Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

'O principal problema de uma confederação é não ser transparente', diz Guy Peixoto

Entidade está próxima de obter certidão que vai possibilitar pleitear o repasse de verbas do COB e de projetos de incentivo 

Entrevista com

Guy Peixoto, presidente da CBB

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 07h00

A gestão do presidente da Confederação Brasileira de Basquete, Guy Peixoto, espera para esta quinta-feira uma importante confirmação. A entidade está próxima de obter a Certidão Negativa de Débito (CND) da Receita Federal e, com esse documento, poderá pleitear o repasse do Comitê Olímpico do Brasil (COB) - R$ 4 milhões anuais - e outros R$ 5 milhões em verbas provenientes dos projetos de incentivo ao esporte. A possibilidade de liberação do dinheiro após 68 dias de trabalho árduo arranca um sorriso do rosto do dirigente, que concedeu entrevista exclusiva ao Estado em um hotel localizado na zona sul de São Paulo.

Desde que assumiu o comando da CBB, no começo de março, Guy colocou dinheiro do próprio bolso para contornar o cenário de terra arrasada. Os funcionários estavam com três meses de salários atrasados, sem vale refeição nem vale transporte. A situação continua crítica. A dívida é de R$ 10 milhões. Há ainda diversos processos na Justiça, como o do ex-técnico Rúben Magnano. 

Ex-jogador e empresário bem-sucedido, ele aceitou o desafio após ouvir inúmeros pedidos de ex-companheiros das quadras. Ele quer deixar tudo em ordem nos quatro anos de mandato e, diferentemente dos antecessores, prometeu que não vai concorrer à reeleição. "Vou me doar nesse período para contribuir com o basquete brasileiro."

O que te fez aceitar o desafio de assumir a CBB?

Há muito tempo me solicitavam para participar efetivamente. Sempre ajudei o basquete. Gosto de dizer que armaram para mim. Recebi diversos vídeos emocionados de Hélio Rubens, Wlamir Marques, Amaury Passos... Isso me tocou. Joguei na seleção no tempo em que era uma honra. Temos de retomar isso. Sofri também na pele com os desmandos da confederação já naquela época. Era um jogador que não ficava calado. Tinha o sonho de chegar em uma Olimpíada, mas fui cortado em função de uma entrevista que eu dei para um jornal. Falei o que não deveria. Parei dedo, com 23 anos. O lado bom é que segui uma carreira empresarial de sucesso. O lado ruim é que parei muito cedo em um esporte que amo. Espero realizar o sonho agora de conquistar uma medalha olímpica, juntamente com essas pessoas que foram meus ídolos. Eles não me pediram apenas para ser o técnico do time. Eles estão jogando junto comigo.

Qual cenário encontrou na entidade?

Era uma terra arrasada. O meu primeiro sentimento foi de indignação. Indignação de atleta, de desperdício de dinheiro público. Realmente me deixou revoltado na primeira semana, o sangue subiu um pouco, mas depois eu respirei porque precisamos tomar decisões de forma tranquila. A decisão de contratar uma empresa internacional para realizar uma auditoria foi correta, era como estivéssemos assumindo uma empresa ou pensando em comprá-la. A gente precisa esclarecer o que aconteceu nos últimos oito anos. Eles estão indo nos detalhes, avaliando todos os contratos, por onde entrou o dinheiro, o que foi feito... Já foram 30 dias da auditoria e eles me pediram mais 60.

Você vê má gestão ou má fé?

Entendo, inicialmente, como má administração. É uma conta fácil. Você não pode gastar mais do que recebe. Você não pode receber dinheiro para utilizar no esporte e pagar aluguel, ou alguma dívida. Boa parte da verba da confederação é carimbada. Você recebeu dinheiro para usar na preparação para o Mundial e está claro que foi dado outro fim. 

Qual o valor da dívida? O balanço aponta R$ 10 milhões... É isso?

