Rodrigo Pirim|Divulgação
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Sem descuidar da saúde, Oscar treina para ser MVP no All-Star Weekend

'Mão Santa' fala sobre câncer e comenta reestruturação do basquete brasileiro

Entrevista com

Oscar Schmidt

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2017 | 18h15

Trinta e três anos depois de abrir mão de jogar no New Jersey Nets (atual Brooklyn Nets) na NBA, Oscar Schmidt terá chance de 'estrear' na liga norte-americana de basquete. O ídolo brasileiro participará do jogo das celebridades no dia 17 de fevereiro, fim de semana do All-Star Game, e promete colocar seu espírito competitivo em quadra no Mercedes-Benz Superdome, em New Orleans.

A iniciativa, viabilizada por uma ação conjunta entre ESPN, Budweiser e NBA Brasil, é uma forma de homenagear o "Mão Santa", membro do Hall da Fama de Basquete desde 2013 e detentor de diversos recordes: maior cestinha da história, com 49.737 pontos, e maior pontuador da história dos Jogos Olímpicos (1.094). Em 1984, ele foi draftado e recusou a NBA para poder atuar na seleção brasileira, conforme o regulamento da época. E ele não se arrepende da escolha.

Oscar tem treinado diariamente para mostrar a mão calibrada nos Estados Unidos, mas os cuidados com a saúde continuam. Em entrevista ao Estado, conta que sentiu uma "zoeira na cabeça" durante atividade uma semana depois de passar pela quimioterapia. Recuperado de um câncer no cérebro diagnosticado em 2011, o ex-jogador garante que isso não será um problema durante a partida.

"Mão Santa" vai além do jogo festivo no bate-papo e também comenta o atual momento do basquete brasileiro. Para ele, é preciso "fazer uma limpeza geral e recomeçar do zero". Apesar da posição crítica, prefere não se envolver na reestruturação da Confederação Brasileira de Basquete (CBB). 

Tem um espírito competitivo para esse jogo da NBA?

Sem dúvida. Se eu vou jogar alguma coisa, vou ter de jogar o meu máximo e o meu máximo é buscar ser MVP. Vou treinar muito para que isso aconteça e todos os dias, não treinei anteontem porque choveu e ontem porque cheguei tarde em casa. Vou treinar na meia quadra que tenho em casa e, se chover, vou no clube.

Quem você gostaria que participasse nesse jogo com você?

Gostaria muito que alguns brasileiros estivessem lá comigo: Marcel, Cadum, Israel, remanescentes daquela grande seleção brasileira que tive a honra de jogar. Não sendo brasileiro, tem vários americanos que eu gostaria que estivessem em campo, sobretudo Larry Bird e Kobe Bryant, mas já sei que eles não vão jogar. Vamos torcer para que o Obama jogue, espero que jogue no meu time, mas, se jogar no outro time, vou dar um toco nele.

Você acreditava em uma medalha da seleção brasileira masculina na Olimpíada. Você se decepcionou com o resultado?

Me decepcionei bastante, Brasil tinha chance de ganhar medalha, não conseguimos ganhar porque não soubemos ganhar. Esse é o grande problema da seleção brasileira.

E o que você acha que precisa ser feito para que a seleção recupere o prestígio?

Primeiro, precisa mudar de cima para baixo, como já está sendo feito. Mudar a presidência, mudar dirigentes, mudar técnico e depois os jogadores, tem de fazer uma limpeza geral mesmo, recomeçar do zero. Para você não ganhar, melhor tirar quem não serve. Aí começa com a molecada, com os jogadores da NBA e a gente vai ter um futuro melhor.

Como você está vendo a crise da CBB?

É uma coisa que envergonha a todos os jogadores de basquete. Tenho vergonha de ter uma confederação desse tipo. Espero que entre pessoas mais decentes no comando da confederação. Hoje não temos confederação. 

