Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Gabriel Melloni e Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2018 | 07h00

O alto investimento quase sempre se traduz em resultado no basquete. No caso do Paulistano, não é necessário tanto dinheiro assim para fazer frente aos concorrentes ‘endinheirados’ na atual edição do NBB. Com um gasto mensal de elenco equivalente a um pouco mais da metade dos salários de Leandrinho e Anderson Varejão no Franca e Flamengo, respectivamente, o time da capital paulista acumula 15 vitórias seguidas, superou os dois rivais recentemente e, na liderança, se credencia ao título.

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O Paulistano gasta cerca R$ 135 mil por mês para perfilar o time na quadra, custo coberto pela Corpore, patrocinadora da equipe. Embora não divulgue oficialmente, Leandrinho e Varejão recebem cerca de R$ 250 mil mensais em seus clubes. O investimento de Franca e Flamengo atinge R$ 6 milhões/ano, mais do que o dobro do necessário para manter o basquete no clube da capital.

“Sempre faltou recurso. Não temos um baita recurso atualmente, mas conseguimos disputar de igual para igual com todo mundo”, enfatizou o técnico Gustavo De Conti. “Procuramos estar sempre um passo à frente dos outros. O nosso diferencial está na estrutura que temos à disposição dos atletas.” Além da Corpore, o Paulistano se mantém com verba proveniente da Lei de Incentivo, em projetos nas esferas federal, estadual e municipal, para fomentação das categorias de base, e um dinheiro adicional do clube para cobrir os custos de uma comissão técnica de alto nível. 

Sem tanto recurso, é necessário ter perspicácia para montar o elenco nas diretrizes definidas entre Gustavinho e o supervisor Diego Jeleilate. O planejamento já prevê uma mudança de até 40% de uma temporada para outra para que o rendimento seja mantido. “Estudos até de outros esportes comprovam que isso é necessário”, explica Diego. “Perdemos peças importantes, mas que já sabíamos que íamos perder.”

Após ser vice da edição passada do NBB, o Paulistano perdeu Georginho, Pecos, Hure e Renato, mas trouxe Elinho, Sommer, Fuller, Deryk e Nesbitt. Todos atendem ao perfil desejado por Gustavinho, dentro e fora de quadra. “Uma coisa que buscamos é saber se o atleta produz muito em poucos minutos. Pensamos em sua função e no quanto ele produz aquilo em pouco tempo”, explica o supervisor. Para os jogadores, o ótimo momento não surpreende, apesar de reconhecer o favoritismo dos poderosos Franca e Flamengo na competição. “Isso é o reflexo do trabalho. A gente treina muito, trabalha dentro e fora da quadra, o grupo é bastante unido. Estamos no caminho certo”, disse o armador Elinho.

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Gabriel Melloni e Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2018 | 07h00

Não há como negar que Gustavo De Conti, o Gustavinho, é a cara deste Paulistano. Cria do clube, onde jogou quando mais jovem, ele assumiu a equipe principal em 2010, ainda aos 30 anos. De lá para cá, participou ativamente da evolução do time ano a ano, até a primeira conquista, no fim de 2017, do Campeonato Paulista.

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“Devo tudo ao Paulistano. Comecei na base, passei por todas as divisões. Fico muito satisfeito com o que está acontecendo com o time. O Paulistano nunca tinha chegado à final do NBB. Chegou. Nunca tinha sido campeão paulista. Agora foi. É superação atrás de superação.”

Gustavinho foi o líder deste processo. Da queda na primeira fase dos playoffs na temporada 2009/2010 do NBB, passando pelos vices do torneio em 2013/2014 e 2016/2017, o Paulistano evoluiu junto ao técnico e se firmou entre os principais times do País. “É bastante coisa que estamos conquistando.”