É de R$ 10 milhões. O que acontece é que existem várias ações cíveis e trabalhistas e, quando você soma essas pedidas, ela cresce bastante. Mas isso só será dívida quando for executado

São processos que assustam?

Os salários eram altos, acima do mercado, mas não eram muitos funcionários. Não me assusta, até porque, na questão trabalhista, está muito claro o que precisa ser pago. Não teremos surpresas. Surpreende o Magnano, que era muito bem remunerado (entrar com uma ação). O que ele está reclamando são suas mordomias extras que recebia da confederação. Algo que nunca foi transparente. O principal problema de uma confederação é não ser transparente. Não é só no basquete. Todas as confederações não são transparentes com o dinheiro que recebem do Ministério do Esporte, do COB... Isso precisa acabar.  

 

Sem receita, o jeito foi colocar dinheiro do bolso?

É muito difícil tocar uma empresa com os salários atrasados. Você precisa ter funcionários motivados. A solução foi eu arcar com algumas despesas. Eram três meses de luz atrasada, salários, vale transporte, vale refeição. Isso teve de ser feito ou a CBB estaria fechada. 

Mas é empréstimo ou doação?

Se em algum momento, e eu acredito nisso, a CBB tiver condições de restituir o que foi emprestado, nada mais justo. Mas, caso não aconteça, será uma doação para o basquete brasileiro.

Você também não terá salário?

Não é só o salário. Nenhuma despesa minha, seja para viagens ou qualquer outra coisa, será paga pela CBB. Nem o meu cafezinho será pago pela CBB. Não sou apenas eu que estou doando, são 20, 30 ex-jogadores que estão se doando sem remuneração.

É um movimento interessante de ex-jogadores no poder...

O mundo está mudando para isso. Hoje temos algumas confederações que estão sendo comandadas por ex-jogadores, como China, Rússia, Argentina, Espanha... É um esporte que nos amamos e nada mais justo do que colaborar. 

Em que pé está a questão da suspensão da Fiba? O Brasil já está fora dos Mundiais Sub-19...

Fico triste principalmente por nos deixarem fora dos mundiais. São os sonhos desses jovens. Mas também entendo o pensamento deles. Tudo que foi prometido, e não foi nem uma nem duas, foram várias situações, onde a antiga gestão assumiu compromissos e não honrou. Agora é outro grupo, outras pessoas, ex-jogadores... Temos o apoio das federações. Eles foram muito solícitos na última reunião, foram três dias de encontros. Tivemos oportunidade de apresentar tudo que estamos fazendo. Os propensos patrocinadores da CBB, com cartas assinadas. A principal preocupação deles é se a CBB terá condições de sair desta situação. Eles prorrogaram em mais 30 dias para tomar uma decisão e tenho certeza de que eles vão liberar o Brasil na próxima reunião (dia 21 de junho). Eles vão mandar um emissário ao Brasil para acompanhar de perto na próxima semana e isso é um bom sinal.

Você se encontrou com o pessoal da NBA, pensa em uma parceria?

Em apenas um encontro já fechamos uma parceria para dois ou três árbitros realizarem intercâmbio nos EUA. Isso surgiu em uma reunião, imagina quantos projetos podemos realizar juntos, principalmente para crianças. 

Neste cenário, o trabalho na base é fundamental para o basquete?

É o principal foco e foi o que não aconteceu nos últimos anos. Temos um projeto em andamento para dar entrada no Ministério do Esporte. O nosso país tem vários projetos incentivado, não apenas para empresas que trabalham com lucro real para utilizar o imposto de renda. Temos projetos incentivados nos estados, de ICMS. Já estamos em conversação com a Mercedes-Benz, nem sei se posso falar, mas, em um primeiro momento, eles já nos doaram um ônibus para as nossas seleções e vão estar junto conosco em projetos incentivados. E esse projeto é justamente para aportar as federações. Claro que todo o dinheiro enviado será cobrado transparência. Será igual uma empresa com 27 filiais. Quem faz basquete de base são as federações. O trabalho de base é o nosso objetivo já pensando nos Jogos Olímpicos de 2024.

