Com garotos, Paulistano vê sonho do primeiro título do NBB

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 07h00

A direção do Paulistano se reuniu com o técnico Gustavo de Conti antes do início da temporada e ofereceu uma renovação de contrato por dois anos. A assinatura foi seguida de um pedido do diretor de esportes, Carlos Neves, para trabalhar com jogadores jovens, uma tradição no clube, sem se importar com resultados.

Apesar de um corte no orçamento de 40% de um ano para o outro e uma folha salarial de R$ 115 mil mensais, o décimo segundo elenco mais caro  entre os 15 times do NBB, o treinador, com ajuda do supervisor e preparador físico Diego Jeleilate, montou um grupo talentoso e, após surpreender muita gente pelo caminho, decide o título contra Bauru. O primeiro jogo da série melhor de cinco é hoje, às 14h, no Ginásio Antonio Prado Junior, em São Paulo, com transmissão de Band e SporTV.

"Foi um trabalho que, desde o começo, não sabíamos onde iríamos chegar", admitiu o técnico Gustavo de Conti, o Gustavinho. "Não traçamos nenhum objetivo em termos de resultado. Queríamos revelar jogadores. Fomos etapa por etapa, jogo após jogo... Às vezes, por bloco de jogos, colocávamos metas, mas não tínhamos o objetivo de chegar na final ou ser campeão."

A estratégia foi buscar promessas em outros times para agregar talento aos jovens jogadores que já estavam no Paulistano. Georginho de Paula (20 anos) e Lucas Dias (21), ambos do rival Pinheiros, e Iago (17), do Palmeiras, chegaram para unir forças com Mogi (20) e Arthur Pecos (23). Também foram contratados atletas mais experientes, mas com identificação com o clube, como Renato, de 29 anos.

"Poderíamos montar uma equipe melhor no começo da temporada, com jogadores experientes, 27, 28 anos, sem uma perspectiva de crescimento, com o mesmo orçamento. Decidimos optar pelos jovens", explicou Gustavinho. "Fomos atrás dos melhores frutos, fizemos uma triagem dos atletas que poderiam dar esse retorno. Fomos cirúrgicos nas contratações", reforçou Diego.

No Paulistano, Georginho ganhou o papel de protagonista que não conseguiu no Pinheiros. O armador registra médias de 11,3 pontos, 4,3 assistências e 4,2 rebotes e, ao final da temporada, tentará entrar na NBA pelo draft. Já Lucas Dias, que era titular no rival, melhorou o desempenho defensivo, sem perder sua efetividade no ataque. É o cestinha do time, com média de 13,1 pontos.

Liderado pela dupla, o Paulistano se tornou o elenco mais jovem a chegar na decisão do NBB, com uma média de idade é de 21,9 anos. Coincidemente, do outro lado, estará o experiente Bauru, que conta com jogadores como Valtinho (40), Alex (37), Jefferson (34) e Shilton (34), por exemplo. A média de idade é de 27,3 anos.

"É o confronto de uma equipe experiente contra uma jovem. Temos de usar nossa saúde, digamos assim, para surpreendê-los", avisou Georginho. "Não vão enfrentar uma equipe acanhada. Vamos para cima deles. A nossa cara de pau está surpreendendo muita gente e, por isso, estamos tendo sucesso."

Para Gustavinho, o Paulistano precisa tomar muito cuidado. A experiência do Bauru pode pesar na decisão. A equipe do interior chega para sua terceira final consecutiva de NBB. Nas outras duas oportunidade acabou sendo superada pelo Flamengo.

"É um dos melhores elencos do Brasil, com jogadores experientes, acostumados com decisões, será muito difícil enfrentá-los. Apesar disso, o nosso time está bem preparado. Espero que possamos surpreender mais um pouco no campeonato e agarrar esse título que é tão sonhado pela gente", afirmou o técnico do Paulistano.

