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A Batalha de Rosário

O Estado de S. Paulo

17 Junho 2014 | 12h 32

Chicão vira xerife brasileiro e encara argentinos em clássico marcado pela violência na Copa de 78

 SÃO PAULO - A disputa da Copa de 1978 transcendeu o futebol. Sob violenta ditadura comandada pelo general Jorge Vidella, a Argentina usou o futebol como instrumento de propaganda e consolidação do poder - como de praxe na ausência de democracia. Nesse cenário, os jogadores entraram pressionados a vencer a qualquer preço. Na base da força bruta, se preciso fosse.

O clima bélico ficou claro no duelo entre Brasil e Argentina, pela segunda fase do torneio, no dia 18 de junho de 1978. Um festival de pontapés e cotoveladas. Quem "sobrevivesse" estaria a um passo da final.

Prevendo o embate físico no estádio Gigante de Arroyito, em Rosário, o técnico brasileiro Claudio Coutinho mexeu no time. Optou por Chicão, volante de 1,90 m, reconhecido por, digamos, não alisar nas divididas, no lugar do franzino Cerezo.

Chicão defendia o São Paulo em 78. Sagrou-se campeão brasileiro em 1977 em final contra o Atlético Mineiro, clube que para o qual o meio-campista se transferiu em 1980. Passou também pelo Santos e encerrou a carreira em 1986, no Mogi Mirim.  "O Chicão não tinha medo nem de touro e entrou para marcar o Kempes, que sumiu em campo", lembrou o goleiro Leão em entrevista concedida ao Estadão para reportagem publicada em 5 de setembro de 2009.

Contribuiu para que a pancadaria tenha corrido solta a omissão do árbitro Károly Palotai. O húngaro foi sacar o primeiro cartão amarelo somente aos 45 minutos do primeiro tempo, quando Chicão calçou o artilheiro Kempes por trás. Pelos critérios de Palotai, Chicão não foi o monstro que pintam nas histórias em torno dessa peleja. Saiu de campo com apenas duas faltas marcadas.

No total, foram assinaladas 17 faltas na partida, nove brasileiras e oito argentinas. Fichinha se comparado a, por exemplo, Portugal (treinada por Felipão) x Holanda na Copa de 2006,quando árbitro russo Valentin Ivanov aplicou 12 amarelos e quatro vermelhos.

Arquivo/AE
Clima pegado em Argentina 0 x 0 Brasil, na Copa de 78

Na reportagem do Estadão em 2009, o goleiro da seleção argentina Ubaldo Fillol diz que a partida contra o Brasil em 1978 "foi muito dura, mas nada de anormal". Para ele, Argentina x Brasil era sempre um jogo "pegado".

Oscar que o diga. O zagueiro brasileiro recebeu uma cotovelada do atacante Luque logo no começo do confronto e tratou de retribuir. Também ouvido pelo jornal em 2009, contou que no trajeto para o estádio o ônibus brasileiro foi apedrejado. "Tiveram de fazer um imenso corredor polonês para passarmos", recordou.

Com pouco tempo de bola rolando e muitas faltas, o clássico terminou 0 a 0 e ficou conhecido como "A Batalha de Rosário". Na sequência da Copa, com uma goleada de 6 a 0 da Argentina sobre o Peru, resultado que até hoje levanta suspeitas, os donos da casa se classificaram para a final.

A Argentina jogou a final contra a Holanda. No tempo normal houve empate por 1 a 1, com uma bola na trave dos europeus nos minutos finais que apavorou os donos da casa. Recuperados do susto, os argentinos fizeram 2 a 0 na prorrogação, com gols de Kempes e Bertoni, e conquistaram sua primeira Copa.

Ao Brasil, por ter terminado invicto e pela valentia em Rosário, restou o terceiro lugar e o título de "campeão moral".

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