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Pelé por um fio

O Estado de S. Paulo

10 Junho 2014 | 20h 37

'Botinada' de lateral do Corinthians quase impede menino de 17 anos de virar Rei na Suécia

SÃO PAULO - Um pontapé em um jogo que nada valia quase impede Pelé de disputar a Copa de 1958. A história do futebol teria sido completamente diferente, e evidentemente mais pobre. Aconteceu no dia 21 de maio, às vésperas do sexto Mundial. A seleção brasileira fazia um jogo-treino contra o Corinthians antes de embarcar rumo à Suécia, sede da competição.

Aos 17 anos, Pelé era um menino franzino. Do outro lado, um lateral-esquerdo também novato, de 19 anos, porém com um corpanzil de 1,80 m por 83 kg: Ari Clemente. Os dois se encontraram em campo e o craque prodígio saiu em seguida manquitolando, com o joelho direito lesionado.

A edição do Estadão da manhã seguinte não trata do lance. Anota apenas que o defensor corintiano cometeu pênalti em Garrincha e que bobeou em um dos gols de Pepe. Não seria por tais falhas, no entanto, que Ari ficaria estigmatizado.

Pelé surgia como principal promessa do futebol brasileiro. Em 1957, foi artilheiro em seu primeiro Campeonato Paulista com 17 gols. Em 7 de julho do mesmo ano estreou pela seleção brasileira já balançando a rede ante a arquirrival Argentina.

"Após boa manobra de Luizinho e Tite, Pelé atirou frente a frente com Carrizo, que nada pôde fazer." Assim O Estado de S. Paulo detalhou o tento histórico, em 9 de julho de 1957. O Brasil perdeu naquele dia, no Maracanã. Mas após três dias venceu a revanche no Pacaembu e ficou com o título do torneio.Pelé era campeão pela primeira vez com o escrete nacional e tornava-se nome certo para a Copa.

Mas e se, por causa do Ari, tivesse ficado de fora em 1958? O Brasil teria vencido? Bem, a seleção foi deslanchar no torneio somente depois que Pelé e Garrincha saíram do banco de reservas, a partir do terceiro duelo, na vitória por 2 a 0 ante a União Soviética. Sabe-se lá se teria ido tão longe caso o técnico Vicente Feola tivesse um menino combalido no banco.

Felizmente a contusão sofrida contra o Corinthians não foi grave. Pelé se recuperou a tempo de iniciar naquela Copa sua conhecida trajetória como melhor futebolista de todos os tempos. E com o agressor, o que aconteceu?

Um dia depois do aniversário de 70 anos de Edson Arantes do Nascimento, em 24 de outubro de 2010, o Estado tratou de responder traçando o perfil de quem por pouco fez do Rei Pelé um mero "plebeu". A reportagem descreve de forma genial como era e como vivia Ari Clemente, à época com 71 anos.

Sergio Neves/AE
Ari Clemente lembra de seus tempos de Corinthians

Ari jogou no Corinthians e no Bangu nos anos 60/70. Não era lateral de ir ao ataque, como os de hoje em dia. "Eu era marcador de ponta-direita", diz na entrevista concedida ao jornalista Christian Carvalho Cruz."Tinha uma missão simples e única: impedir a passagem do atacante adversário." A reportagem relata que em nada Ari se parece "com o Cão que a lenda pintou".

"Não houve maldade no lance com o Pelé", justifica Ari. "Estava garoando. A seleção atacava para o gol da concha acústica e o Pepe bateu uma falta para dentro da área. A bola não pingou, porque a grama estava molhada.Ela bateu no chão e deslizou. Eu fui de sola para afastar a bola dali, da entrada da área perto da meia-lua.Então o Pelé surgiu chutando. Mas em vez de acertar a bola acertou o meu pé esquerdo. Eu não quis machucar. O juiz nem falta deu."

No dia 14 de setembro daquele ano houve o reencontro dos dois jogadores em um novo Santos x Corinthians. Pelé era outro. No lugar do garoto-promessa estava um campeão mundial que marcara seis gols na Copa. Disse a Ari que estava tudo bem, que não pensasse mais naquilo. Eram águas passadas.

Naquele dia o Santos venceu por 1 a 0, gol dele.Se o perdão foi realmente sincero ninguém sabe. Fato é que depois daquela pancada Pelé passou 11 anos sem perder para o clube de Ari.