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Cesar Greco/Agência Palmeiras

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Como lidar com o calor durante as partidas?

19 de Agosto de 2015 | 00:00
Atualizado 19 de Agosto de 2015 | 15:28

Cesar Greco/Agência Palmeiras

Depois de três jogadores passarem mal no jogo entre Flamengo e Palmeiras, nesse domingo, 16, por causa do calor, os jogos às 11h do Campeonato Brasileiro terão atenção especial dos departamentos médicos dos clubes da Série A. As partidas matutinas têm sido sucesso de público, mas, em contrapartida, afetam o rendimento dos atletas por causa das altas temperaturas. Consultamos especialistas para comentar o caso. Mas queremos também a sua opinião: o que deveria ser feito para poupar a saúde dos jogadores?

Suspensão da partida
Suspensão da partida

Nabil Ghorayeb

Médico

Acima de 30ºC, o corpo já começa a sofrer a agressão ambiental. Para evitar que ocorra a hipertermia, o cérebro estimula mais e mais suor para tentar diminuir o risco da temperatura elevada quando o metabolismo humano sofre o que chamamos de hipertermia: lentificação geral, alterações de comportamento e confusão mental, tonturas e dores musculares devido a desidratação e perdas de eletrólitos sódio, potássio, magnésio. O corpo não consegue equilibrar a temperatura corporal e o atleta fica num estado de letargia. Em seguida, podem ocorrer arritmias cardíacas graves e chegar até a uma parada cardiopulmonar que, se não for recuperada, leva à morte. 

Praticar esportes num horário próximo ao meio dia, num país tropical ou da faixa do Equador, é altamente temerário, pelo risco de desidratação e hipertermia.

Fisiologicamente, durante um exercício físico, a temperatura corporal pode atingir 40ºC a 41ºC, que é dissipada pelo suor intenso, e hidratação acelerada. Se o ambiente estiver como fica habitualmente, calor excessivo e grau baixo de umidade, o risco de problemas até a morte fica quase que eminente. 

Já existem países que chegam a suspender atividades esportivas como a maratona até que tudo normalize. Em Israel, é determinada a suspensão da maratona quanto a temperatura ambiente atingir 28ºC. 

Num levantamento informal em 10 anos de maratonas, ocorreram cinco mortes súbitas, quatro por hipertermia e uma por enfarte do miocárdio. Entre nós, temos relatos de problemas cardiovasculares nas corridas de longa distância no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Enfim, como especialistas em Cardiologia e em Medicina do Esporte, não podemos aceitar a prática esportiva em condições desérticas.

Nabil Ghorayeb,

doutor em Cardiologia (FMUSP); especialista em Cardiologia e Medicina do Esporte

Paradas para hidratação
Paradas para hidratação

Gerson S Leite

Fisiologista

Acredito que no caso de nosso país submetemos mais os jogadores a temperaturas elevadas, especialmente falando das últimas rodadas do Campeonato Brasileiro de Futebol onde tivemos alguns jogos em novo horário (11hs da manhã). Com a mudança da estação do ano, os jogadores são submetidos a altas temperaturas (o jogo do Palmeiras atingiu mais de 30ºC), o que provoca um grande desgaste físico e, por consequência, psicofisiológico também, pois ter uma queda de pressão durante o jogo (como relatado por alguns atletas) pode abalar qualquer jogador, mesmo os mais experientes. Isto normalmente é relatado em desidratação moderada.

Do ponto de vista fisiológico, jogar às 11hs também pode ser maléfico, mesmo com toda a tecnologia das roupas esportivas, pois os jogadores terão uma perda de líquido e sais minerais maior comparada a de um jogo no fim da tarde ou à noite, e isso prejudicará severamente a performance dos atletas. Alguns estudos demonstraram que jogadores de futebol profissional saem mais desidratados do que de costume em jogos em ambientes quentes e pioram muito sua capacidade anaeróbia (a responsável pelos sprints, chutes e passes de precisão, cabeceios e as principais defesas dos goleiros), essencial para qualquer jogador de futebol.

Quando a desidratação é leve, o principal sintoma é a sede. Mas quando ela passa a ser moderada o aumento da temperatura corporal e da frequência cardíaca preocupam e já começam a interferir na performance do jogador. Na desidratação extrema (a mais grave de todas), algum atleta pode vir a óbito em campo por conta da hipertermia (excesso de temperatura corporal), pois o corpo não consegue regular a temperatura corporal adequadamente principalmente por falta ,de água e sais minerais chegando a temperaturas extremas para o corpo humano (temperatura interna acima de 43ºC).

Uma saída simples e bem-vinda seriam as paradas técnicas nos dois tempos de jogo, na metade de cada tempo (por volta dos 25 min), para os atletas se hidratarem e continuarem a partida com segurança e grande performance, assegurando o espetáculo que todos esperam.

Gerson S Leite,

pesquisador da Faculdade de Medicina da USP; fisiologista do Esporte na TRIFOSFATO e professor de Fisiologia do Exercício na UNINOVE

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