Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

A seleção de Teixeira: ex-cartola transfere R$ 30 mi da equipe durante gestão

Ficando com 40% da renda que ia ao time, ex-cartola comprou imoveis e percorria o mundo com cartão de crédito que dava acesso direto ao dinheiro desviado. Rosell levou mais R$ 20 milhões dos jogos.

Jamil Chade, em Genebra, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2017 | 07h00

Ricardo Teixeira usou uma rede de empresas de fachada e contas em seis paraísos fiscais para desviar pelo menos 8,4 milhões de euros (R$ 30 milhões) da seleção brasileira e lavar dinheiro. Por contas secretas, ele ainda movimentou mais de 24 milhões de euros (R$ 90 milhões) de origem suspeita.

Isso é o que revelam os documentos da Justiça da Espanha que apontam o ex-presidente da CBF, que vive no Brasil, como a cabeça de uma "organização criminosa transnacional". A investigação se baseou nos documentos que a reportagem do Estado revelou com exclusividade em agosto de 2013, e que teve nova fase nesta semana, com a prisão do ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell.

De cada um milhão de dólares que a seleção ganhava em cachês pelo mundo, Teixeira ficava com US$ 450 mil, sem contar ainda a comissão que seguia para Rosell. Em duas situações, a renda integral do jogo foi desviada para as contas do catalão.

De acordo com a investigação, ao vender os direitos sobre os amistosos da seleção, Teixeira obrigou a empresa compradora, a ISE, a fazer pagamentos em seu benefício próprio e em "prejuízo à CBF". "Desta forma, Teixeira recebia um total de 8,3 milhões euros e Rosell 6,5 milhões de euros, em ambos os casos sem conhecimento da CBF e em seu prejuízo", declarou a Audiência Nacional de Madri.

As contas para onde o dinheiro era desviado chegaram a beneficiar até mesmo a esposa de Teixeira, Ana Rodriguez. Segundo os procuradores espanhois, ela tinha um cartão Visa Platinum com o qual poderia fazer saques diretamente da conta usada para desviar os recursos da seleção.

Com esse dinheiro, ele ainda transferiu aos EUA cerca de US 2,1 milhões para comprar um imóvel na Flórida, o edifício em Coral Gables, o Ponce de Leon.

Nesta quinta-feira, a Justiça da Espanha determinou a prisão incondicional (sem o direito de pagamento de fiança) para Rosell. Joan Besoli, sócio de Rosell e pessoa que tramitou o pedido de residência em Andorra para o brasileiro Ricardo Teixeira, também teve o mesmo destino. Mas os investigadores já deixam claro que o próximo em sua lista é o brasileiro, considerado como o principal arquiteto do esquema. A suspeita é de que os dois investigados tenham lucrado US$ 15 milhões (cerca de R$ 49 milhões) com a venda de direitos de imagem para os jogos amistosos do Brasil.

Ao Estado, investigadores indicaram que as suspeitas apontam que os jogos da seleção foram usados como pretexto para que a dupla de cartolas emitisse contratos e notas falsas para justificar pagamentos, lavando dinheiro. Assim, recursos obtidos de forma irregular entravam em suas contas de forma legítima. Ambos, portanto, “formavam parte de uma organização criminosa com âmbito transacional, que decidiu lavar dinheiro procedentes de comissões ilícitas, derivadas da venda por parte de Teixeira, em representação da CBF, de direitos da seleção de seu país, a uma empresa árabe com sede nas Ilhas Cayman, cuja denominação social é ISE. Tudo isso por meio de uma rede de sociedades e contas principalmente em Andorra”, completou.

GRAMPO

Durante a investigação, os espanhóis ainda grampearam Rosell, o que levou a revelar conversas com Teixeira. Numa delas, de 16 de abril de 2017, o catalão ligou para o brasileiro às 22.02h para falar sobre um pedido de viagem. Teixeira está indiciado nos EUA e, se sair do Brasil, poderia ser preso.

