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Quinta-feira, 21h45, começa o jogo Palmeiras x Nacional em Montevidéu. Estádio cheio, bandeiras e cores. A bola rola e começo a pensar numa coluna de Antero Greco onde ele relata um pouco do jogo entre Brasil e Argentina pela Copa de 1978. O titular do meio de campo era Toninho Cerezo, clássico, um mestre refinado. O reserva era Chicão. O capitão Coutinho, que comandava a seleção escalou o reserva. Sabia o que estava fazendo. Chicão tomou conta do meio de campo na porrada, literalmente. Chegando junto no mais puro estilo de Oswaldo Brandão. Encarou os argentinos que, surpreendidos, não mais tentaram intimidar o time brasileiro. E o empate por 0 a 0, a meu ver, foi injusto para o que jogou a seleção brasileira. 

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Ugo Giorgetti

20 Março 2016 | 03h00

Isso tudo pra dizer que o único meio de jogar a Libertadores é o método Claudio Coutinho. Ou se quiserem o método Chicão. Só para deixar claro, Chicão não era nenhum cavalo que só batia. Ao contrário, sabia o que fazia com a bola e se o jogo permitisse jogava como qualquer outro jogador de nível de seleção brasileira. Mas quando percebia que não iam deixar resolvia à seu jeito. Não era expulso por isso, nem muito incomodado. Batia quase com serenidade, ao contrário do jogador brasileiro que, em geral, fica nervoso, perde o controle e acaba perdendo no jogo e no pau. 

É claro que quando se trata de algum time excepcional tudo isso é desnecessário. Ainda vale a grande qualidade. Mas quem tem um time nessas condições? O último que vi foi o Santos de Neymar, que, aliás, ganhou a Libertadores. Nossos times atuais simplesmente não têm a qualidade infinitamente superior requerida de quem quer jogar futebol refinado, nem a condição, física, psicológica e disciplinar do jogador uruguaio, argentino, chileno, etc. Eles não vão jogar à nossa maneira, fiquemos tranquilos. Portanto, é quase impossível ganhar deles, sobretudo quando são mandantes. O jogo deles é simples: evitam qualquer possibilidade de contra-ataques, fazendo faltas seguidas, ainda no campo do adversário, derrubando, acossando, golpeando e truncando a jogada. Sabem fazer isso perfeitamente. Não há ódio, nem violência gratuita. É apenas uma maneira de jogar, um método que se revela quase infalível.

Isso explica porque às vezes, jogadores de lá são vistos de maneira diferente quando jogam aqui. Esse zagueiro Victorino, do Nacional, foi quase ridicularizado no antigo Parque Antártica. Nunca jogava, nem se sabia que compunha o elenco. Entrou uma ou duas vezes completamente fora de jogo, dando a impressão de não saber o que estava fazendo em campo. O Victorino de quinta-feira era completamente diferente. Defendeu com precisão e, o que é mais sintomático, melhor do que qualquer um dos zagueiros do Palmeiras. Victorino estava em seu futebol, essa é a diferença. Jogava dentro do que aprendeu por anos e anos.

Portanto, ou aprendemos a jogar uma Libertadores, ou fabricamos outros Pelé, Careca, Tostão, Ronaldo, etc, etc. O capitão Coutinho, que não tinha nenhum deles, optou por Chicão. Fez bonito. Quinta-feira à noite deu Nacional, uma vitória esperada. Fazer um resultado em Montevidéu não é brincadeira. A torcida festejou muito em seu acanhado e antigo estádio, onde os torcedores gritam diretamente na orelha dos adversários. Não há conforto pra ninguém no estádio do Nacional, muito menos para o adversário.

estejaram muito e eu os invejei. Não pelo resultado, mas por pertencerem a um país que é o único na América do Sul que não está em convulsão social, onde não há incêndios, nem ameaças de linchamentos pelas ruas. Talvez seja uma questão do tipo de governo que herdaram. Gosto de pensar que numa varanda de um sítio - perdão - de uma chácara modesta, nos arredores de Montevidéu um homem descansa satisfeito depois da vitória do Nacional. Pepe Mujica mais uma vez se prepara para dormir uma noite tranquila. 

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