volta. Menos mal que para um estreante esses tempos foram considerados muito bons.

Para ajudar a melhorar minha performance Mosca ia dando mais dicas:

“Experimenta agora mudar a regulagem do freio: maior o número, maior a força que vai atuar nas rodas traseiras, as de tração… Não liga para a carroceria com algumas partes “meio soltas”,  isso ajuda a equilibrar o carro nas curvas.”

A variedade de modelos usados abrange várias categorias e épocas (Wagner Gonzalez)

A cada informação eu me sentia mais motivado a melhorar meus tempos e vivia um clima típico de autódromo dos tempos que o inoxidável Miguel Crispim – mago dos motores DKW que vira e mexe aparece pelas pistas e eventos -, classifica como “uma época em que todos queriam vencer e não que você perdesse…”. Lembrei do Crispim porque num outro canto estava uma réplica do primeiro Vemag de teto rebaixado, não confundir com a antológica Mickey Mouse, encontrada em outro box. Não longe dali, o Brabham BT44 de Carlos Pace, o 72 de Emerson Fittipaldi com a icônica pintura em preto e dourado.

Não pense que tudo isso é uma viagem de quem cheirou Castrol R: eu vivi tudo isso na pista de autorama da Shelby, ponto de encontro paulistano de apaixonados por automobilismo que realizam seus sonhos em torno de uma pista de autorama para miniaturas na escala 1/32. Trata-se de uma tribo muito singular: ali o importante não é a velocidade pura, algo típico dos que curtem o slot race ou automobilismo de fenda com carrocerias “bolha”.

A categoria DTM é uma das preferidas pelos modelistas da Shelby (Wagner Gonzalez)

Bem parecido com o capricho que Carol Shelby dedicava aos seus Cobras, Mustangs e demais criações. Nessa loja situada na Vila Mariana o que importa é o realismo, a fidelidade aos detalhes dos carros. Quem se impressiona na pista e velocidade corre risco de ataque cardíaco quando descobre a pista do mezzanino: dedicada ao fora de estrada, os dois percursos tem trechos com lama, areia e curvas que exigem habilidade de um Walter Rörhl ou de um Sebastien Loeb.

No mezzanino estão as duas pistas dedicadas ao rally e off-road (Wagner Gonzalez)

“Para nós o importante é reproduzir os carros com a maior fidelidade possível, desde a pintura da carroceria até o tamanho dos pneus”, comenta Rogério Mosca, o gerente da loja fundada e mantida por Luiz Carlos Cardoso em 1993. Cinco minutos de papo com qualquer um dos dois e e você já começa a perguntar quanto custa o carrinho (a partir de R$ 250,00), o acelerador ( a partir de R$ 180,00) ou que pode até mesmo alugar o kit para disputar baterias de 20 minutos. Quando precisar eles também fazem a manutenção do equipamento na hora, sempre com sorriso nos lábios e dois dedos de boa prosa.

Clássicos e populares nacionais também estão são reproduzidos com detalhes (Wagner Gonzalez)

Uma mudança e tanto para quem curtia esse hobby apenas com os mais chegados da rua onde morava. “Até então eu tinha a pista para meu divertimento e de alguns amigos”, comenta Luiz Carlos. Modelista de mão cheia, quem o conhece bem diz que apesar de ele ter aberto o espaço para o público, o ciúme que ele sente de suas criações ainda é grande o suficiente para manter uma coleção maravilhosa de miniaturas guardada a sete chaves. Dada a atenção que ele dispensa a quem aparece pela Shelby tal afirmação soa duvidosa.

É nas noites de terças e quintas que a loja ganha ares de autódromo internacional: a partir das 18h30 começam a chegar os competidores: pais de família com filhos e filhas (adolescentes ou nem tanto), crianças de 50 anos ou mais, enfim, gente que vem relaxar disputando baterias que semanalmente abordam um tema diferente: F1 dos anos 1960, 1970, carros nacionais, DTM de uma determina temporada…

O perfeccionismo na reprodução dos detalhes usa argila nos carros de off-road (Wagner Gonzalez)

A fidelidade dos carros chega a requintes de pesquisas em livros, revistas e a onipresente internet; junto ao balão da loja formam-se grupinhos para debater sobre a cor da carroceria, o local aonde um certo adesivo de patrocinador foi colado ou até mesmo para descobrir que o matemático Ricardo Aguilar, frequentador assíduo como Silas, também é um excelente guitarrista de blues e rock clássico.

Serviço: Shelby Modelismo, rua Padre Machado, 43, S.Paulo (SP), 11-5571-2002; www.shelby.com.br; facebook.com/shelbymodelismo. Horários de funcionamento: terça a sábado, das 16:00 às 21:30; domingo, das 18:00 às 21:30.