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Pablo Burgos/AFP

O Brasil tem chance de ficar fora da Copa de 2018?

Jornalistas do Estadão discutem motivos para mau momento da seleção brasileira nas...

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Estadão Esporte,

30 de Março de 2016 | 00:00
Atualizado 30 de Março de 2016 | 18:48

Pablo Burgos/AFP

A seleção brasileira ficou em situação delicada nas Eliminatórias da América do Sul após empatar por 2 a 2 com o Paraguai, fora de casa, pela 6ª rodada. Com nove pontos conquistados até o momento, a equipe comandada por Dunga está na sexta colocação, fora da zona de classificação para o próximo Mundial, que será disputado na Rússia. Os jornalistas do Estadão Antero Greco, Almir Leite e Robson Morelli analisam os problemas da seleção, que tem chances concretas de não se classificar pela 1ª vez na história para uma Copa. Participe você também com a sua opinião!

Brasil vai para o divã depois de partidas ruins
Brasil vai para o divã depois de partidas ruins

Robson Morelli

Jornalista

Não é mais uma fábula o fato de a seleção brasileira ficar fora de uma Copa do Mundo. Trata-se de uma situação real e que seria inédita. Desde que a Fifa organizou a primeira competição mundial em 1930, vencida pela Uruguai, o atual líder das Eliminatórias para o Mundial da Rússia, o Brasil figura entre os selecionados. Seria o fundo do poço do futebol brasileiro, contrariando aqueles que achavam que não havia como afundar mais após o 7 a 1 contra a Alemanha na Copa de 2014. Há motivos que explicam a fragilidade da seleção, a começar pela forma com que seu treinador entende o riscado.

Dunga cobra raça e entrega, e não é de hoje, como se todos os jogadores que ele chama não se doassem. Ocorre que o treinador não consegue dar padrão tático ao time, organizar suas ideias e se fazer entender claramente. Quando Neymar está em campo, o Brasil entrega todo o trabalho para o jovem atacante do Barcelona. Ele, Willian e Douglas Costa são os encarregados de fazer gols e as jogadas de ataque. Graças ao talento do trio, até que tem funcionado. Nos primeiros 30 minutos diante do Uruguai, cheguei a pensar que o Brasil tinha achado uma formação.

Mas quando Neymar não está em campo, o Brasil não tem esquema. Contra o Paraguai, Douglas Costa e Willian se perderam e deixaram Ricardo Oliveira isolado. A seleção passou a jogar com um atacante de referência, o que não tem com Neymar na equipe. Os jogadores se confundem. Há ainda erros individuais em quase todas as partidas, e de jogadores que sabem atuar e são melhores do que geralmente mostram com a camisa do Brasil. Parecem que não estão à vontade, pressionados e cobrados pelo treinador. Miranda e David Luiz erraram contra o Uruguai. Daniel Alves (apesar do gol salvador), Filipe Luís e Fernandinho foram mal em Assunção. Comprometeram.

É preciso ainda apontar o papel de Neymar nesta história. O fato de ele ‘nunca’ estar em campo quando o Brasil mais precisa ou quando as coisas não estão dando certo ou a pressão é maior tem incomodado muitos torcedores. Neymar adora jogar no Barcelona e se diverte fazendo isso, combinando gols e jogadas com Suárez e Messi. O trio brinca e humilha os rivais. Na seleção, Neymar é outro, muito mais inconsistente. Pior. Perde o prumo quando suas jogadas não acontecem como na Catalunha, quando a marcação é intensa e quando é provocado e não consegue dar sequência às jogadas. Revida, se perde, toma cartão de graça e de bobeira.

O Brasil precisa de Neymar e ele precisa entender o tamanho desta dependência. Não pode se perder com coisas menores e prejudicar o time de Dunga ou de qualquer outro treinador. A última notícia que se tem de Neymar é que ele estava numa festa em Santa Catarina após ser dispensado pelo treinador. Não se tem notícias de Messi em situação parecida. Neymar ainda não sabe o seu tamanho para a seleção e para os milhares de torcedores do Brasil.

Na conta de Dunga ainda pesa o fato de a seleção jogar apressadamente, sem tocar a bola no meio de campo, apostando numa correria que quase sempre não leva muito longe. Não é mais um time insinuante, que faz o rival se curvar ou ao menos se preocupar, para não dizer temer. Há um elenco, mas não há uma equipe. Na sexta colocação nas Eliminatórias, portanto, fora do G-5 que carimba o passaporte para a Rússia, a seleção tem em cinco meses até o jogo contra o Equador, pela sétima rodada, mais duas competições para disputar, a Copa América nos EUA e os Jogos Olímpicos no Rio.

Robson Morelli,

Editor de Esportes do Estadão.com.br

Dungadas e cabeçadas
Dungadas e cabeçadas

Almir Leite

Jornalista

Dunga disse, após o empate que caiu do céu com o Paraguai, que no segundo tempo do jogo o Brasil aprendeu a jogar Eliminatória. Referia-se à vontade, garra, determinação. E ao sofrimento.

