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40 minutos antes do nada

Paulo Calçade

Nelson Rodrigues dizia que “o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada”. Não há definição melhor para expressar a importância desse clássico, capaz de levar 30.188 torcedores ao Pacaembu, o mítico estádio paulistano, que 74 anos depois voltou a recebê-lo com o mesmo placar do jogo realizado em 1942: 0 a 0.

O Pacaembu merecia mais desse Fla-Flu. A ausência de boas partidas no campeonato estadual e o embate raro ajudaram a triplicar a expectativa em torno do confronto. O empate foi frustrante, menos pela falta de gols e mais pelo comportamento das equipes.

Flamengo e Fluminense ainda estão bem distantes do que podem e devem render. Muricy Ramalho, no cargo desde o início da temporada, já possui uma ideia de time, uma base, mas ainda não conseguiu desenvolvê-la para reduzir oscilações.

Levir ainda nem conseguiu aprender os nomes de todos os seus jogadores e já corre o risco de ser cobrado. A história é aquela de sempre: pouco tempo dedicado aos treinamentos e muitas partidas num período em que os times precisam estabelecer um modelo, um formato e atingir um nível de organização coletiva maior.

A tabela do Paulistinha parece ter sido feita especialmente para abrigar o clássico do Rio. Sem nenhuma partida prevista para a cidade de 12 milhões de habitantes, o bom público do Pacaembu surgiu por força da gravidade e pela grandeza do Flamengo.

Além da dimensão dos clubes, nada como uma novidade para um torcedor bombardeado por jogos e equipes sem expressão. Com Maracanã e Engenhão indisponíveis, a solução foi pegar a ponte aérea. Tirando o placar, a partida foi um sucesso.

E também foi simbólica. Flamengo e Fluminense fazem oposição à Federação do Rio de Janeiro. Contestam o poder e são atacados sistematicamente por ele. O que puder ser feito para atrapalhar a trajetória da dupla será tentado pela Ferj, sob o comando de Rubens Lopes e a condução espiritual de Eurico Miranda, presidente do Vasco.

É a realidade, é o buraco em que se meteu o futebol brasileiro, no qual cartolas são mais importantes que os clubes e seus jogadores. A parte boa dessa história é que Flamengo e Fluminense resolveram romper o sistema, mesmo diante de uma CBF complacente, manipulada pelos interesses da Ferj.

Com tantas viagens, mesmo quando são mandantes, os rivais vão passar mais tempo no avião do que no campo de treinamento. Durante o Campeonato Brasileiro será pior. Contra adversários mais qualificados e clássicos aos montes espalhados pela tabela, a barra vai pesar. Nessa hora, não ter um estádio para chamar de seu trabalha contra o resultado.

Toda essa confusão administrativa ajuda a explicar o surgimento da Primeira Liga, que talvez um dia consiga se transformar na semente de um Campeonato Brasileiro comandado pelos próprios clubes. Os grandes de São Paulo, por enquanto, estão convencidos de que apoiar a CBF ainda é o melhor negócio.

Exemplo. O sucesso do Corinthians no Campeonato Brasileiro conduziu a equipe ao desmanche. A saída de vários titulares fragilizou a confiança de uma boa campanha na Copa Libertadores. Ainda não é possível medir o tamanho da nova equipe que vai surgindo sob o comando de Tite.

Mas um ponto é muito claro: o time persegue um padrão de comportamento. Independentemente dos nomes em campo, a ideia é manter o ritmo forte na recuperação da bola e nas transições ao ataque. Hoje o Corinthians compete interna e externamente. Qualquer jogador que venha a ser contratado precisará se adaptar ao modelo corintiano, mas jamais poderá alegar desconhecimento sobre como ele funciona. A identidade do Corinthians, que agora tenta construir um novo grupo, é muito forte e muito clara. É o que falta aos demais.

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