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A zica

Dois jornais de Barcelona revelam extrema preocupação com o zika vírus e o jogo entre Uruguai e Brasil marcado para março em Pernambuco. Por que se revelam tão preocupados com jogo com o qual não têm nada a ver? Preocupação com a saúde dos povos, solidariedade humana? Não creio, pois a notícia se explica: estão preocupados com Suárez e Neymar, dois jogadores sul-americanos, mas propriedade privada de um clube espanhol. É isso, eles saem, não em defesa da saúde pública, mas de um bem adquirido por muito dinheiro.

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Ugo Giorgetti

14 Fevereiro 2016 | 03h00

É triste que um pensamento tão pobre venha de um país tão rico de tradições culturais. Como entender o comportamento do jornalismo esportivo de Barcelona, em princípio ainda parte da Espanha? Repito, não estão minimamente interessados no destino dos demais participantes do jogo, no campo ou nas arquibancadas. Apenas se preocupam com o destino de dois semideuses que a todo custo devem ser preservados. Os outros que estarão no estádio que se danem.

Gosto muito da Espanha, moraria em Madrid tranquilamente. Mas me espanta como em um país em tremendas dificuldades, num impasse político de proporções imensas, com uma questão explosiva a dividi-lo, um desemprego entre os jovens de assustar, certa imprensa consegue dirigir suas preocupações sobre dois jogadores milionários, em perigo no Brasil, como se o zika fosse um produto e um problema unicamente brasileiro e jamais fosse atingir a Espanha. Isso é, a meu ver, convidar o leitor a ver o mundo por lente destorcida, ou seja, utilizar o futebol como o velho “ópio do povo”, remédio para esquecer as dores da vida diária. Deviam talvez estar refletindo sobre o efeito da bolha financeira que aí está ameaçando o futebol mundial e da qual os espanhóis, não a China, estiveram na origem.

Da Espanha passemos ao Brasil, sempre no assunto da partida Brasil x Uruguai. A CBF, cuja opinião deveríamos dispensar em princípio, certamente influenciada pelas notícias chegadas da Espanha, vai no mesmo caminho dos jornais de Barcelona, servil e bovinamente como convém. A CBF “pediu ao governo de Pernambuco medidas extra para prevenção na semana do jogo”. A frase parece simples, mas não é. Primeiro, pedir prevenção especial na semana do jogo, implica em que nas demais semanas tudo pode seguir normalmente, isto, é mal.

Além disso o que poderiam ser “medidas extra para o jogo” na cabeça dos dirigentes da CBF? Cobrir com tela protetora de mosquitos toda a linda Arena? Aliás, a mesma, cuja construção a CBF apoiou e justificou para a estúpida Copa do Mundo que acabou de maneira tão ridícula? Ou os dois times jogando de calça e manga comprida na amena temperatura do Recife? Estou sendo gentil em colocar todos os jogadores no mesmo saco, porque essas preocupações da CBF indicam sua angústia com Neymar, e não com outros mortais. Neymar com zika seria o que faltava para a “imagem do Brasil lá fora”. Não se trata, de novo, de nenhum cuidado quanto à população em geral. 

No lado do Uruguai, duas reações que, ao menos, contribuem para uma abordagem irônica do assunto. Diz a AUF, Associação Uruguaia de Futebol: “Até o momento a única contraindicação que existe é para mulheres grávidas”. Essa declaração indica primeiro um alívio, na pressuposição de que nenhum jogador em campo esteja grávido e, em segundo lugar, a constatação delicadamente disfarçada de que gravidez é assunto pessoal, traiçoeiro, de tal maneira que talvez fosse bom as mulheres pensarem bem antes de ir ao jogo. Quem sabe o que a noite e o mosquito podem reservar a elas? Como se vê o jogo Brasil x Uruguai promete muito assunto. 

Para encerrar com nota pitoresca, ela vem de Oscar Tabárez, treinador do Uruguai, que encerra a questão dos insetos, curto e grosso: “O assunto dos mosquitos se resolve com repelentes”.Ponto.

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