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Batismo de Bauza

Antero Greco

Edgardo Bauza tem quase dois meses de São Paulo. Sob o comando dele, a equipe disputou algumas partidas oficiais e até teve a primeira decisão da temporada – nos duelos recentes com o Cesar Vallejo, do Peru, que valeram vaga na fase de grupos da Copa Libertadores. Mas apenas hoje, dia de são Valentino – e, por extensão, Dia dos Namorados em muitos países –, o argentino passará pelo batismo no banco tricolor. No clássico da tarde com o Corinthians, conhecerá o peso e a responsabilidade de uma das grandes rivalidades nacionais. 

Bauza saiu pela tangente, na entrevista de praxe, aquela de antevéspera que menos informa e mais despista. Na tentativa de enquadrar o jogo, apelou para o recurso manjado de que se trata de compromisso importante como tantos, que os adversários se equivalem, que não tem a conversa de revanche dos 6 a 1 no Brasileiro, etc. e tal. 

O técnico exerce o papel de moderador, em esforço de aliviar a responsabilidade das costas dos jogadores – e de si próprio, por que não? Recurso inócuo. Bauza não entrou ontem no mundo da bola, sabe muito bem o que representam diferenças longevas, entende o valor desse tipo de tira-teima, não há como fugir do destino. Pouco importa se tricolores e alvinegros voltam atenção para a competição sul-americana. Ganhar neste domingo significa entrar com moral na Libertadores e minar a confiança do lado contrário. Brilhar no Majestoso é delícia impagável. 

Num aspecto, El Patón tem razão: o discurso de vendetta do São Paulo não cola. Bacana para estimular a expectativa, cutucar as torcidas, recordar proeza ou ferida, depende do ponto de vista. Corinthians e São Paulo desde 1930 têm motivos, em cada novo encontro, para um ajuste de contas qualquer. Um já surrou o outro em diversas ocasiões, numa roda-viva interminável. O resultado do Brasileiro de 2015 foi de lascar, mas entra no enorme caldeirão.

A curiosidade fica para que São Paulo e Corinthians desfilarão pelo gramado do Itaquerão. Ambos se encontram em processo de transformação e reconstrução. Os tricolores perderam gente do quilate de Rogério Ceni, Luís Fabiano e Pato. Os campeões nacionais foram dilapidados pela grana de estrangeiros, chineses a puxar a fila. Estão longe, portanto, do ideal. Mesmo com resultados satisfatórios no Paulista, nenhum deslanchou. Nem poderia ser diferente. Injustiça cobrar agora deles eficiência e regularidade.

Tite e Bauza estão a coçar a cabeça para definir as respectivas trupes. Há a preocupação em fazer bonito no choque local, ao mesmo tempo em que convivem com o temor de derrapada na Libertadores. Daí, a tendência para o rodízio, com os riscos embutidos em tal opção. Não devem ser espinafrados na busca por equilíbrio na dosagem de desgaste a que submeterão os atletas.

Independentemente das escolhas, a empreitada do São Paulo não é suave. O Corinthians tem retrospecto admirável em casa, com apenas quatro derrotas – o que indica tendência, não realidade inalterável. Certas estatísticas, no futebol, servem para refogar papo de botequim; não carregam verdades científicas. Não dê muito ouvidos a sopas de números. 

Bauza age como um Diógenes moderno, que sai com uma lanterna à procura dos homens adequados para compor um time homogêneo. A prioridade se concentra na defesa, e há progressos. No meio e na frente, a pesquisa parece mais crua. A bola da vez deve ficar com Kieza no comando do ataque, com Calleri como alternativa. Wesley ganha nova chance, no duplo papel de marcação e apoio. Mas está no crivo do técnico e, já há algum tempo, no da torcida.

Tite escarafuncha o que sobrou do elenco de 2015 e acelera os exames com a turma de recém-chegados. A carta na manga é André, candidato maior a sucessor de Vágner Love. No mais, capricha na sintonia fina em todos os setores. Os resultados têm sido, até, acima do esperado. Para dissipar interrogações, nada como uma vitória sobre o São Paulo. 

O clássico promete.

 

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