Amigos da onça

Empresários e cartolas que antes não se largavam mantêm trocas de acusações. Lealdade?

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2017 | 03h00

Está reaberta a temporada de intercâmbio de acusações entre empresários e cartolas, em função do processo por corrupção no futebol ao qual muitos respondem na justiça dos Estados Unidos. Com a divulgação de novos depoimentos de personagens que foram pesos pesados nos bastidores do mundo da bola, o chumbo trocado outra vez chamuscou reputações. E reforçam sobretudo a estratégia do salve-se quem puder entre poderosos que antes costumavam não desgrudar-se em andanças por aí. 

O homens de negócios Jota Hawilla voltou a bagunçar o coreto de antigos parceiros em declarações na corte de Brooklyn, em Nova York. Deu no Estado de terça-feira e teve mais na quarta-feira. Em resumo, admitiu que pagou propinas para gente graúda, dentre elas Ricardo Teixeira, para garantir direitos de competições, e mostrou gravação com José Maria Marin. A defesa do primeiro ex da CBF negou e considerou “covardia” a atitude de Hawilla.

Dias atrás, Eládio Rodriguez, ex-funcionário da argentina Torneos y Competencias, que também comprava campeonatos na região, soltou o verbo com revelações semelhantes, porém dirigidas, dentre outros, a Marin, sucessor de Teixeira, e a Marco Polo Del Nero, o atual titular da CBF.

Os defensores de Marin falaram que, se alguém recebeu grana por fora, teria sido Del Nero. Este, por sua vez, emitiu nota em que mostrava indignação com Rodriguez e reiterava que nunca participou, “direta ou indiretamente, de qualquer irregularidade.” Daí, recolheu-se ao habitual silêncio e não viajou para Moscou, onde na semana passada foi realizado o sorteio dos grupos do Mundial de 2018. Del Nero não sai do País desde que, em maio de 2015, abandonou às pressas uma reunião da Fifa, na Suíça, ao mesmo tempo em que lá era preso seu ex-amigo Marin.

Ressalve-se o direito de todos os citados alegarem inocência e se defenderem com os meios de que dispõem. O julgamento caberá ao tribunal nova-iorquino, e cada um que responda à própria consciência. Triste, embora não surpreendente, ver o senso de lealdade entre pessoas que dividiam mesas, viagens, decisões. Comportam-se como o Amigo da Onça, lendário personagem criado por Péricles para a falecida O Cruzeiro e que não titubeava em prejudicar quem quer que fosse, sob a aparência de ajuda desinteressada. 

Para o torcedor, sujeito que consome o produto futebol, reles mortal que acompanha jogos nos estádios ou nos meios de comunicação, fica a sensação de ser enrolado. Parece que lhe carimbam “otário” na testa. Algo semelhante com o desconforto provocado pelos acordos, traições, manobras e conchavos, oportunismo da classe política. É muita aporrinhação para o brasileiro.

Num ambiente salutar, não caberia mais espaço para dirigentes sobre os quais pesam interrogações e desconfiança. Afastamento voluntário, renúncia, seria o gesto mais corajoso e de galhardia. Ou, se isso não ocorresse, que houvesse pressão de federações e clubes para as mudanças. Não há nem um movimento nem outro no que se refere à CBF. Ao contrário, os estatutos modificados em março abrem brecha para o presidente candidatar-se em 2019 e tentar nova reeleição em 2023. Quer dizer, ficaria ainda mais 11 anos no poder.

A aposta de indiferença da opinião pública está nos pés da seleção. Importa que Tite e rapazes tenham sucesso na empreitada na Rússia, dentro de seis meses. Se voltarem com a taça, haverá festa, rojões, euforia e a certeza de que o futebol brasileiro se reergueu e está em boas mãos, que conta com administradores competentes. Como se aqui fosse o melhor dos mundos.

Pensando bem, se houver fiasco, o desfecho será o de sempre: sairá Tite e vira outro salvador da pátria. Mas os donos do poder permanecerão. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.