Isaac Brekken/The New York Times
Isaac Brekken/The New York Times

Coibindo os acertos de resultado

Para tornar os eventos esportivos mais honestos e interessantes, as autoridades deveriam legalizar as apostas

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 07h00

Em 267 d.C., Nicantinous e Demetrius, dois adolescentes, haviam chegado à final de um prestigioso torneio de luta livre no Egito. Antes do combate, porém, seus pais acertaram as coisas entre si. Pelo preço de um jumento, Demetrius se comprometeu a “cair três vezes e entregar os pontos”. O contrato assinado pelos dois homens é o mais antigo documento de que se tem notícia em que o resultado de uma disputa esportiva é manipulado em troca de ganhos financeiros.

Atualmente, o arranjo de resultados é um gigantesco empreendimento global. Os eventos esportivos geram aproximadamente US$ 2 trilhões em apostas todos os anos, a maior parte das quais são feitas pela internet, o que permite a vários apostadores burlar as legislações antijogo de seus países. Estima-se que uma em cada 100 partidas de um conjunto de modalidades esportivas tenha seu resultado “arranjado”.

A moderna manipulação de resultados é um negócio bem mais sutil do que o acerto firmado pelos pais de Nicantinous e Demetrius. Com frequência, envolve a manipulação das margens dos favoritos no momento mesmo em que a partida está sendo disputada. Quando um jogador de críquete se compromete a fazer poucos pontos, ou um jogador de futebol aceita provocar sua própria expulsão, ou um jogador de tênis promete perder determinado game, os apostadores conseguem prever como as margens dos favoritos se comportarão, garantindo para si um lucro líquido e certo, tal como fazem os operadores de ações que efetuam ordens de compra ou venda com base em informações privilegiadas. Para não ficar com peso na consciência, os atletas podem se convencer de que errar propositadamente uma bola ou outra, ou cometer algumas duplas faltas durante uma partida são crimes que não prejudicam a ninguém.

Não é bem assim. Se os apostadores que se dispõem a fazer apostas ilegais fossem as únicas vítimas, a manipulação de resultados realmente não teria tanta importância. Mas não é isso que acontece. Muitos dos lucros são embolsados por criminosos violentos. Entre os trapaceados estão os inocentes companheiros de time dos atletas corruptos, os indivíduos que fazem apostas sem infringir a lei e os torcedores comuns, que pagam para assistir a uma partida de verdade, não a um embuste.

Uma coisa é certa, não se pode esperar que medidas moralizadoras sejam adotadas pelos dirigentes esportivos, alguns dos quais são, eles próprios, suspeitos de corrupção. Muitos dirigentes também parecem temer que a revelação da escala em que a manipulação acontece acabe por provocar uma crise de confiança. As entidades esportivas não se empenham em educar os atletas sobre os métodos dos manipuladores. Tampouco investem no monitoramento das apostas para tentar identificar padrões suspeitos de comportamento. Os poucos casos que têm vindo à tona foram descobertos por policiais que investigavam atividades criminosas, não por dirigentes esportivos preocupados com a manipulação de resultados. A entidade que comanda o tênis mundial, modalidade que vive às voltas com suspeitas de manipulação de resultados, não dispõe de funcionários suficientes para acompanhar todos os seus eventos profissionais.

Com um número cada vez maior de partidas sendo televisionadas, aumentam as apostas em torno de competições menores, onde os atletas ganham menos e, portanto, são mais suscetíveis a serem corrompidos. A popularização de novas modalidades também atrai os manipuladores: já se nota sua atuação em torneios de videogame. Os campeonatos femininos de críquete e futebol são outros alvos prováveis.

A fim de coibir a manipulação de resultados, as autoridades precisam fazer duas coisas. A primeira é legalizar as apostas, que são proibidas em muitos países. Para lucrar com suas trapaças, os manipuladores precisam de mercados que movimentem grande volume de recursos e tenham liquidez. Se os apostadores honestos começarem a utilizar casas de apostas legais, os trapaceiros terão de ir atrás deles, e as autoridades conseguirão identificá-los com mais facilidade. A segunda coisa a fazer é aprovar leis contra o acerto de resultados que reconheçam que, muitas vezes, as únicas provas da manipulação são análises estatísticas. Muitos países nem sequer têm legislação sobre o assunto.

Bilhões de pessoas acompanham os eventos esportivos pelo prazer de ver atletas espetaculares se esforçando para conquistar a vitória, ou porque gostam de experimentar um pouco da excitação de uma competição justa. Se os manipuladores continuarem à solta, corre-se o risco de que a coisa acabe perdendo a graça. / TRADUÇÃO ALEXANDRE HUBNER

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