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A lua cheia, a bola meio murcha e o juiz amigo

Pênalti inexistente foi, sim, decisivo para a vitória do Brasil

Antero Greco

Pessoal, a Lua que despontou bem em cima do Itaquerão, no começo da noite desta quinta, foi de uma lindeza comovente, digna do estádio. Grande, cintilante, cheia, robusta, marcou presença como enviada da natureza para saudar a abertura da Copa. Pronta para brilhar sobre um belo espetáculo de futebol e civismo.

Poesia de lado, que não é hora para veleidades literárias, no campo o que se viu foi uma seleção combativa, aplicada, mas desengonçada, nervosa e com bola um tanto murcha. Para ser sincero, deu medo danado de que pudesse perder na estreia da Copa em casa.

Pra ser franco de novo, vamos tirar a fantasia verde e amarela e admitir: a vitória teve uma assoprada amiga de Yuichi Nishimura. O árbitro japonês ficou tocado pelo clima favorável ao Brasil e, quem sabe?, num lapso, numa distração, num vacilo intercontinental, detectou pênalti em caída cinematográfica de Fred.

Era metade do segundo tempo, os croatas a resistir ao assédio, 1 a 1 até surpreendente, e sua senhoria quebrou o galho pra gente. Apontou a marca da cal, impassível às reclamações dos gringos, na base do "Não estou nem aí pra vocês. Foi e pronto", e se manteve insondável à espera da cobrança de Neymar. E quase o rapaz se complicou, pois Pletikosa chegou a tocar na bola antes de ela ir para a rede...

Como?! Não foi 2 a 1, mas 3 a 1 e portanto o pênalti não influiu no resultado? Epa, teve a ver, e muito. Aquele episódio soltou o nó em que o time de Felipão se enroscava.

O primeiro passo na escalada que pretende atingir o cume com a conquista do hexacampeonato foi mais escorregadio do que se imaginava. A Croácia deu trabalho além do previsto, com comportamento aplicado, pouco criativo porém correto. A ponto de assumir a vantagem no placar e assustar na etapa inicial.

De quebra, dava pouco espaço para o Brasil e se mandava com gosto pelas laterais, a aproveitar corredores nos lados de Daniel Alves e Marcelo, instáveis. As válvulas de desafogo pra banda de cá eram Neymar e Oscar: os moços jogaram demais, mereceram gols e aplausos. Gigantes.

Com duas observações: o desempenho de Neymar corroborou o que se espera dele, que seja destaque, senão o grande jogador, do torneio. Oscar superou temores de que pudesse sumir. Correu pra todo canto, dividiu, foi decisivo no lance do gol de empate, deixou a marca no finalzinho e sentiu cãibras.

Outro lado bom? A equipe não se desesperou e superou a ansiedade da estreia. Isso conta. Mas o sistema defensivo expôs falhas, Felipão há de estudar opções para proteger melhor a zaga. Talvez com a presença de Hernanes no meio. (Paulinho continua aquém do que pode.) Uma interrogação é Fred: isolado, apagado. Sumidão. Não fosse o pênalti cavado, ninguém o teria notado no gramado.

Falei em civismo lá em cima? Bacana o povo cantar o Hino Nacional. Mas, política à parte, falta de educação xingar, várias vezes, de forma chula, uma chefe de Estado.