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Copa do Mundo

Edimilton Baixinho, goleador do futebol padrão perifa

Parrudo como Benzema e tão frio quanto Müller, Baixinho joga bonito na várzea

Christian Carvalho Cruz

22 Junho 2014 | 05h 00

 Futebol pro Baixinho é um verbo. Gostar. E como gostar não se ensina nem se aprende, ele não sabe dizer como tudo começou. Pode ter sido por falta de brinquedo, ele alega sem muita convicção. De família de lavradores do interior da Bahia, dez irmãos que, pela lei do pai, iam para a roça tão logo aguentassem o peso da enxada (lá pelos sete, oito anos), o pouco que lhe cheirava a infância era chutar coisas. "Rapaz, eu gostava disso aí, de chutar. Chutava pedra, chutava fruta, garrafa PET, osso de animal morto", ele enfileira. Pois, aos 28 anos, o Baixinho continua gostando. Demais. E, essa sim, uma certeza que tem, é o bendito do verbo que faz dele um dos reis do futebol de várzea de São Paulo nesses tempos de Messi, Balotelli, Cristiano Ronaldo, Van Persie, Suárez, todos por ora reunidos em território nacional.

Sim, apesar de as construtoras e os especuladores imobiliários jogarem contra, a cada dia tomando mais terrenos da diversão, a bola teima em rolar nas quebradas e arredores. Inclusive em sábado, domingo e feriado de Copa, porque, como se ouve em qualquer churrasquinho ou pão com mortadela pós-jogo, #semprevaitervárzeamano. Mas a várzea mudou. Ou, como dizem, "evoluiu". O amadorismo puro, que prescindia de dinheiro e esbanjava coração, deu lugar a certo profissionalismo padrão perifa. Os times têm patrocinadores (na melhor das hipóteses, a padaria ou o cabeleireiro do bairro), disputam campeonatos com calendário organizado e, o principal, os jogadores são pagos. Nesse cenário, o Baixinho desponta - ok, ele vai odiar a comparação - como um Cristiano Ronaldo do terrão. Menos pelo cabelo coxinha, que ele nem tem, e mais por dificilmente falhar no que esperam dele: fazer um saco de gols.

Atacante parrudo como um Benzema, tão frio quanto um Müller e sorridente com mais dentes que um Robben, o Baixinho hoje é figurinha disputada e tietada. Com 14 gols em 2009 e 16 em 2013, foi artilheiro em duas das seis temporadas que disputou da Copa Kaiser, o torneio mais famoso da várzea, que este ano foi realizado pela última vez com este nome. Atualmente, o Baixinho defende seis esquadrões diferentes: Danúbio da Freguesia do Ó, Nacional de São Bernardo do Campo, Real de Santo André, Piauí de Osasco, Força Sindical e Currião de Paraisópolis. "O Baixinho é bão porque com ele é bobeou, guardo"”, resume o Seu Juca, ex-meia, presidente do conselho, técnico e dono do boteco onde funciona a sede do Danúbio, na zona norte da cidade.

Robson Fernandjes/Estadão

Uma explicação mais precisa tem o Neguinho do Ceasa, cartola-mór, treinador e chofer do Fiat Doblò que leva 15 jogadores do Piauí, juntos, para jogar por aí. Diz ele que "o Baixinho é embaçado demais", encerrando num adjetivo e num advérbio as duas qualidades fundamentais do bom varzeano: humildade e fome de gol. Necessariamente nesta ordem, porque na várzea não se bate no peito gritando “eu sou f*d@!” depois de marcar um golaço (coraçõezinhos com as mãos já são permitidos); não se entra em campo com a gola da camisa levantada; não se manda a torcida adversária fazer silêncio; e principalmente não se mostra a cueca ao término da partida. Na cabeça do Baixinho, isso tudo são outros verbos - aparecer, exagerar, desrespeitar - que não combinam com gostar e, portanto, ele não conjuga.

O Baixinho nasceu Edimilton Macedo dos Santos em Morpará, no Vale do São Francisco. Tem 1,75 m, "uns 75, 78 quilos, depende do que eu como na semana", e uma explicação realística sobre o seu apelido: "Nordestino, sabe como é. A gente é tudo criança pequena, fraquinha. As pessoas acham que não vai crescer e chamam logo de baixinho". Dos seis times pelos quais ele joga, só não recebe do Currião, que é da comunidade onde mora, a favela de Paraisópolis, na zona sul. Mas espera um pouco que esse negócio de receber no futebol de várzea é meio complicado. Primeiro, ninguém fala de valores abertamente. Os pagamentos são feitos em dinheiro, em envelopes entregues em mãos depois de cada partida. E, para evitar ciumeira, a lei da várzea proíbe que eles sejam abertos na frente dos colegas. Diz que um goleador do gabarito de um Baixinho pode ganhar até R$ 300 por partida."“Ôxi, se fosse isso tava bom, hein!", ele se mostra surpreso. O Neguinho do Ceasa admite e tem orgulho: paga o Baixinho todo sábado, religiosamente. "Às vezes damos uma chuteira, uma calça jeans, acertamos uma conta de celular atrasada dele..."

