Azar da Copa

Enquanto só se falava sobre Messi e CR7, azar do Mundial que a Síria não se classificou

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2017 | 04h00

Passamos semanas lamentando o quão quase dolorido seria o Mundial da Rússia se Cristiano Ronaldo e Messi não se classificassem. Como se o futebol fosse um esporte individual, as estrelas mais brilhantes do esporte mais popular do mundo ofuscaram o possível fiasco das suas próprias seleções. Não aconteceu. Portugal e Argentina lá estarão como protagonistas. Chegarão altivos. No caso da Argentina, chegará como uma das favoritas.

A Copa do Mundo é um show. O maior evento esportivo do mundo. É feita de estrelas. Cria heróis. Mas futebol não é apenas o que acontece durante 90 minutos dentro de um campo de grama. Não são as 17 regras frias aplicadas por um sujeito de preto. 

As classificações do Egito, da Costa Rica, da Islândia (o país com mais talentos per capita do mundo) e do Panamá (!!!) criaram histórias que serão contadas e recontadas. A desclassificação da Síria idem. Essa é uma daquelas “injustiças” que serão corrigidas em um universo alternativo. 

Eu gosto de acreditar que existe uma dimensão paralela em que os deuses do futebol consertam o que nós humanos deixamos passar porque somos falhos. Lá Zico venceu a Copa de 1982. Falcão venceu duas (a de 1978 também). Sócrates foi campeão do mundo. A Holanda ganhou a Copa de 1974 e Portugal, a de 1966. O Brasil não ganhou em 1994. Também não chegou nas semifinais em 2014: perdeu do Chile nas oitavas, que perdeu para a Colômbia nas quartas. 

No mundo onde nossas falhas foram consertadas (sem a necessidade do árbitro de vídeo), não existe discussão sobre quem foi o melhor jogador da história. A Fifa etérea é presidida por um conselho de “velhinhos” da International Board: Puskas, Di Stefano, Cruyff e Carlos Alberto Torres. Não existem confederações nem federações. Técnicos e jogadores sabem falar, pensar, articular pensamentos e se organizar. Azar da Copa do Mundo ela não ser assim.

Azar de ela ser um evento que faz pulsar o coração de bilhões de torcedores de uma forma tão inacreditavelmente emocionante (recomendo os muitos vídeos que viralizaram aqui e acolá), mas corrompido por suspeitas de compra de votos, corrupção e propina em todas as pontas que envolvem a sua organização, por um sistema de classificação no mínimo estranho, que tem um ranking “com brechas”, e que é feita para gerar bilhões para uma instituição privada (ainda que de interesse público).

Não, não é possível separar o orgulho patriota que a camisa amarela pode gerar de tudo isso. É muito fácil ter admiração pelo time que Tite formou. Fluem os adjetivos superlativos para elogiar a campanha e estar otimista com as chances reais do hexacampeonato.

Mas fico muito constrangida como brasileira com o pacote futebol jogado e, digamos, futebol arquitetado. Imagine na Copa.

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