Você aceitaria participar da reestruturação da CBB?

Não. Não porque não me meto mais em cargos políticos. 

Alguém chegou a conversar com você?

Sempre tem alguém que conversa, preferi não me meter.

E quem você acha que seria um bom nome para assumir o comando da seleção?

Do Brasil, o (Cláudio) Mortari e o Marcel ou os dois juntos. São duas pessoas que conheço, confio e já mostraram que têm capacidade. Esses dois juntos seriam, na minha opinião, dois grandes técnicos. E estrangeiro, (Bogdan) Tanjevic, cara que me levou para a Europa. Esse cara ganha aonde ele vai. Se viesse para o Brasil, seria ótimo.

Como está sua saúde?

Está boa. Já operei duas vezes, se tiver mais algum problema vou operar de novo. Vou abrir a cabeça quantas vezes for necessário. Outro dia meu médico falou: 'Oscar, preciso te dar parabéns. Sua cabeça nunca esteve tão boa'.

Você se preocupa com a possibilidade de a doença voltar?

Lógico. Você não se procupa de ter uma doença? Todo mundo se preocupa. Todo mundo vai morrer de acidente ou doença, é matemático. Tenho medo, sim. 

Você já falou que mudou o seu estilo de vida. De que forma você continua levando sua vida?

Diria que mudei para melhor. Jogador de basquete, até outro dia, era uma pessoa com uma pistola com um tiro só, acerte o tiro senão você pode morrer de fome. A gente tinha sempre esse negócio de: 'Vamos comprar apartamento, para o futuro'. Depois que você tem uma doença dessa, não vale a pena. Caixão não tem cofre.

Durante seu processo de recuperação, você chegou até a visitar alguns médiuns. A fé é importante para você?

A fé é importante para qualquer coisa. Se você tem fé, fica tudo mais fácil. Se eu ficar chorando dentro de casa, vou morrer rapidinho. A fé move montanhas. O papa é o gerente da minha fé, não tem ninguém maior que o papa em nosso planeta. E ele me abençoou, naquele momento eu falei: 'Não tenho mais nada'. Aconselho todo mundo que tenha fé, ir atrás dela.

Como é sua vida regularmente?

Alimento, como de tudo. Não tem nada que não possa comer, autorizado pelo meu médico. Tomo bastante remédio porque tive uma taquicardia, fui curado pela ablação. Sabe o que é? Eles enfiam um cateter em uma veia e vai até o coração e ele queima os pontos elétricos do coração. Com esse procedimento, dei um coice nessa tal de taquicardia, mas continuo tomando remédio para o coração. E não é um nem dois, é bastante. Carvedilol, losartana, aspirina, todos os dias.

Quantos mais ou menos?

Contando com a quimioterapia, faço ainda quimioterapia todo mês, tomo uns dez remédios por dia.

A quimioterapia é uma vez por mês?

A quimioterapia é uma vez por mês, cinco dias. 

E depois da quimioterapia você se sente mal?

Muitas vezes eu fico fraco. Por exemplo, agora nos Estados Unidos, fui treinar na semana seguinte que eu tinha feito quimioterapia. Nossa senhora, deu uma zoeira na cabeça, não conseguia andar. Tive de voltar com a minha filha de carro. Esse é o lado ruim da quimioterapia. Ela afeta mesmo o seu físico.

Mas vai poder jogar normalmente?

Lógico, sem dúvida. Não afeta nada.

Você continua dando palestras para as empresas?

Sim.

É sua fonte de renda atualmente?

Sim, sim.

Tem mais alguma atividade?

Quer mais? (risos). Antes do ano passado, fazia de oito a doze por mês, ano passado caiu, agora faço de quatro a seis por mês.

Por que caiu?

A crise. As empresas estão em crise e o que fazem? Cortam os eventos. Não tem evento, não tem palestra. Caiu um pouquinho, mas já está começando a subir de novo.

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