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Copa 2014

Depois de pagar fiança de R$ 5 mil, suspeito vai continuar a trabalhar na organização da Copa

Jamil Chade, Marcio Dolzan e Tiago Rogero - O Estado de S. Paulo

08 Julho 2014 | 03h 06

Fifa peita a polícia e afirma que envolvimento do funcionário da Match com esquema de venda ilegal de ingressos não foi provado

Atualizada às 13h20

A Fifa peita a polícia do Rio e não vai suspender nem retirar o credenciamento de Ray Whelan, executivo da empresa sócia da Fifa e suspeito de fazer parte de uma quadrilha de cambistas. Ele continua na direção das operações de acomodação do Mundial, mesmo tendo sido acusado de fornecer ingressos para cambistas. Apesar de Whelan ter sido encontrado com 84 ingressos em seu quarto e de ter mantido contato telefônico com cambistas, a Fifa ainda insiste que o suspeito não tinha qualquer relação com entradas e que "não existe nada comprovado".

Whelan, diretor da empresa Match Services e parceira da Fifa, foi solto na madrugada desta terça-feira, mediante pagamento de fiança. Segundo o delegado do Rio que lidera a investigação, Fábio Barucke, ele responderá pelas acusações em liberdade. Ele pagou uma fiança de R$ 5 mil, deixou uma garantia de que não vai fugir e informou que permanecerá em um endereço na Barra da Tijuca, no Rio.

A Match, por meio de uma nota, indicou que Whelan vai continuar a trabalhar na operação da Copa do Mundo. "Ray Whelan, assim como os demais funcionários da Match, vão continuar a trabalhar em nossas áreas operacionais de responsabilidade para entregar uma Copa do Mundo de 2014 no Brasil com sucesso", declarou a empresa. Ainda segundo o comunicado, Whelan vai "ajudar a polícia" nas investigações. "Temos total fé de que os fatos vão estabelecer que ele não violou qualquer lei", disse. A empresa ainda informou que vai dar "apoio total às investigações" e que "Ray será exonerado".

Fabio Motta/Estadão
Whelan foi preso na segunda, mas recebeu habeas corpus na madrugada de terça-feira

A Fifa não recriminou a Match e disse que não poderia intervir na decisão de mantê-lo no Mundial. É a entidade de decide a quem dar credenciais. "Não podemos depender apenas do que é dito na imprensa", afirmou Delia Fischer, porta-voz da Fifa. "Neste momento, não existe confirmação de nada".

"Não podemos tirar conclusões precipitadas. Não é justo. Ele é um empregado da Match e é a empresa que decide se ele continua trabalhando ou não", disse. A Fifa nega também que ele estava usando um telefone da entidade. "É um celular do evento, não da Fifa", disse.

Apesar de o suspeito ter sido encontrado com 84 ingressos em seu quarto, a Fifa preferiu não confirmar a informação. "Ele não está envolvido com ingressos", garantiu Fischer. Segundo ela, Whelan trabalha no setor de acomodação. Questionada sobre como então a polícia encontrou 84 bilhetes com ele, Fischer desconversou. "Não podemos tirar conclusões".

Eram 4h40 da madrugada quando o suspeito deixou o 18.º DP (Praça da Bandeira), na zona norte do Rio. No momento da prisão, Whelan negou que tivesse qualquer tipo de contato com a quadrilha.

O promotor responsável pela operação Jules Rimet, Marcos Kac, da 9ª Promotoria de Investigação Penal, considerou "um absurdo" a soltura do executivo. "O cara que era pra ficar hoje detido agora pode pegar um jatinho para BH para ver o jogo (a semifinal entre Brasil e Alemanha), enquanto ninguém que você conhece conseguiu comprar ingresso", disse o promotor, que atua em conjunto com a polícia na investigação.

Segundo Kac, a soltura de Whelan é um absurdo porque "a pessoa que soltou não conhece o inquérito", disse, referindo-se à desembargadora que proferiu a decisão no plantão judiciário durante a madrugada, Marilia de Castro Vieira. "Temos muitos elementos contra ele e estamos todos muito chateados com essa decisão. Entre outras provas, são mais de 900 registros de ligações e mensagens telefônicas entre ele e o Fofana. Não fizemos a operação ontem de 'orelhada'", afirmou o promotor.

"Essa quadrilha movimentava milhões. Cadê o dinheiro que não aparece? É o que estamos tentando descobrir e agora o principal suspeito está solto". "Ele foi solto no plantão com base em nada".

A Fifa adotou ainda uma postura pública contrária ao que de fato está aplicando. "É de interesse da Fifa que esse tema dos ingressos seja esclarecido. Somos os primeiros que queremos uma investigação e que o assunto seja rapidamente solucionado", declarou Delia Fischer.

O pedido de pressa por parte da Fifa faz parte de uma estratégia para tentar blindar a Copa do Mundo e evitar que a operação da polícia tenha qualquer tipo de impacto no torneio. Nesta segunda, uma reunião de emergência foi realizada entre o presidente da entidade, Joseph Blatter, e a cúpula da entidade. Ao deixar o encontro, Blatter fez um apelo: "vamos falar de futebol".

Nesta terça, a Fifa ainda garantiu que adota uma "posição firme" contra qualquer tipo de abuso no que se refere às vendas de entradas. "Apoiamos qualquer ação contra a venda ilegal de entradas". insistiu a porta-voz. "Vamos continuar a colaborar e dar todos os detalhes para a investigação", afirmou Delia Fischer.

A entidade ainda pediu que a imprensa adote uma postura "profissional" e alerta para os "rumores" que passaram a circular sobre o caso. A empresa Infront ainda emitiu um comunicado para alertar que Whelan não ocupa qualquer cargo no grupo. A Match Hospitality é uma subsidiária da Infront, empresa que tem o sobrinho de Blatter como seu CEO. Mas a Infront insiste que não tem participação na Match Services, empresa que fornece acomodação e ingressos para a Copa e onde Whelan oficialmente trabalharia.

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