A conquista seria inédita. O Paulistano nunca foi campeão nacional. O time chegou na decisão na temporada 2013-2014, mas foi derrotado pelo Flamengo, quando o título ainda era decidido em jogo único. Campeão em 2002, Bauru busca sua primeira glória no NBB. Até aqui, em oito edições sob organização da Liga Nacional de Basquete, apenas Flamengo (cinco vezes) e Brasília (três) foram campeões.

"Sempre vi pela TV, Flamengo e Brasília, e queria sentir essa sensação de estar na final. Agora estou na final e ansioso para jogar", avisou Lucas Dias.

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Após drama pessoal com filha, Gustavinho tem segunda chance em final

Técnico teve de conciliar primeira decisão do NBB com tratamento contra leucemia da pequena Bruna 

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 07h00

A voz fica embargada, os olhos marejados... É difícil para o técnico do Paulistano, Gustavo de Conti, não se emocionar ao relembrar o que passou ao lado da filha na reta final do NBB de 2013-2014. O treinador teve de conciliar o esporte que tanto ama com os cuidados de Bruna, que tinha um ano e meio e havia sido diagnostica com leucemia. Agora está de volta à final em um momento completamente diferente.    

"Foi um ano muito mais tranquilo do que aquele. Naquela oportunidade, eu fiquei muito pouco tempo aqui (no ginásio) na reta final. Minha filha ficou 90 dias no hospital, 63 dias na UTI. Foi muito complicado", relembra.

Gustavinho perdeu treinos, ficou ausente em alguns jogos. A ajuda da comissão técnica, então formada por Beto Jayme (assistente técnico), Diego Jeleilate (preparador físico) e Felipe Filomeno (fisioterapeuta), foi fundamental.  

A pequena Bruna, que completou quatro anos, se recuperou e agora serve de incentivo para o treinador aproveitar sua segunda chance na final da NBB. Naquela primeira decisão, o Paulistano, que agora enfrenta Bauru, foi superado pelo Flamengo. 

"Hoje é muito legal ver minhas duas filhas assistindo aos jogos, principalmente ela, brincando no intervalo, pulando, com a camisa com o nome dela. É uma sensação muito legal de ver que ela está curtindo também. Fico muito mais feliz por ela curtir", afirmou Gustavinho, casado com Alessandra e pai também de Julia, de sete anos.

"Não é uma coisa que volta muito na minha cabeça, mas, quando estou em casa, com a minha mulher, assistindo o replay dos jogos, filmagens, fotos, não tem como não lembrar", completou, emocionado. 

Além de viver outro momento na vida pessoal, Gustavinho também evoluiu profissionalmente. Depois daquela derrota na final do NBB, o treinador fez parte da comissão técnica da seleção brasileira no Campeonato Mundial de 2014, na Espanha, e nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, além de participar de clínicas da NBA e Euroliga. "Chego muito mais preparado", avisou.

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Marcius Azevedo , O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 07h00

De pouco aproveitado ao papel de protagonista. A carreira de Georginho de Paula mudou completamente em um ano. A decisão de trocar o Pinheiros pelo rival Paulistano fez o armador ganhar minutos em quadra e, em momentos decisivos na temporada, comprovar que estava pronto para liderar uma equipe.

"Se minha saída do Pinheiros foi conturbada precisou ser assim para eu acordar um pouco pra vida", afirmou o jogador de 20 anos. "Deixaram de passar a mão na minha cabeça e dizer que eu era só um moleque. Quando cheguei na casa dos 20 anos também percebi que não era um garoto, que eu tinha responsabilidade de um adulto", completou. 

Com médias de 11,3 pontos, 4,3 assistências e 4,2 rebotes, o armador terá a dura missão de liderar o Paulistano na final do NBB contra Bauru. A primeira partida será em São Paulo, mas depois o time da capital terá de atuar no interior. Georginho não parece preocupado.  

"Será mais um jogo de playoff com torcida contra, como foi com o Cearense, Franca, Vitória... A nossa equipe está acostumada com isso. Tudo vai ser decidido dentro de quadra. A torcida não vai influenciar e não estamos preocupados com isso", avisou.

O discurso confiante do jogador faz parte da transformação. O armador aprendeu na marra ao ser cobrado pelo técnico Gustavo de Conti. Gustavinho admite que contratar Georginho foi uma aposta arriscada no começo da temporada.

