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Futebol Internacional

Clubes dividem o nome Barcelona, mas não o sucesso

Equipe de Guayaquil é muito diferente do gigante da Europa

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Noah Schumer,
The New York Times

03 Fevereiro 2016 | 07h00

Com seu escritório luxuoso escassamente decorado com vista para o campo do Estádio Monumental, Juan Alfredo Cuentas buscava explicar o poder da marca que herdou como novo vice-presidente financeiro do Barcelona Sporting Club. Do lado de fora, o gramado antes imaculado está vazio enquanto a temporada não começa, e lentamente vai murchando ao calor de janeiro.

"Está em pé de igualdade com Coca-Cola, Samsung ou Pepsi", disse ele sobre seu time. "É a marca mais forte e mencionada no país, gerando manchetes todos os dias."

Para a maioria dos torcedores de futebol do mundo, o nome Barcelona é sinônimo de Lionel Messi, Neymar e Luis Suárez, enormes recursos financeiros e triunfos na Champions League que muitas vezes fizeram da Espanha a gigante do esporte. Porém, no Equador, o nome Barcelona costuma estar associado ao clube de 90 anos de idade fundado aqui em Guayaquil, a maior cidade do país.

Os dois times são muito diferentes, é claro, mas pelo menos são parecidos de algumas formas.

Para começar, o Barcelona Sporting Club, fundado por catalães, tem um logotipo baseado no colega espanhol. E, ao menos no Equador, o desempenho em campo do imensamente popular Barcelona Sporting Club ecoa pelo país da mesma forma que as conquistas e ocasionais tropeços de Messi e companhia emocionam a Espanha inteira.

"Para todas as pessoas que dizem que na Espanha existe o grande Barcelona, o Barcelona original, aqui no Equador, o nome Barcelona é algo muito sagrado dentro do nosso próprio futebol", disse Carlos Víctor Morales, popular comentarista de futebol de Guayaquil.

"As pessoas amam, odeiam, sofrem, choram e comemoram segundo os resultados do Barcelona", declarou ele.

Ronald Ladines, que cobre a versão equatoriana do Barcelona para "El Comercio", um dos maiores jornais do país, foi sucinto em sua avaliação do significado da equipe, dizendo que o "Barcelona é o futebol no Equador".

Talvez com algum exagero, ele acrescentou que "campeonato sem jogo do Barcelona não é campeonato".

Segundo a maioria dos relatos, o Barcelona Sporting Club passou a ganhar destaque em 1949, quando a paisagem futebolística no Equador era em grande medida dominada por times provincianos amadores. Em agosto daquele ano, o Barcelona Sporting Club enfrentou o colombiano Millonarios, então considerado um dos melhores times profissionais do mundo, em um amistoso beneficente em prol das vítimas de um terremoto na cidade andina de Ambato.

O Barcelona, que então contava somente com jogadores equatorianos, derrotou o Millonarios por três a dois, atraindo atenção nacional.

"Era uma época em que o futebol equatoriano estava mais acostumado a derrotas acachapantes", disse Ricardo Castellano, historiador futebolístico ligado ao museu do Barcelona Sporting Club. A vitória sobre o Millonarios marcou o começo de algo novo.

A principal liga equatorial (mais tarde conhecida como Série A) ganhou forma no final da década de 1950. Quando o Barcelona Sporting Club começou a recrutar jogadores estrangeiros no começa da década seguinte, transformou-se na principal força da competição e, até agora, ganhou 14 campeonatos, recorde local, embora somente um nos últimos 18 anos.

Outras partidas internacionais também contribuíram para a popularidade crescente do Barcelona no Equador, incluindo um jogo em 1962 contra o Santos de Pelé e diversas participações na Copa Libertadores, o campeonato latino-americano de clubes.

Ao longo dos anos, os dois Barcelonas cruzaram seus caminhos ocasionalmente dentro e fora do campo. Em 2012, o Barcelona espanhol tentou registrar sua marca no Equador para marketing e outros propósitos, questionando o direito do Barcelona Sporting Club ao seu próprio nome e logotipo. Entretanto, foi fechado um acordo entre ambos em 2014 que permitiu a coexistência das marcas no Equador. Os times se enfrentaram três vezes, embora não desde 1988. Cada um tem uma vitória e um empate.

Contudo, enquanto o Barcelona da Espanha emergia como um dos clubes mais bem-sucedidos do mundo na última década, o homônimo equatoriano - administrado sem fins lucrativos - se viu enfrentando uma série de problemas financeiros e um desempenho ruim no campo que seriam inimagináveis para o colega espanhol.

O cerne dos problemas do time equatoriano é uma grade dívida criada por grupos de gestão sucessivos desde o começo do milênio. As aflições financeiras do Barcelona viraram crise na temporada de 2015 - no Equador, a temporada é disputada durante um ano civil, atualmente de fevereiro a dezembro - quando a administração, então chefiada por Antonio Noboa, membro de uma das mais famosas famílias financeiras do país, não conseguiu pagar os salários dos jogadores durante vários meses. O fato levou a Federação de Futebol Equatoriana a tirar pontos do clube.

A moral entre os jogadores caiu e o Barcelona ficou em um distante quarto lugar na Série A. Para piorar ainda mais as coisas, seu principal rival, o Emelec, foi tricampeão, somando sua 13ª taça, uma atrás da equipe.

"A situação econômica difícil refletiu no desempenho da equipe no campo na última temporada. Não tenho dúvidas", disso Guillermo Almada, técnico do Barcelona, durante entrevista em Río Verde, na costa norte do Equador, onde a equipe realizava sua pré-temporada.

Em outubro, os quase quatro mil associados do clube, que pagam uma mensalidade para manter esse status, votaram por uma mudança na direção, elegendo José Francisco Cevallos como presidente. Ex-jogador altamente célebre apelidado Mãos do Equador pelo sucesso como goleiro do Barcelona durante a década de 90 e por sua participação na Copa do Mundo e na Copa Libertadores, Cevallos foi ministro dos Esportes da nação.

A primeira grande medida de Cevallos for pagar o salário atrasado dos jogadores e da equipe técnica de julho, agosto e setembro, restaurando um pouco de confiança na liderança do time.

Em Río Verde, as dificuldades do time não impediram que centenas de torcedores comparecessem ao treino. Manuel Espinosa, 47 anos, sentou nas arquibancadas de concreto cobertas de pó e espantava as moscas enquanto via o time do coração ganhar ritmo no terceiro treinamento do dia. Vestido com a camisa amarela do clube, Espinosa expressou otimismo, acreditando que Cevallos poderia ajudar o Barcelona a voltar ao seu passado de glórias e professando lealdade no presente período de vacas magras.

"Para mim, o Barcelona é o meu ídolo, a paixão da minha vida. O time pulsa nas minhas veias", declarou ele.

Na sede do clube, Cuentas afirmou que a nova administração estava definindo grandes expectativas.

"Nossa meta é restaurar o nome do Barcelona, nacional e internacionalmente, ao status que sempre teve, como o melhor time do Equador."

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