As formas de solidão

Na penúltima rodada do Brasileirão o sentimento foi representado por três jogadores, em diferentes situações

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 03h00

Durante a semana que acaba houve espetáculos em que a solidão se apresentou em suas várias formas. Três jogadores, em diferentes situações, jogando em clubes diferentes, a representaram condignamente.

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A primeira experiência foi talvez a mais terrível, a mais trágica, representada pelo goleiro Muralha, do Flamengo. A reação de torcedores quando o jogador sai do ônibus que trazia a delegação do clube para a partida contra o Junior choca não só pela violência, mas pela solidão de Muralha. Solidão nesse caso significa estar sem ninguém, sem que qualquer pessoa interfira no sofrimento, sem que ninguém apoie ou saia em defesa da vítima. Muralha não queria estar ali, olha para todos os lados e só vê inimigos. Não tem para onde correr nem para onde fugir. Em vão ele espera uma voz em seu favor. Não vem. Nem dos companheiros, nem do treinador ou dos dirigentes, muito menos da crítica.

Não estou acusando ninguém. Talvez eu também, na mesma situação, me calasse. Dentro dessa sociedade de linchamentos, o futebol é um mundo ainda mais cruel. Então, numa situação como a do Muralha é melhor ficar calado e cuidar da sua própria vida.

Mas a experiência de solidão extrema que esse jogador passou não é transmissível. Talvez o transforme numa pessoa pior do que é, ou talvez numa melhor. Quem sabe?

Situação bem diferente foi a de Zé Roberto. Esse teve a experiência da solidão festiva, aplaudida, e unânime. O estádio todo gritava seu nome, os companheiros o festejavam, os repórteres tentavam arrancar dele as frases protocolares. Havia alegria por toda parte.

Mas haveria alegria no próprio Zé Roberto? Certamente ele sabia que se celebrava ali uma ausência, não uma presença. Uma retirada, não uma chegada. De todos em campo o único que se despedia era ele. Quem provavelmente jamais pisaria naquele campo de novo era só ele. Nesse sentido, era único, solitário, no estádio.

No começo ensaiou algumas lágrimas, mas se recompôs logo e reapareceu a mesma controlada expressão de sempre. E, mesmo que chorasse, como talvez quisesse muita gente para ver no telão, o que significaria aquelas lágrimas? Alegria? Tristeza? Quem sabe?

De minha parte, me alegra o fato que de o craque saiu de campo, provavelmente arrasado na sua solidão, mas digno e contido. E o telão não teve o que mostrar. O telão está preparado para mostrar muita coisa, menos a alma.

A terceira experiência de solidão é a mais enigmática, quase inverossímil. No jogo Ponte Preta x Vitória, torcedores enlouquecidos invadiram o campo quebrando grades e o diabo. Todos os jogadores correram para o vestiário, numa compreensível atitude de proteção. Um ficou no campo, Aranha. Não terá tido tempo? Ou não quis correr?

O fato é que a cena onde um único atleta, solitário, cercado de furiosos torcedores, é de um suspense de filme. Vê-se torcedores furiosos, que falam e gesticulam. Aranha se mantém tranquilo no meio deles. Apenas quando algum ousa tocá-lo, um decidido repelão afasta o torcedor.

Os torcedores hesitam, não sabem o que fazer diante de um jogador, o único que tinha ficado em campo do time odiado e perdedor. E, no entanto, não foi agredido.

Os momentos de hesitação foram longos o suficiente para a chegada de seguranças. Aranha sai de campo calmamente, como estivera durante todo o tempo. Sua solidão foi a solidão da bravura. Uma bravura, valentia tão grande que fazem até pensar se não foi um acidente, e se Aranha teria preferido acompanhar os demais na corrida para os vestiários. Não sei. Mas tenho acompanhado esse jogador e não é a primeira vez que o vejo enfrentando multidões. Acho que queria estar exatamente onde esteve, e fazer exatamente o que fez.

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