Marcio Fernandes de Oliveira/Estadão
Marcio Fernandes de Oliveira/Estadão

40 anos depois da final de 77, só sobrou a essência

Corinthians e Ponte se reinventaram nas últimas quatro décadas sem perder a pureza e tradição de suas histórias

Ciro Campos, Gonçalo Junior e Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 07h00

Quarenta anos depois da mítica decisão de 1977, Corinthians e Ponte Preta se reencontram com pesos e estaturas diferentes na final do Campeonato Paulista. Naquela época, os donos dos botecos diziam que só aceitariam fiado quando o Corinthians fosse campeão – estava na fila havia 23 anos. Hoje, o time empilhou tantos títulos que essa e outras piadas caducaram.

A Ponte Preta se firmou como principal força do interior paulista, tem um estádio próprio, mas ainda busca um título importante em sua história. 

Desde a decisão do Morumbi, o Corinthians se tornou um dos clubes mais bem-sucedidos do Brasil dentro de campo. Foram dois Mundiais, uma Libertadores, seis Brasileiros, três Copas do Brasil e 27 Paulistas, só para ficar nos principais. “Em 1977, era um Corinthians muito sofrido, traumatizado, inferiorizado em relação aos outros times brasileiros, porque não estava acostumado a jogar decisões. O escrito de ‘Corinthians campeão’ era um enfeite”, comenta o jornalista Celso Unzelte, especialista na história do clube. 

No contexto das conquistas, o ano de 2012 – vitória na Libertadores e no Mundial – foi emblemático. A equipe acabou com dois argumentos dos rivais de uma só vez, o de nunca ter vencido a Libertadores e o de não ter passaporte. “Modestamente, acho que abrimos a porta para o Corinthians ser vitorioso. Acredito que aquele foi um alívio imenso da nação corintiana. Era um anseio da torcida. Portanto, a partir daí o Corinthians começou a cumprir uma outra história, de vitórias, títulos e sucesso”, diz o lateral Wladimir, um dos heróis de 1977. 

Outro motivo de chacota – o fato de não ter estádio – também ficou pelo caminho nas últimas quatro décadas. Uma conquista que parecia inatingível para um clube que era obrigado a jogar no Pacaembu, a casa corintiana completa 100 jogos hoje. Construída para a Copa de 2014, a arena foi a realização de um sonho no imaginário corintiano e já recebeu mais de três milhões de torcedores.

FRUSTRAÇÃO

A Ponte ainda ensaia um salto para se tornar grande. A equipe fez importantes campanhas pontuais, mas ainda não conseguiu ser constante. O torcedor guarda os poucos momentos de glória na ponta da língua. Em 2008, voltou à decisão do Paulista depois de 27 anos de jejum, mas perdeu para o Palmeiras. Frustração. O time esteve bem perto do título, perto mesmo, na disputa da Copa Sul-Americana de 2013, quando era dirigida pelo técnico Jorginho. Era a primeira final internacional da história do clube de Campinas. 

O historiador José Moraes dos Santos Neto acredita que a presença de presidentes com motivações políticas na caminhada recente do clube prejudicaram o seu crescimento. 

Desde a década de 1990, a Ponte está se reestruturando administrativamente. A maior fonte de receita continua sendo os direitos de transmissão da televisão, em um total de R$ 31 milhões/ano, mas os patrocínios e ações de marketing vêm ganhando espaço nas últimas gestões e já respondem por 25% das receitas totais. O último balanço do clube apontou superávit de R$ 659 mil.

O time também está evoluindo dentro de campo. O oitavo lugar no Campeonato Brasileiro do ano passado foi a melhor colocação de sua história no formato dos pontos corridos. A Ponte Preta ocupa a 15.ª posição no ranking geral da CBF. 

A construção de uma nova arena para gerar mais receitas e substituir o Moisés Lucarelli é a grande aposta de curto prazo. Neste mês, o primeiro projeto será apresentado à diretoria do clube. O estudo alinha estratégia de negócios e projeto arquitetônico, com um modelo de gestão e viabilidade financeira diferente da Arena Corinthians e do Allianz Parque. Os detalhes são guardados a sete chaves. “ Nós conquistamos parceiros comerciais que não conquistávamos antes”, celebra o presidente Vanderlei Pereira. 

TORCIDA

Em quatro décadas, o Corinthians consolidou a posição de segunda maior torcida do País, atrás apenas do Flamengo. O sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que isso trouxe vinculações com a história do Brasil. “O clube foi símbolo de resistência no momento da redemocratização”, diz o especialista. “A utilização do clube com finalidades políticas, no entanto, culminou num estádio que representa uma dívida de difícil equação e que afasta o torcedor”. 

