A paciência de Jô

Atacante voltou ao Corinthians como incógnita e se tornou o destaque na campanha do hepta

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2017 | 04h00

Bacana em time campeão são as histórias, em geral de superação, verdadeiras ou fantasiosas. Pode reparar que, independentemente do elenco, toda vez que se alcança o topo não faltam as lágrimas, os desabafos, os recados para “aqueles que não acreditavam”, a resposta para “os críticos”, a reafirmação de que o grupo “deve ser respeitado”. E assim por diante. Script internacional, clássico e inalterado.

Mas, na caminhada do Corinthians rumo ao hepta, tem um desses episódios marcantes sem que soe piegas, exagerado ou oportunista. Trata-se do ressurgimento de Jô. É questão de justiça ressaltar o papel do rapaz em 2017 – e de quem acreditou em reação ao dar-lhe oportunidade.

Sei que o fato mereceu destaque nos últimos dias, no que a imprensa agiu de forma correta. Mas no clima de festa alvinegra vale o registro por aqui. Você sabe, Jô voltou ao clube de origem depois de rodar o mundo por 12 anos, e não se dava uma bolacha maizena de que fosse vingar. Pois a temporada chega ao fim com ele na artilharia da Série A e, o que é mais notável, com regularidade em campo, mesmo nos momentos de oscilação dos demais companheiros do novo campeão.

Jô é caso rematado do boleiro com rotina de montanha-russa. Menino talentoso, precoce, humilde que desponta como promessa (estreou no profissional em 2005 com pouco mais de 16 anos) e logo vira problema. Então, embarca para o estrangeiro quase imberbe, gira pra cá e pra lá, é devolvido ao remetente como peso morto.

Encontra alguém que o apoia (Galo mineiro), se recupera, conquista títulos, é chamado para disputar Copa do Mundo, na qual afunda como a maioria. Em seguida, some, bate pernas por Arábia e China, se encanta com baladas, fica um tempo sem vínculo, até que recebe oferta do clube que o revelou. Topa, no mínimo para ver que bicho ia dar. E não é que correspondeu!

O pessoal que segue o dia a dia corintiano garante que o balzaquiano Jô (20/3/1987) se tornou exemplo para os jovens, dentro e fora de campo. Conta as peripécias em que se envolveu, para delas tirar ensinamentos. Vejam só o que a maturidade traz! Não é o estouvado de antes. Bom que tenha aproveitado a chance. Muitos não têm a felicidade da guinada – ou a desprezam. Jô não; teve paciência pra retomar o prumo.

Por ser humano tem defeitos, como todos nós. Pegou mal, por exemplo, o episódio do gol de mão contra o Vasco. Jurou de pés juntos que tinha sido normal, em contraste com as imagens, e custou dois dias para “reconsiderar”. Justamente ele que neste ano se beneficiou de fair play, no clássico com o São Paulo, pelo Paulistão, em que não foi punido porque o zagueiro Rodrigo Caio intercedeu em seu favor. Ok, o pecadilho fica perdoado. Há atitudes muito mais graves no mundo.

Jô volta a sonhar com disputa do Mundial, no que faz muito bem. Se será lembrado ou não por Tite, é outra história. Se a ilusão o mantiver em alta, muito bem. Se não vier a convocação, que não se abata e tenha como parâmetro o que 2017 representou na vida dele. Certamente terá a ganhar com isso – e o clube também.

ÀS COMPRAS

O ano nem terminou e o Palmeiras voltou a abrir a carteira para contratações. O primeiro nome anunciado foi o do lateral-esquerdo Diogo Barbosa, com bom desempenho no Cruzeiro. Fala-se em repatriar Bernard, o meia com “alegria nas pernas”, como definiu Felipão anos atrás, e em outros nomes. Ou seja, a turma da Turiaçu (ops, rua Palestra Itália) ensaia de novo ser protagonista nos bastidores.

Muito bem, o elenco carece de alterações. Mas que haja critério nos investimentos e bom senso na avaliação do grupo. Não adianta comprar a esmo se não se consegue formar um time, como se viu em 2017.

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