O que pensa da Liga Nacional, que cuida do principal torneio do País?

As ligas são uma realidade no mundo. A liga apareceu em um momento de fragilidade da confederação. Eles tiveram um começo difícil e hoje vivem o melhor momento. Apanharam e aprenderam... Acho que tudo que for bom para o basquete precisa continuar. Claro que precisamos fazer uma reunião. Ainda não é o momento. Já falamos várias vezes por telefone e vamos sentar quando for o momento oportuno. A ideia é acertar alguns ponteiros. Tenho intenção de que eles continuem realizando o basquete principal. A CBB ficará com a base, com a Copa de Seleções estaduais. É o momento de união.

O basquete feminino tem sofrido bastante nos últimos anos, depois de ter uma geração maravilhosa. Tem um plano para o feminino?

Temos de tratar masculino e feminino da mesma forma. Nossos títulos são embasados por ambos. Somos campeões mundiais e vice olímpicos no feminino. Tivemos uma geração maravilhosa. Gosto de tomar minhas decisões compartilhadas. Tenho conversado bastante com a comunidade masculina e feminina, ouvindo ideias. A minha intenção é separar uma diretoria para o feminino e outra para o masculino, mas sempre trabalhando em conjunto. E isso será feito na base. Não adianta pensar no imediatismo. O que vamos plantar agora vamos colher daqui oito anos. Quatro anos é pouco, mas vou assumir aqui um compromisso. Vou ficar quatro anos na confederação, vou preparar as pessoas que vão ficar. Vou torcer para ser um ex-atleta da nossa equipe. Vou me doar nesse período para contribuir com o basquete brasileiro. 

Você falou que jogou na seleção em um momento em que era uma honra. É possível recuperar esse sentimento?

Tenho muitos exemplos comigo, de jogadores como o Marquinhos Abdalla, que foi o primeiro brasileiro draftado e recusou jogar na NBA por causa da seleção. Wlamir Marques, Amaury Passos, que vão me ajudar a embutir na cabeça desses jogadores a importância de defender o Brasil. Tive oportunidade de conversar com o Tiago Splitter. Contei a minha história e ele me contou a dele. É um garoto fantástico, que convoquei para ser o nosso embaixador nesses projetos. É difícil, mas eu acredito que vamos mudar esta questão.

Já definiu quem será o treinador das seleções?

Convoquei o Amaury e o Wlamir para me ajudar nesta decisão. Conversei também com o Hélio Rubens. É uma decisão importante. Primeiro preciso saber o quanto vou dispor para conversar com os treinadores. A maioria das pessoas que estão comigo concordam que precisamos voltar a ter um técnico brasileiro. Não é o momento ainda. Vou tomar uma decisão compartilhada. Quando você toma uma decisão sozinho o risco de errar é muito maior.

Mas já trabalho com nomes, temos diversos treinadores novos, com potencial... Tem um perfil?

Você colocou a palavra certa. O principal é criar o perfil. Precisamos que o técnico esteja preparado para compartilhar decisões. Já tivemos experiências na seleção de treinadores que queriam escolher o massagista, o preparador físico, o salário das pessoas... Quero pessoas que compartilhem com o meu perfil de administração. Hoje temos uma diretora de RH (Recursos Humanos) na confederação, não sei se as pessoas estão acostumadas em ser entrevistadas. Quando vou contratar um executivo para minha empresa ele precisa passar pela entrevista no RH. Por mais que gosto do profissional se ele não passar na entrevista, infelizmente vou ser voto vencido. Quero tomar a decisão desta forma. Temos vários técnicos que estão demonstrando capacidade e gosto de trabalhar com meritocracia. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.