Plínio Labriola, historiador e especialista nas origens do clube, diz que a matriz de sofrimento, definidora do corintiano, não se perdeu nos novos tempos. “O sofrimento estrutural, pela falta de títulos, desapareceu, mas ainda ele é cultuado. Faz parte da cultura do Corinthians”.

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Veja onde estão os campeões do Corinthians de 77

Maioria dos jogadores continua vinculada ao clube

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 07h00

1. Zé Maria, 68 anos

Apelidado de “Super Zé”, o ex-lateral-direito esteve com a seleção brasileira em duas Copas do Mundo (1970 e 1974). Hoje, vive em São Paulo e trabalha com projeto esportivo na Fundação Casa para a reabilitação de menores infratores.

2. Tobias, 68 anos

O goleiro havia sido herói da equipe no ano anterior, ao defender dois pênaltis na semifinal do Brasileiro contra o Fluminense. Aposentado, participa de eventos promovidos pelo Corinthians para comemorar a conquista do Estadual de 1977.

3. Moisés 

Era zagueiro do time que disputou a decisão. Faleceu em 2008, aos 59 anos, vítima de câncer no pulmão. Após se aposentar, foi treinador, função em que teve como grande trabalho levar o Bangu a vice do Campeonato Brasileiro de 1985. 

4. Ruço

O ex-volante marcou em 1976 um gol histórico na semifinal do Brasileiro, contra o Fluminense, no Maracanã. Estava aposentado e morava no Rio de Janeiro quando morreu em 2012, aos 63 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).

5. Ademir, 69 anos

O zagueiro ganhou a chance de disputar a final do campeonato porque o titular, Zé Eduardo, estava suspenso. Vive em Santa Bárbara D’Oeste, sua cidade natal, onde trabalha com venda de carros e é comentarista esportivo de uma emissora de rádio.

6. Wladimir, 62 anos 

O jogador com mais partidas pelo Corinthians, 805, era lateral-esquerdo e ainda mora em São Paulo. É pai do lateral-direito Gabriel, revelado pelo São Paulo. Atualmente, está aposentado, participa regularmente de partidas com os masters do clube.

7. Vaguinho, 69 anos

O ex-ponta-direita do time campeão mora na capital paulista e costuma participar de jogos dos masters do Corinthians e de eventos promovidos para relembrar o título de 1977. Também atua como empresário, ao administrar uma transportadora.

8. Basílio, 68 anos

O ex-meia foi autor do gol do título e se tornou ídolo do clube por tirar o clube da fila, trabalha pelo Corinthians em eventos com torcedores antes dos jogos na arena. Quando o time está em campo, também atua como comentarista da rádio Capital.

9. Geraldão, 66 anos

O atacante e artilheiro do time de 1977 também foi campeão estadual pelo Corinthians dois anos depois, em outra final contra a Ponte Preta. Ele ainda vive em São Paulo e trabalha como professor em escolinhas de futebol na Zona Oeste da capital.

10. Luciano, 68 anos 

O meia, apelidado de Coalhada, jogou a final no lugar de Palhinha, titular durante parte da campanha. Agora aposentado, voltou a morar na cidade natal, Recife, onde trabalha com escolinhas de futebol. Quase foi o herói da final, mas chutou uma bola na trave.

11. Romeu, 67 anos

Foi ponta-esquerda do time campeão. Vive atualmente em Barueri e trabalha como vendedor de consórcios. Além disso, participa com frequência de campeonatos de futebol para veteranos.

QUEM NÃO ESTÁ NA FOTO

Zé Eduardo

Ex-zagueiro, morreu no mês passado, de câncer, aos 63 anos. Era o titular da posição. 

Palhinha, 66 anos

O atacante foi titular durante parte da campanha. Mora em Belo Horizonte e é empresário. 

Biro-Biro, 57 anos

Era meia. Vive em São Paulo e trabalha com aparições em comerciais e eventos do clube.

Givanildo, 68 anos

O ex-volante é treinador há mais de 30 anos. Dirige o Ceará e acaba de ser campeão estadual.

Edu, 67 anos

O atacante campeão mundial pela seleção em 1970 mora em Santos e está aposentado.

Cláudio Mineiro, 64 anos

O lateral-esquerdo reserva mora em Corumbá (MS), onde trabalha como técnico de times locais.

Oswaldo Brandão

Treinador do time campeão de 77, Brandão faleceu em 89, aos 72 anos. Até hoje é o treinador que mais dirigiu o Corinthians (441 jogos).

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