'A testosterona induz alterações, algumas benéficas, outras prejudiciais'

Clayton Luiz Dornelles Macedo, médico endocrinologista da Unifesp, explica diferenças e efeitos colaterais do tratamento de reposição hormonal feito pelos transgêneros

Entrevista com

Clayton Luiz Dornelles Macedo

 
 

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 11h40

O Estado conversou com Clayton Luiz Dornelles Macedo, chefe do Núcleo de Endocrinologia do Exercício e do Esporte e Coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício, junto ao Serviço de Medicina do Esporte do CETE - UNIFESP.

Também professor Preceptor do Programa de Residência Médica e da pós-graduação em Medicina do Esporte da UNIFESP, ele explica as características do tratamento de reposição hormonal feito pelos transgêneros, bem como quais seus efeitos sobre o corpo humano e quais as indicações para quem quer seguir este protocolo.

1. No tratamento de reposição hormonal, com o aumento dos níveis de testosterona buscando a masculinização, quais as principais mudanças que acontecem no organismo? Existem efeitos colaterais?

A testosterona vai induzir uma série de alterações no organismo do homem trans, algumas benéficas e desejáveis e outras prejudiciais. A menstruação vai cessar em alguns meses, o timbre da voz vai mudar, aumentarão os pelos faciais e corporais e a massa muscular vai aumentar (em graus variáveis, na dependência do grau e do tipo de treinamento muscular, alimentação e suplementação alimentar). O clitóris vai aumentar e a libido vai se acentuar.

Alterações adicionais podem incluir acne, oleosidade da pele e uma calvície de padrão masculino (com rarefação frontal, temporal e occipital do cabelo). Aumento da pressão arterial e do colesterol LDL (colesterol ruim) podem ocorrer, além do aumento dos glóbulos vermelhos do sangue e da hemoglobina. Aumento da irritabilidade e agressividade são incomuns. Podem ocorrer alterações da função do fígado.

As evidências científicas atuais sugerem que os tratamentos hormonais em pacientes transgêneros são seguros se o monitoramento correto for realizado. Esse tratamento parece não estar associado a um aumento da mortalidade ou aumento do risco de câncer. No entanto, estudos de acompanhamento a longo prazo com número maior de indivíduos devem ser objetos de pesquisas futuras.

Não é incomum que os transgêneros se auto-mediquem com doses e preparações hormonais não regulamentadas e não licenciadas, muitas vezes compradas clandestinamente e produzidas em laboratórios não oficiais. Incertezas em torno de contaminantes, dosagem, qualidade dos medicamentos e falta de monitoramento os tornam potencialmente prejudiciais.

É importante salientar que a reatribuição de gênero deve ser acompanhada por uma equipe interdisciplinar de saúde bem treinada, devendo os indivíduos procurar serviços de referência para abordagem e tratamento adequados.

2. Qual é a duração média de um tratamento?

O tratamento é a longo prazo, sendo extremamente importante o acompanhamento clínico periódico da terapia, em serviço especializado. O tratamento deve ser individualizado, na dependência das adequações desejadas pelo indivíduo.

A abordagem completa envolve reposição hormonal, cirurgias, tratamentos estéticos, treinamento muscular e suporte psicológico. Nem todos os indivíduos necessitam ou desejam todos os tratamentos.

3. Como deve ser a preparação física de um atleta transgênero? É necessária alguma mudança em relação aos atletas tradicionais?

Existem diferenças biológicas em relação ao sexo de nascimento do indivíduo, sendo que as variáveis de performance e composição corporal diferem bastante. A terapia de reposição hormonal minimiza essas diferanças e facilita a preparação física, mas a individualização do treinamento do atleta transgênero, após uma avaliação adequada, é determinante da sua performance.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.