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Copa do Mundo

A uma semana da Copa, ruas de São Paulo têm festa ainda tímida

Protestos violentos inibiram moradores que seguiam tradições desde 1970. Nesta Copa, eles preferem fazer a festa em casa, longe da multidão enfurecida

Laura Maia de Castro

05 Junho 2014 | 06h 33

No asfalto da Alameda dos Piratinins, no Planalto Paulista, zona sul da capital, ainda é possível ver as marcas da pintura de uma bandeira do Brasil feita na Copa de 2010. Os cabos de aço esticados pelos próprios moradores ainda estão entre os postes, mas neste ano não haverá bandeirinhas. Com medo de manifestações, comerciantes e moradores da região decidiram não decorar a rua para a Copa e quebrar a tradição que existe desde a década de 1970. A 17 km dali, na zona norte, o cenário é diferente. Moradores cobriram o asfalto da Rua Capitão Siqueira Barbosa com pinturas relacionadas ao Mundial. Por lá, ninguém fala sobre outra coisa.

A uma semana da abertura da Copa, as ruas decoradas ainda são exceções na capital. Por frustrações com governantes ou por temer protestos violentos, muitos têm optado por não manifestar apoio à seleção, pelo menos, não de forma visível.

Esse é o caso de Claudio Bortolin, de 63 anos, conhecido como "Nenê" na Alameda dos Piratinins. Desde a década de 1970, a mercearia da qual é dono faz parte da organização da decoração que tomava o quarteirão de quatro em quatro anos. O dinheiro vinha da caixinha de fregueses e o dia da pintura era animado. "A molecada fazia muita festa. Na última Copa, tinha duas bandeiras e o mascote desenhado no chão, tava bonito."

Decorações para a Copa são tímidas
Sérgio Castro/Estadão

Mesmo com a proximidade do Mundial, o clima de Copa apareceu em poucas ruas da capital paulista.

Ele mostrou à reportagem o álbum de fotos, no qual guarda as imagens das decorações desde 1978 e contou que a decisão de não pintar a rua esse ano foi tomada em conjunto com funcionários e moradores. "Eu seguiria a tradição, mas fiquei com medo de que as pessoas soubessem da pintura e o mercado sofresse algum tipo de represália", explicou. No entanto, sem resistir ao espírito da Copa, Nenê pendurou a bandeira do Brasil que era do pai na entrada da mercearia e já posicionou a televisão para ele e os funcionários assistirem aos jogos. "Acho que o pessoal está revoltado com os gastos e sou a favor de manifestações, mas não contra a Copa. Foi decidido há muito tempo que seria aqui. Nós estamos na torcida."

A falta de pintura constatada nas ruas também foi sentida pelo mercado de tintas. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Tintas e Vernizes do Estado de São Paulo (Sitivesp), Narciso Preto, as vendas de galões destinados a pinturas de ruas na Copa estão bem abaixo dos outros anos. "Um dos associados produziu cerca de 2 mil galões de kits verde e amarelo e azul e branco, para ver como estava esse mercado, mas quase não houve vendas". Segundo ele, essa semana o sindicato fará uma campanha dentro do setor para tentar incentivar e resgatar a tradição.

ENTUSIASMO

Por outro lado, é impossível passar na Rua Capitão Siqueira Barbosa, na zona norte, e não se impressionar com a dedicação dos moradores na decoração. Eles mantiveram a tradição das últimas cinco Copas e coloriram todo o chão da rua formando um verdadeiro tapete de desenhos que incluem Neymar, Felipão, taça e bandeiras. Faltam pouquíssimos retoques e, até sábado, eles devem completar o "túnel" de bandeirinhas.

Nascido no bairro e criado na rua, o autônomo Alvaro Diniz, de 50 anos, ajuda a organizar a pintura há anos e conta que para esta Copa, os moradores tiveram até patrocínio. "Faríamos a pintura de qualquer maneira como sempre fizemos, mas este ano fomos procurados pelo Google que nos deu 15 latas de tinta, rolos e bisnagas. Foram oito dias de pintura com a participação de todos os vizinhos", disse Diniz. Sobre protestos, ele disse que a população tem de fazer reivindicações, mas que é nas eleições que se faz a diferença. "Temos é que votar certo. Aqui na rua estamos na torcida pelo futebol do Brasil na Copa".

Para a psicóloga Marcia Almeida Batista, Diretora da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP, é preciso ter cuidado com os valores atribuídos a quem apoia ou não a Copa. "Torcer não significa que a pessoa está a favor da corrupção, por exemplo. São questões de ordens diversas e é reducionista falar que estamos em uma situação bipolar."