1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Copa do Mundo

Copa quase de graça para estrangeiros no Rio de Janeiro

Turistas, em especial sul-americanos, descobrem restaurante popular e aproveitam para economizar durante o Mundial realizado no Brasil

Thaise Constancio

08 Julho 2014 | 05h 00

A grana é curta e os preços, altos. Mas a vontade de viajar, de conhecer o Rio e de acompanhar a seleção na Copa do Mundo é muito maior. Com hospedagem grátis no Terreirão do Samba, no centro, latino-americanos agora encontraram no Restaurante Popular Betinho, na Central do Brasil, um local bom e barato para as refeições.

Lá, o café da manhã custa R$ 0,35 e é servido das 6h às 9h. O almoço sai por R$ 1 e é servido entre 10h e 15h. Na segunda-feira, o cardápio incluía linguiça de frango cozida, carne moída, espaguete ao alho e óleo, salada de acelga e cenoura, além do tradicional arroz com feijão preto.

Para acompanhar, suco de goiaba e laranja de sobremesa. O local é frequentado por trabalhadores dos arredores e moradores de rua.

Com apenas 1 ano, o pequeno Luca faz sua primeira viagem internacional com os pais. A família saiu de Buenos Aires e está no Rio há cinco dias, depois de viajar de carona. Aqui, dormiram em uma barraca em Copacabana e acordavam às 5h para desmontar o abrigo e não terem problemas com a Guarda Municipal. No sábado, mudaram-se para o Terreirão, onde receberam a dica do restaurante popular.

Marcos Arcoverde/Estadão

"A comida é muito boa e econômica", disse Joaquim González, de 27 anos, acrescentando que gastava R$ 5 por refeição na praia. "Aqui não tem nada frito, o que é bom para o Luca porque ele pode comer de tudo", avaliou a mãe, Rossio Climarey, de 30, que ficou feliz ao saber que os pratos eram preparados por nutricionistas.

A simpatia dos brasileiros chamou a atenção do casal. "Todos são muito hospitaleiros e, quando veem que estamos com o bebê, nos tratam melhor ainda", afirmou Rossio, pouco depois de ganhar duas laranjas de dois homens que estavam sentados perto da família.

FARTURA

Também argentino, Carlos Maroa, de 53 anos, já passou por alguns "perrengues" com hospedagem - ele dormiu por dez dias na rodoviária e está há duas semanas no Terreirão. Agora, acha as refeições no restaurante Betinho um luxo. "A comida aqui é tão boa quanto outras pelas quais pagamos R$ 10, R$ 12." Ele contou que a primeira refeição do dia é farta: pão, café com leite e fruta. Por isso, a presença dele pela manhã é certa.

Há uma semana, os amigos Carol Cubilla e Stevaro Moreno, ambos de 23 anos, têm feito o máximo possível de refeições no restaurante popular. O jantar, eles dizem, "depende do dinheiro". Apesar de gostarem da comida, estranharam o fato de estar tudo no mesmo prato. "A comida brasileira vem toda misturada, o que para nós é muito diferente. Mas é gostosa e abundante. Ficamos muito satisfeitos", explicou Carol.

O colombiano Rafael Eduardo Torres, de 25 anos, ficou impressionado com os preços cobrados no País. "Aqui é tudo muito caro. Vocês que moram no Rio são todos ricos, só pode. O que paguei em comida em dois dias desde que cheguei ao Brasil poderia comer por um mês aqui (no restaurante)."

DIVIDIR O PÃO

Acostumados a viajar pela América Latina e conhecer os problemas sociais dos países, os colombianos Jaime Andrés Silva, de 25 anos, e Felipe Pedraza, de 24, estavam satisfeitos "em dividir (a comida) com o povo brasileiro, com moradores de rua que costumam vir aqui". "Há muita comida e muito desperdício na Colômbia e no Brasil. Me parece muito bom que aqui se aproveite a comida que tem demais para alimentar seu povo", analisou Silva.

As refeições do restaurante popular são subsidiadas pelo governo estadual, que paga R$ 1,44 pelo café da manhã (o público gasta R$ 0,35) e R$ 5,49 pelo almoço (o público paga R$ 1). Diariamente, 3,5 mil pessoas almoçam no local e, pelos cálculos da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, ao menos 150 gringos fazem a principal refeição do dia ali.

O secretário João Carlos Mariano frisou que, apesar da surpresa pela procura dos estrangeiros, não houve adaptações no cardápio.

Frequentador do restaurante Betinho, o brasileiro Roberto Gomes, de 63 anos, está gostando da invasão gringa durante a Copa. "Sempre converso com eles. Já até entendo um pouco de espanhol e eles, de português, tanto que até já brinquei com eles sobre futebol."