E existe ainda um tal de "assinar pra jogar" quando o jogador é convidado a atuar por um time novo. Assinar é força de expressão, pois não há contrato nem firma reconhecida. "É só na palavra. Um cara me chama pra jogar pra ele, eu aceito e dou o número da minha conta. Se até sexta o dinheiro entra no banco, no sábado eu entro em campo", explica o Baixinho, com sua impressionante habilidade de trocar tudo em miúdos. As equipes mais cacifadas chegam a oferecer R$ 5 mil para um jogador "assinar pra jogar", ou seja, ingressar no plantel - fora os pagamentos por partida. Mas a maioria gosta de dizer que trouxe esse ou aquele craque na base da amizade e da simpatia. Valoriza o time. O "assinar pra jogar" existe, e o importante é que quase nunca falha. Seu sadio funcionamento fica garantido pelos invisíveis códigos da várzea, um Bom Senso Futebol da Quebrada, que poucos ousam desafiar. É assim: dirigente tratante é dirigente a ser evitado e time caloteiro é time extinto - cabendo um vice-versa em casos extremos.

O Baixinho tentou só uma vez sair da várzea. Um empresário o levou para fazer um teste no Sãocarlense, do interior paulista. "O cabra só me despejou lá. Fiquei sem comida, abrigo e dinheiro pra voltar. Aprendi a lição. Na várzea é tudo mais certinho, mesmo que não dê pra viver só dela", ele diz. Então, depois de ser atendente em casa de esfiha e polidor de pisos, este ano o Baixinho começou a dar expediente como segurança num centro empresarial em São Paulo. Trabalha de madrugada, das sete da noite às sete da manhã. E ainda assim encara quatro jogos na várzea por fim de semana: dois no sábado e dois no domingo. Juntando o salário da carteira assinada de um lado e os bichos da várzea de outro, ele acaba de comprar um apartamento da CDHU e está feliz por dar, pela primeira vez, um quarto para a filha Maria Antônia, de três anos. Também foi aprovado no vestibular de fisioterapia e, com o futebol sempre na prancheta, já imaginou o esquema tático da vida daqui pra diante. "Vou entrar pro time da faculdade e ganhar uma bolsa de estudo. Aí, com o que pagaria de mensalidade faço um curso de inglês." O troféu do Baixinho será montar um negócio próprio, ter sustento fora dos campos, porque nesse quesito futebol de várzea e de arena se equivalem: carreira de boleiro acaba. Às vezes de forma dramática e melancólica.

Por causa do trabalho, que o obriga a dormir de dia, a Copa do Mundo o Baixinho tem acompanhado pelo rádio, indo e vindo do serviço. Diz que ri sozinho quando ouve certas palavras que rondam o cotidiano das seleções. Comparando com a várzea, ele dá a real:

Entrosamento.

"Geralmente, um salve dentro da van que leva a gente pro jogo".

Preparação física.

"Um prato grande de arroz com feijão no almoço e um de macarrão na janta. Se tiver mistura, aí sim, hein?!"

Reconhecimento do gramado.

"Tento decorar onde ficam os buracos na terra e evito jogar muito por aquela parte do campo".

Calor, umidade.

"É só tomar um banho depois, né?"

Lesão.

"A gente põe água da torneira mesmo. E resolve, num sabe?!"

Desconforto muscular.

"Esse eu tenho. No domingo à noite, depois do quarto jogo, só não sinto câimbra na orelha. Então tomo um relaxante pra conseguir levantar da cama na segunda-feira".

Assédio dos fãs.

"Tipo maria-chuteira? Na várzea tem, mas é diferente. Como ninguém ali é rico ou dono de carrão, as minas vão porque gostam da aparência ou do futebol do jogador".

Pressão de jogar em casa.

"Tem namorada que pede pra você escolher ela ou a bola. Eu já aviso logo no começo do relacionamento que comigo a bola sempre ganha. E tem outra coisa: quem ama de verdade não pede pro outro fazer uma escolha difícil dessas, você não acha?"

Eis aí o Baixinho, um doutor da grande área enlameada. Desde que a Copa começou, temporada de férias, ele tinha disputado somente três jogos até a última sexta-feira. Marcou 5 gols no primeiro, 2 no segundo, 1 no terceiro. Média de 2,6 por partida. "Não falei pra você? O segredo é gostar, tem outro não."