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A maior derrota do Grêmio

Andrei Netto*

Antes de mais nada, ressalto que escrevo sob o calor dos acontecimentos – mas é sob seu efeito que precisamos reagir.

O 28 de agosto de 2014 é um marco na trajetória centenária do Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense. Trata-se do dia em que Patrícia Moreira e um enorme grupo de ignorantes racistas, presentes na arena do clube, envergonhou sua torcida e o estado do Rio Grande do Sul diante das câmeras e da opinião pública mundial.

Sou gaúcho e gremista apaixonado, dos que tiveram a sorte de ir para as ruas gritar pela janela do carro "Campeão do Mundo!" em 11 de dezembro de 1983. Sou gremista que viu ainda pequeno, no concreto do Olímpico Monumental, o gol de Burruchaga na final da Libertadores da América de 1983. Posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que a vitória de 1983 e essa derrota, o 1 a 0 para o Independente, em 24 de julho de 1984, forjaram parte da minha personalidade. Duas lições esportivas me fizeram compreender aos 7 e 8 anos de idade que o degrau mais alto está ao alcance, e que a dor da derrota nos torna mais fortes, mais valentes, mais sedentos pela virada, mais apaixonados. São dois momentos que guardarei para sempre no peito, com imenso carinho.

Já a derrota de 28 de agosto de 2014 representa o inverso. É mais vergonhoso do que ser rebaixado, é mais triste do que a derrota em uma final sonhada. É pior do que um 7 x 1 em semifinal de Copa do Mundo. É a constatação de que o Grêmio é hoje um clube devastado. E o responsável é sua própria torcida.

Não, não sejamos complacentes. Não minimizemos o ocorrido atribuindo-o a "um caso isolado" ou "a um grupo pequeno". São milhares os racistas na torcida do Grêmio, e não justifiquemos seu comportamento pelos anos de derrotas. Crises, como a história já provou na Europa, só libertam e revelam o pior de uma sociedade. Não sejamos hipócritas: ressaltemos que a ofensa racista dos gritos de "Macaco!" contra Aranha ecoou impune por décadas no cimento do Olímpico, e agora mudou-se para a arena.

Nesta quinta-feira, o Grêmio foi derrotado, eliminado, rebaixado, humilhado. Ontem o Grêmio sofreu a sua pior derrota – aquela que vai mais repercutir no planeta Terra, que vai nos deprimir e nos prejudicar, aquela que vai afastar patrocinadores, diminuir nossas cotas, abalar (ainda mais) nossas finanças. Hoje o Grêmio é a repugnante Lazio, de Roma, ou um desses times de segunda linha cuja meia-dúzia de torcedores, hooligans, jogam bananas das tribunas. Hoje o Grêmio é o pior clube e a pior torcida do mundo. Hoje a Geral, essa vergonha organizada – que eu tanto defendi no passado –, é um caso de polícia.

Leio em reportagens na internet que a súmula do jogo nos incrimina. Leio que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) pode nos expulsar da Copa do Brasil. E tenho uma sugestão ao procurador-geral, Paulo Schmidt: não expulse o Grêmio da competição de 2014. Essa está perdida pela mediocridade esportiva que nos vilipendia no século 21. 

Nos expulse das próximas três edições. É o mínimo que essa torcida merece. 

* Gremista, jornalista e correspondente em Paris do jornal O Estado de S. Paulo