"Era uma dúvida. A minha pergunta para o agente dele foi: o Georginho consegue armar o jogo e passar o meio da quadra se ele for pressionado por um jogador que defende muito? A resposta foi que sim e fechamos o acordo", relembra.

"Eu sabia do potencial dele, mas também tinha o (Arthur) Pecos (outro armador) aqui. Pesamos o risco e decidimos que valia. Quando ele chegou aqui deu para ver o potencial, são poucos no Brasil como ele. Ele também tem uma personalidade bacana, escuta bastante, tenta fazer o que você está falando. Isso conjugou para ele ter esse crescimento", elogiou.

Georginho gostou de receber esta responsabilidade. "Aprendi com os jogos que tive de decidir, quando o time precisava que eu estivesse focado em momentos decisivos, porque o jogo estava fluindo para mim. Recebi muita confia da comissão técnica para decidir", disse. "Fui me encaixando neste papel de protagonista e percebi que estava passando de menino para adulto."

Focado nas finais do NBB, o armador pode se despedir do basquete brasileiro em breve. Georginho é um dos jogadores inscritos na próxima edição do draft da NBA, que acontece no dia 22 de junho. Por enquanto, ele só está pensando no Bauru.     

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Com corte no orçamento, Bauru se reinventou para chegar à decisão

Presente nas últimas duas finais do NBB, equipe perdeu 50% da receita antes do início da temporada

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 07h00

Bauru disputa contra o Paulistano sua terceira final consecutiva do NBB, mas o cenário é bem diferente dos últimos dois anos. A equipe do interior de São Paulo passou por um corte brusco de orçamento e não rivaliza mais com o Flamengo, adversário nas decisões, no aspecto financeiro. A folha salarial do elenco é de R$ 160 mil mensais, o que significa que apenas o salário do ala Marquinhos cobre 62% do custo bauruense.

A mudança aconteceu depois da saída do principal patrocinador, a Paschoalotto Serviços Financeiros, antes do início da temporada. O presidente do Bauru, Roberto Fornazari, conseguiu um acordo com a Gocil, empresa do ramo de serviços e segurança, que evitou o fim da equipe, mas, ao receber menos, precisou buscar mais parceiros. 

"Hoje temos o uniforme mais estampado do NBB", comenta Fornazari. "Oferecemos cotas menores para não depender apenas de um patrocinador. O antigo patrocinador colocava muito dinheiro no basquete", completou.

O orçamento de um ano sofreu um corte de 50%. A perda do poder financeiro fez o Bauru ver jogadores importantes, como Ricardo Fischer, Robert Day e Murilo, irem embora. Alguns outros, entre eles Alex, Rafael Hettsheimeir, Jefferson e Léo Meindl, segundo o presidente, entenderam o momento de tradição da equipe. 

"Existe uma identidade desses jogadores com Bauru. Eles aceitaram ganhar um pouco menos, aceitaram um contrato de apenas um ano, o que é raro para jogadores deste nível, para ficar", explicou Fornazari.

O técnico Demétrius também permaneceu e outros jogadores foram contratados, com destaque para Gui Deodato, Valtinho, Gegê e Shilton. No meio do caminho, outro baque. Hettsheimeir recebeu uma oferta do Málaga e foi atuar no basquete espanhol. Naquela altura, Bauru não podia mais contratar ninguém porque as inscrições haviam terminado. 

"Estava todo mundo lamentando. O Rafael já tinha ido embora há uns dias e tive que dar um chacoalhão no time", revelou o presidente. 

Para Fornazari, Demétrius tem uma parcela enorme na chegada de Bauru na decisão. "É talvez o elenco de Bauru mais fraco dos últimos três anos, mas soubemos encontrar uma maneira de jogar", elogia. "Tínhamos um ataque poderoso e mudamos no meio do campeonato para uma defesa poderosa", completou. 

Otimista, o presidente espera que o time possa, enfim, conquistar o título depois de bater duas vezes na trave contra o Flamengo.

 

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