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Aos 16 anos Gabigol vale R$ 131 milhões e é a maior promessa do Santos

Ciro Campos - O Estado de S. Paulo

09 Abril 2013 | 08h 30

Garoto foi descoberto por Zito e saiu da vida pobre na favela para revolucionar a história da família

SÃO PAULO - O casal Valdemir e Lindalva tinha uma vida difícil. Os dois moravam em uma pequena casa de madeira na favela Parque Seleta, em São Bernardo do Campo. Ele saía de casa todo dia às 4h30 para trabalhar como metalúrgico e ela contava as míseras moedas do orçamento para pegar três ônibus e levar o filho para treinar futebol em São Paulo. A filha mais nova, mesmo bebê, também ia junto porque não tinha com quem ser deixada. Menos de dez anos se passaram e hoje a família leva uma vida de sonho. Mora no litoral, tem carro e casa, não precisa mais trabalhar e se dedica exclusivamente ao agora atacante Gabriel, de 16 anos, a maior promessa das categorias de base do Santos.

O menino pobre foi garimpado pelo clube e agora é uma joia com multa rescisória de R$ 131 milhões – a de Neymar, por exemplo, é de R$ 183 milhões. Desde os 13 anos, Gabigol é acompanhado de perto pelo empresário Wagner Ribeiro, o mesmo de Neymar e Lucas. “Esse menino me lembra muito o Adriano quando começou. É forte fisicamente, canhoto e chuta bem a gol. Quando derem chance, ele vai estourar”, opinou Ribeiro, conhecido por exagerar nos elogios a seus clientes.

O apelido ele ganhou quando chegou ao Santos, aos oito anos, e foi uma forma de usar o faro de artilheiro para se diferenciar da legião de Gabrieis da base santista. E foi esse faro que o fez receber atenção especial do estafe do clube, que cuidou de fazer a mudança de cidade da família e agora o prepara o corpo e a cabeça do menino para transformá-lo em um novo Neymar.

“A gente morava em uma favela e agora a vida está totalmente diferente”, disse o menino, durante uma entrevista ao Estado durante os bastidores de uma propaganda para a "Gatorade", um de seus patrocinadores. “Ainda estou vivendo um sonho e minha ficha não caiu.”

De pai para filho

Gabigol começou em um clube rival do Santos, o São Paulo, e saiu de lá quando foi descoberto por Zito, mito santista e bicampeão mundial com a seleção brasileira. “Teve um amistoso de futsal contra o Santos e o Gabriel fez todos os gols da vitória por 6 a 4. O Zito viu e o indicou para o Santos”, contou Valdemir, que tem com o filho uma relação parecida com a da dupla Neymar pai e Neymar filho. É ele quem cuida da carreira do garoto, usando para isso sua experiência de jogador frustrado – ele abandonou os campos aos 21 anos por causa de problemas nos joelhos.

Após 18 anos trabalhando como metalúrgico, Valdemir deixou a dura rotina em um chão de fábrica quando percebeu que os rendimentos do filho poderiam sustentar a família. Ele confia no Santos, que trata Gabigol com extremo cuidado. Após colecionar artilharias de torneios na infância, ele começou a despertar interesse de clubes europeus como Paris Saint-Germain e Inter de Milão. Ao completar 16 anos, assinou o primeiro contrato com o clube alvinegro (o vínculo vai até 2015). “Ele é muito focado e nada vai atrapalhar. Quero que se realize jogando futebol e não passe pelas mesmas dificuldades que passamos”, afirmou Lindalva, que se emociona ao se lembrar das vezes que carregou o filho no colo para ir aos treinos – assim, evitava que ele cansasse as pernas antes da hora.

Atualmente, Gabigol treina três vezes por semana com os profissionais e à noite cursa o terceiro ano do Ensino Médio. É fã de Cristiano Ronaldo e, no tempo livre, joga videogame, escuta hip hop e usa as redes sociais. A mãe garante que cuida para que o filho não se deslumbre com o assédio das garotas. Não será fácil. Garoto-propaganda de empresas multinacionais, o atacante já se delicia com os benefícios da vida de famoso – como, por exemplo, ser apresentado ao superastro jamaicano Usain Bolt e posar ao lado dele para os fotógrafos. E isso mesmo tendo feito apenas um jogo pelo time profissional, contra o Grêmio Barueri, no começo do ano. O técnico Muricy Ramalho vê nele um grande potencial, mas ainda não o considera um jogador pronto. Nem seu empresário. “É natural que exista essa pressão, mas ele é humilde e de boa família. Se tiver pressa para lançá-lo, pode-se queimar etapas”, disse Ribeiro.

Gabigol se diz tranquilo com a expectativa que gera. Ao menos a primeira missão, dar uma vida melhor aos pais, ele já cumpriu. O garoto faz questão de carregar em suas chuteiras os nomes dos familiares. No pé direito, estão o pai e a irmã, Giovanna, de 11 anos. No esquerdo – o pé artilheiro –, está o nome da mãe. E, assim, inverteram-se os papéis: agora é o filho quem a leva por aí.