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É a favor do uso de recursos eletrônicos na arbitragem?

14 de Setembro de 2015 | 00:00
Atualizado 15 de Setembro de 2015 | 16:53

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Após sucessivas reclamações, a CBF cedeu à pressão da Comissão Nacional de Clubes por mudanças na arbitragem brasileira e anunciou que solicitará à Fifa a utilização de recursos eletrônicos no Campeonato Brasileiro do próximo ano.

Consultamos Paulo André, zagueiro do Cruzeiro e membro do Bom Senso FC, e Roberto Armelin, presidente da Comissão de Estudos de Direito Desportivo do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), sobre o tema, mas também queremos a sua opinião: é a favor do uso de recursos eletrônicos na arbitragem? Comente!

De volta para o futuro?
De volta para o futuro?

Roberto Armelin

Advogado

Pressionada pelos clubes, a CBF admitiu solicitar à Fifa autorização para utilização de recursos eletrônicos para auxiliar a arbitragem no Campeonato Brasileiro do próximo ano. A notícia pode parecer animadora, mas também pode ser inócua.

Há muito tempo, clubes e atletas pedem que sejam tomadas providências para evitar os erros cometidos pelos árbitros nas partidas de futebol. Todavia, a Fifa sempre resistiu à adoção de mecanismos de tecnologia, só recentemente cedendo em relação ao chip na bola para aferir casos de dúvida acerca da ocorrência (ou não) do gol. O primeiro jogo em que foi utilizada essa tecnologia ocorreu na Copa de 2014, no Brasil (França x Honduras).

Antes disso, aliás, já admitira a Fifa o uso de imagens para fins disciplinares, para punir atletas por conduta não vista pelos árbitros (Tassoti, Copa de 1994). 

Se na perspectiva da lógica os erros dos árbitros se explicam, na perspectiva do esporte tais erros são, para os que se sentem prejudicados, imperdoáveis. E, muitas vezes, interferem decisivamente no resultado desportivo de uma partida, ou mesmo de uma competição.

A questão que parece se colocar é: deve o futebol render-se à tecnologia e substituir o árbitro humano? Não se estaria extinguindo a essência do esporte, eliminando o imponderável?

No fundo, o problema não é a relação entre esporte e tecnologia. O essencial é: o resultado desportivo deve prevalecer! Assim, ainda que se admita que os erros dos árbitros, conquanto indesejáveis, são admissíveis, o ideal é que nenhum erro interfira no resultado de uma partida e da competição.

Nessa perspectiva, podemos constatar que a tecnologia já faz parte do esporte. Há muitas modalidades que adotam ferramentas tecnológicas para colaborar com o esporte, sem pretender eliminar uma de suas características mais especiais: a imprevisibilidade. O fundamental é que a tecnologia seja agregada exatamente para fazer prevalecer o resultado desportivo evitando que atletas fraudem qualquer regra da modalidade desportiva, assegurando que ações desportivas produzam regular e efetivamente os resultados previstos na regra do esporte (se a bola entrou foi gol; quem cruza a linha de chagada primeiro é o vencedor), e punindo na disputa desportiva aqueles atletas que violarem a regra da modalidade, para evitar que não prevaleça o resultado desportivo (se o gol foi marcado em posição irregular, deve ser anulado; se o velocista que chegou primeiro largou antes da hora regular, seu tempo não terá validade).

Portanto, só falta a Fifa admitir e regulamentar a tecnologia como ferramenta para "colaborar" com o árbitro (nunca substituí-lo), a fim de fazer prevalecer sempre o resultado desportivo. Se a Fifa não admitir, autorizar e regulamentar a adoção da tecnologia no "seu" esporte, o "árbitro virtual" remanescerá só no plano das ideias e propostas. E o esporte continuará apresentando a mácula da injustiça desportiva (evitável!).

Qual futuro a Fifa pretende para o futebol? Só nos resta torcer...

Roberto Armelin,

presidente da Comissão de Estudos de Direito Desportivo do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP)

É preciso testar
É preciso testar

Paulo André

Jogador

Longe de qualquer oportunismo, o futebol precisa construir soluções para a quantidade considerável de erros de arbitragem. Em um contexto de quebra total da credibilidade da CBF, mesmo erros comuns de arbitragem causam ainda mais indignação por aqui. Algumas medidas precisam ser tomadas. Uma delas é a implementação, em caráter experimental, da chamada arbitragem eletrônica, como proposto pela Comissão Nacional de Clubes e que será encaminhado à FIFA pela CBF.

Esse processo precisa ser cuidadosamente planejado e não pode ser visto como solução definitiva, visto os problemas decorrentes da não profissionalização da arbitragem no Brasil. Também não é imune a arbitragens que, porventura, ajam deliberadamente de má-fé.

O teste do uso da tecnologia deve ser direcionado para lances capitais, definitivos. Os lances interpretativos - que dividem opiniões até de renomados comentaristas - não devem ser submetidos à verificação eletrônica, sob pena de comprometerem a dinâmica do jogo.

Defendo o uso da arbitragem eletrônica em dois casos específicos e definitivos: lances de impedimento e a verificação se a bola passou a linha do gol. 

O melhor modelo para que a fluidez do jogo não seja prejudicada é conceder a cada técnico dois desafios por jogo. Esse pedido não deverá consumir mais que um minuto e será acrescido ao fim dos 45 minutos.

O mecanismo do desafio é utilizado no tênis, por exemplo, com assertividade, permitindo verificações rápidas de lances polêmicos, que pela velocidade do jogo possam escapar aos olhos e ao reflexo da arbitragem.

Duas injustiças podem ser evitadas com o uso pontual da arbitragem eletrônica. A primeira e mais grave são as decisões equivocadas que mudam os resultados das partidas, que comprometem a credibilidade do jogo. A segunda injustiça é a com os próprios árbitros, massacrados por opiniões de quem pode ver e rever os lances à exaustão.

O presidente da CBF, que não pode ir pessoalmente levar a questão à FIFA, deve assumir sua verdadeira responsabilidade profissionalizando a carreira de árbitros e assistentes, permitindo-lhes dedicação exclusiva à profissão, formação adequada, salários dignos e um plano de carreira sólido. Começando com o investimento imediato na arbitragem dos valores que arrecadam com o patrocínio nas camisetas dos árbitros. Para fazer isso, a CBF não precisa de autorização da FIFA, basta que decida fazer o básico.

Paulo André,

zagueiro do Cruzeiro e membro do Bom Senso FC

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