Naturalmente, Gustavinho ganhou força dentro do clube e passou a extrapolar a quadra, atuando em outras áreas e tendo participação nas decisões da diretoria. “É claro que existe uma hierarquia aqui. Mas uma coisa muito importante é que as pessoas acima de mim me ouvem bastante. Claro, não fazem tudo que peço, mas temos um entendimento muito bom.”

O comprometimento do treinador chega a incomodar em alguns momentos. “O dia a dia comigo não é fácil. Sei que sou um cara difícil. Mas enfatizo sempre que não é pessoal”, diz. “Ele tem personalidade forte, é intenso, vive isso aqui 24 horas por dia. Então, 3h, 4h da manhã, ele manda mensagens. Mas faz parte, acho válido”, atesta o supervisor Diego Jeleilate.

O sucesso levou Gustavinho à seleção brasileira, como auxiliar na era Rubén Magnano. Um dos melhores técnicos do País, ele traça voos mais altos. “Tenho passaporte italiano, faço bastante contato lá. E tive convite do Obras Sanitárias, da Argentina. Gostaria de trabalhar fora até por questão cultural e familiar. Mas hoje o Paulistano é o ideal para mim.”

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Gabriel Melloni e Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2018 | 07h00

O basquete é mais do que uma profissão para Kyle Fuller. Para o americano naturalizado peruano, é uma missão. Depois da morte do pai em 2012 por causa de câncer de pulmão, o jogador de 25 anos virou o "homem da família" e usa o esporte para ajudar sua mãe Olga e o irmão Khalil.

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"Trabalho duro para ajudá-los. No mês passado, comprei uma casa para ela", revelou Fuller. A residência fica em um bairro barra-pesada na Califórnia. "Tivemos de colocar grade em frente à casa para ninguém roubar." 

Ele se preocupa com o irmão de 21 anos, que está na universidade. "Todos os garotos estão nas drogas, roubando. Falei para meu irmão que não o quero neste caminho. Precisamos de dinheiro honesto", disse. "Quero que ele olhe para mim, para o que estou fazendo, porque ele também pode fazer isso."

Em quadra, Fuller disputa sua primeira edição do NBB depois de chegar do basquete da Venezuela. O técnico Gustavo De Conti deu aval para sua contratação depois de acompanhá-lo não apenas no país sul-americano. 

"O Fuller é um cara que eu acompanhava desde o universitário nos EUA, fez a primeira temporada profissional na Venezuela no ano passado. Me foi recomendado por um agente há três anos, eu vinha analisando e agora trouxemos", comentou o técnico.

O jogador está empolgado com o momento no Paulistano, onde é o cestinha da equipe. "Quando estava na Venezuela, foi minha primeira oportunidade como profissional. Meu agente comentou que não havia muitos peruanos de sucesso no basquete, então, eu pedi uma chance. Ele falou 'ninguém respeita muito os peruanos no basquete'. E eu respondi: 'Só me dá uma chance'. Depois da liga (na Venezuela), fui eleito para o time ideal. Então, tive a chance de jogar aqui e fui o MVP do Paulista. Agora, estou aqui e sou o líder de pontos (no NBB). Então, estou fazendo meu trabalho e o basquete me respeita", afirmou.

"Antes da Venezuela, ninguém sabia meu nome. Depois da Venezuela, começaram a falar. Depois do Paulista, um pouco mais. Agora, falam muito! Então, preciso seguir fazendo meu trabalho, sem pensar muito no futuro, focando somente o agora e na quadra, em defender, ajudar minha equipe", completou.

Naturalizado peruano, ele vai defender o país nos Jogos Pan-Americanos, em 2019. E atuará ao lado do irmão Khalil. "Nunca jogamos juntos. Por isso, estou muito, muito feliz. Ninguém pensava que a gente podia fazer isso. Meu avô, peruano também, nunca pensou que pudéssemos. E vamos nós dois jogar pelo Peru. Agora, os peruanos têm mais respeito no basquete, porque estou jogando bem. Por isso, estou feliz."

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