O blog não vai nem entrar na discussão filosófica dos benefícios do sofrimento, se é e quando existem, nem perder tempo discutindo vontade, garra, determinação, visto que são ingredientes obrigatórios no futebol e na vida.

Discussão boa, acredita o blogueiro, é por que Dunga não consegue fazer a seleção jogar bola.

De cara, esse papo de falta de tempo para treinar é verdade até a página 5. Dunga mantém essa base na seleção há bom tempo e, não se deve esquecer, que na rodada anterior das Eliminatórias, o Brasil, que exigiu, e o Uruguai, por ser o adversário, tiveram um dia a mais para treinar do que todas as outras seleções.

Dunga, em vez de arranjar desculpas inconvincentes e exaltar a “porrada” em vez da técnica, poderia rever alguns conceitos.

O posicionamento de Neymar, por exemplo. No Barcelona, ele rende porque é praticamente um ponta-esquerda – com liberdade de movimentação; na seleção, com essa história de jogar sem centroavante fixo e com Willian e Douglas Costa abertos, Neymar fica centralizado. Na teoria, tem liberdade para ir onde quiser; na prática, tem dificuldade de ser o falso nove. Recua demais e quando se vê de costas para o gol, não rende.

Na defesa, há Dungadas incompreensíveis. Por que não contar com Thiago Silva, que muita gente que entende de bola considera o melhor zagueiro do mundo (esse blogueiro não entende quase nada, mas concorda com quem entende), apesar do choro e da mão boba, e insistir com David Luiz, bom de marketing e propaganda, mas ruim de bola e de equilíbrio.

Outra questão: até o Stevie Wonder vê que  Marcelo, com uma perna só, joga mais do que o correto e eficiente, mas limitado, Filipe Luis.

Além disso, Luiz Gustavo, excelente marcador, anda em má fase faz tempo. E também não adianta colocar Fernandinho, ou Elias quando joga, para chegar na área toda hora. Dá impressão de ofensividade, mas é quanto à efetividade?

Tanto Elias como Fernandinho (que foi mal pacas contra o Paraguai) são bons jogadores. Mas têm de ser escalados como volantes que sobem, não como se fossem meias.

Há vários outros problemas. Mas haverá tempo para falar sobre eles.

Por fim, uma esperança: já que os atuais jogadores brasileiros aprenderam como se joga Eliminatória, quem sabe Dunga não se inspira e aprende a respeitar – sem deixar de olhar o que é feito de bom lá fora – as características do futebol brasileiro.

Almir Leite,

Editor-assistente da editoria de Esportes do Estadão

Ah, a seleção...
Ah, a seleção...

Antero Greco

Jornalista

O Brasil ficar fora de uma Copa soa como literatura fantástica, filme de terror, tragédia do mundo da bola. Hipótese fantasmagórica e coisa de pessimistas de carteirinha. Pois convém o torcedor desde já cogitar da possibilidade de ocorrer essa catástrofe.

Embora haja muito caminho a percorrer até a Rússia, a equipe de Dunga e CBF cava fosso para afundar-se numa região em que as Eliminatórias concedem quatro vagas diretas e uma na repescagem. O desempenho na primeira parte do torneio qualificatório é tão frágil que, no momento, o país pentacampeão está em sexto lugar. Preocupante.

 

A amarelinha virou um tédio na maior arte de seus jogos. Às vezes, como ontem, reserva emoções para o final, como forma de encobrir a raiva que desperta. Pouco importam os esboços de ironia do treinador nas respostas, sobretudo depois de derrapadas ou quando se salva na bacia das almas, como aconteceu em Assunção. Seleção é coração, também, mas não só; precisa, acima de tudo, de técnica. 

A seleção age muito como marionete mal manipulada. Um punhado de soldadinhos a espalhar-se pelo campo sem coordenação, sem brilho, sem controle tático e emocional. O Brasil não incomodou os paraguaios no primeiro tempo, exceto por um chute de Ricardo Oliveira que acertou o travessão. No mais, ficou feito barata tonta à cata dos adversários, tomou um gol e não levou outro por milagre de Alisson.

No segundo, Dunga imaginou formação mais forte ao colocar Hulk no lugar de Fernandinho. Mas, na enésima desatenção defensiva, veio o segundo gol paraguaio. Depois, entrou Lucas Lima na vaga de Luiz Gustavo. Como em situações semelhantes, o grupo sentiu o baque, foi à frente na base da boa vontade e da correria. O Paraguai, que tinha o controle, recuou e pagou o preço alto por isso ao levar os dois gols que valeram o empate na parte final. Por um triz não engoliu a virada no lance final.

A seleção evitou vexame, mas não esconde deficiências. Não tem maestro, alguém para colocar a bola no chão e pensar o jogo. Não tem protagonistas, quem desequilibre em favor dela. A seleção continua a depender da inspiração, do humor e das aparições de Neymar. A seleção tem um técnico atônito. 

Antero Greco,

Jornalista e colunista de futebol do Estadão

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