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Aos 38 anos, Magno Alves vira o vovô artilheiro do Ceará

Em grande forma física e técnica, veterano atacante do Ceará briga pelo título de goleador da temporada no Brasil

Raphael Ramos

30 Agosto 2014 | 17h 56

Quando diz que tem 38 anos, Magno Alves provoca espanto. É difícil acreditar que o atacante, quase um “quarentão”, continua jogando em alto nível e fazendo gols como nos tempos de Ratrans Esporte Clube, modesto clube da pequena cidade de São Sebastião do Passé, no interior da Bahia, onde iniciou a carreira com 17 anos.

Magno Alves tem jogado no Ceará muito mais do que se esperava dele quando foi contratado em setembro de 2012 para iniciar a sua segunda passagem pelo clube. Já veterano, aos 36 anos, o atacante foi alvo de muitas críticas por ter marcado apenas um gol em 21 partidas, mas depois deslanchou e acabou com a desconfiança que o cercava.

Com o tempo, Magno Alves passou a se sentir mais à vontade. Em plena sintonia com os companheiros joga com liberdade. Os gols, então, conquistaram torcedores e imprensa e o Magnata virou ídolo no Ceará. As comparações entre o apelido do clube e o jogador são inevitáveis. Se o clube é chamado de Vovô por causa da sua mascote, Magno Alves virou o Artilheiro Vovô devido à idade avançada.

A receita do atacante para manter o fôlego de juvenil aos 38 anos é uma boa noite de sono e alimentação sem frituras e guloseimas. Aliado a isso, Magno Alves nunca gostou de badalação e noitada. “Não sou muito de estar em festa. Mas isso é cada um. Eu preferi ir por esse caminho. A gente sabe que a carreira de jogador é curta. Felizmente estou com 38 anos e ainda jogando em alto nível. Sempre fui artilheiro por onde passei e agora vou para o segundo ano consecutivo brigando não apenas para ser artilheiro da minha equipe, mas sim do Brasil”, disse

Casado com a jornalista Natália Varela, sua “onda” é ficar em casa curtindo os filhos gêmeos Levi e Lis, que nasceram no ano passado. Magno Alves é notícia exclusivamente por aquilo que faz dentro de campo. O atacante costuma evitar se expor muito e interage com o público apenas por meio das redes sociais. Em sua página no Facebook, por exemplo, costuma promover enquetes e distribuir brindes, como camisas autografadas. “Nas redes sociais você recebe elogios e críticas. Isso faz parte da vida de jogador”.

Contra a sua vontade, Magno Alves também tem se dedicado ultimamente a algumas sessões extras na academia. “Não sou muito chegado a musculação, mas é uma necessidade fazer o fortalecimento da musculatura. Com os nutricionistas e os fisiologistas tenho feito um trabalho extracampo e os suplementos alimentares também ajudam.”

Em ótima forma, o atacante já balançou as redes 27 vezes este ano. Na lista de artilheiros da temporada no País incluindo jogadores que disputam as Séries A, B, C e D do Campeonato Brasileiro, além dos Estaduais de Primeira Divisão, Copa do Nordeste, Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana e Recopa, Magno Alves está atrás apenas de Robert, do arquirrival Fortaleza, que fez 28 gols.

O segredo, diz o atacante, está no posicionamento. É por isso que, mesmo com apenas 1,75 m de altura, faz muitos gols de cabeça. Com a experiência adquirida em mais de 20 anos como atleta profissional, ele sabe exatamente onde tem de ficar para dar a opção de passe para os companheiros e finalizar sem precisar fazer muito esforço.

Prova do prestígio do atacante foi dada na última semana, quando Ceará e Fluminense travaram uma batalha financeira para ver quem iria ficar com Magno Alves. O Tricolor chegou a acertar as bases salariais com o atacante, mas não entrou em acordo para pagar a multa rescisória ao Ceará, que endureceu para não perder o seu principal jogador justamente no ano do centenário do clube.

“Eu faço o que amo e, hoje em dia, isso é um privilégio para poucos. Muitas pessoas trabalham no que não gostam devido à necessidade. Eu amo futebol desde criança e ainda recebo por isso”, gaba-se Magno Alves, ainda mais valorizado pela diretoria do Ceará.

 

O atacante tem história no Fluminense, onde atuou entre 1998 e 2002 e marcou 112 em 225 partidas. No Tricolor carioca, ganhou o Brasileiro da Série C em 1999 e o Estadual de 2002.

O sucesso no Flu o levou para o exterior e, entre 2003 e 2010, Magno Alves fez fortuna jogando no Jeonbuk (Coreia do Sul), Oita Trinita, Gamba Osaka (ambos do Japão), Al-Ittihad (Arábia Saudita) e Umm-Salal (Catar). As sete temporadas longe do Brasil renderam algumas histórias curiosas. Uma delas ocorreu na Coreia, quando o atacante recebeu relógios e joias de presente da diretoria do Jeonbuk, mas quando foi conferir o holerite viu que descontaram do seu salário o valor dos mimos.

“Naquela época, eu não tinha tanta experiência e lá a tradição é diferente. São histórias do futebol, é bom recordar. É o meu túnel do tempo”, diz sorrindo.

Em Aporá, sua cidade natal no interior da Bahia, o atacante criou em 2004 a Fundação Magno Alves. São 180 jovens de cinco a 18 anos, que frequentam a escolinha de futebol da entidade. Desde a morte da sua mãe, Dona Gerusa, em 2011, Magno Alves tem diminuído a frequência das visitas a Aporá, mas todo fim de ano vai à cidade. “Hoje, quem mantém o projeto são os pais dos alunos, mas quando a situação aperta, eu ligo para o Magno Alves e ele sempre manda um dinheirinho para a gente”, conta Aloisio Andrade, presidente da fundação.

Com prestígio em alta e moral elevado, o atacante não quer nem pensar em voltar para Aporá para curtir a sua aposentadoria. “Sou um jogador de poucas lesões. Enquanto tiver saúde, vou continuar jogando. Sou feliz no que faço.”