Mas a influência dos cartolas revela que eles conseguiriam viajar, com o acordo secreto de países estrangeiros. “Foi possível constatar a facilidade de Rosell para obter favores em países de fora da Europa e EUA, que permitam sua entrada nos mesmos ou das pessoas que mostrem interesse, como é o caso do Teixeira, como garantia de que não fosse detido ou entregue em caso de solicitação da extradição”.

ESQUEMA

Citando a CBF como uma entidade privado e que se “nutre principalmente de fundos públicos”, os procuradores espanhois indicaram que tudo começou em 2006. Naquele momento, o Brasil assinou com a ISE a concessão de 24 partidas da seleção. Mas, junto com o contrato, veio a obrigação imposta por Teixeira de que parte do dinheiro arrecadado com os jogos não fosse para a CBF, e sim para ele mesmo.

Para isso, uma complexa estrutura foi montada. Uma empresa de fachada com base nos EUA, a Uptrend, assinou um contrato com a ISE, dias antes da própria CBF fechar seu acordo. Oficialmente, ela atuaria como intermediária do negócio entre a empresa saudita e a brasileira. Em troca, receberia 8,4 milhões de euros.

Segundo a investigação, quem criou a empresa era Rosell. Outro sócio era a Fundação Regata, com sede no Panamá e também de propriedade de Rosell. Conforme o Estado já havia revelado em 2013, essas empresas não tinham estruturas físicas e suas contas estavam em Andorra.

Uma vez com a Uptrend, o dinheiro era transferido para “o próprio Teixeira e pessoas de seu entorno que atuavam como laranjas”. Entre eles estava os irmãos Abraão, do Grupo Aguia. Outro citado como fazendo depósitos é a Klefer, empresa de Kleber Leite. A rede “orquestrada” tinha como objetivo transferir o dinheiro até o brasileiro, e “em prejuízo de ganhos deixados de ter pela CBF derivada de acordos de compra por parte da ISE, em troca dos direitos de exploração de uma série de partida do Brasil”.

Algumas dessas empresas de fachada eram a Bonus, Itasca e Arvenel e tinham a função de camuflar as transferências até Teixeira. Outras chegaram a ser usadas antes mesmo do esquema com Rosell existir. Na conta Bonus, a procuradoria encontrou depósitos de US$ 7,7 milhões do brasileiro entre 2002 e 2003, além de outros US$ 2,5 milhões em 2010. Na conta da ITASCA, Teixeira também fez circular entre Panamá e Suíça pelo menos dois depósitos, de US$ 3,1 milhões e US$ 1,5 milhão.

Pela empresa de fachada Arvenel, nas Ilhas Virgens Britânicas, Teixeira recebeu em 2008 e 2010 mais US$ 863 mil, além de outros US$ 219 mil em 2011.

COFRES VAZIOS

Para garantir a parcela para Rosell, de 6,5 milhões de euros, os investigadores revelam que foram os próprios organizadores dos amistosos quem ordenaram a transferência diretamente para suas contas. A ISE, segundo um depoimento de um de seus dirigentes, Dirk Hollstein, ordenou a Kentaro que reitrasse a integralidade do dinheiro e passe a Rosell.

Assim, a renda de jogos como Brasil x Gabão e Brasil x Egito foi transferida diretamente para o dirigente, sem que qualquer centavo fosse para a CBF. Para manter ainda o esquema por mais dez partidas, Rosell vendeu uma de suas empresas para um de seus laranjas, Shahe Ohannessian e com sede no Líbano, outro paraíso fiscal. O endereço oficial da empresa, porém, continuou a ser na residência do catalão.

Diante das suspeitas, a Justiça já bloqueou cerca de 10 milhões de euros (aproximadamente R$ 36 milhões) em contas, além de cerca de 50 imóveis, avaliados em mais de 25 milhões de euros (algo em torno de R$ 91 milhões).

A Receita na Espanha também já aplicou uma multa milionária contra Rosell, acusando-o de não revelar às autoridades os lucros que obteve por meio de contratos com a seleção brasileira. O ex-dirigente argumentou que não declarou na Espanha por ter transferido o dinheiro para Andorra e, para comprovar que os contratos com a CBF eram reais, teria apresentado um levantamento da auditoria KPMG. Para a Justiça espanhola, Rosell fez do crime um "estilo de vida".

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