Tatu-bola custa menos que mascote de pelúcia vendido pela Fifa

Animal em extinção é vendido por caçadores por R$ 50; segundo ONG Associação Caatinga, população não associa Fuleco à espécie

Lyvia Rocha e Paulo Favero - enviados especiais a Fortaleza, O Estado de S. Paulo

15 Junho 2014 | 05h00

O esforço da ONG Associação Caatinga para transformar o tatu-bola em mascote da Copa não mudou nada a realidade do pequeno animal, que está em risco de extinção e é vendido por caçadores por R$ 50, mais barato que os produtos oficiais de pelúcia da Fifa.

O biólogo Rodrigo Castro lamenta ainda que a entidade explore comercialmente a imagem de uma espécie ameaçada, mas não dê nada em troca, sequer uma mensagem de preservação ambiental ou educativa. "Se é a Copa mais lucrativa da história, porque não pensar em um retorno para a espécie?"

O coordenador geral da Associação Caatinga explica que, quando tiveram a ideia de sugerir o tatu-bola para mascote do Mundial, era para dar mais visibilidade à caatinga e salvar uma espécie ameaçada. Ele lembra que, na época, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, falou que tinha consciência de que era uma espécie ameaçada e o futebol poderia ajudar. "Mas não mudou em nada a realidade. No interior, na caatinga, as pessoas nem sabem qual é a mascote da Copa e, se sabem, não relacionam ao tatu-bola. Não há qualquer mensagem ambiental", reclama.

Ele frisa que não está atrás de dinheiro para o projeto de preservação de sua entidade, mas se mostra bastante desiludido com a situação. "A gente fez propostas para a Fifa, só que nenhuma foi aceita. Essa oportunidade de usá-lo como embaixador da causa ambiental não aconteceu. Não falo que precisa ajudar nosso projeto de preservação. Peço para apoiar ações de conservação. Infelizmente, o Fuleco poderia ser um mensageiro de questões ambientais, mas não foi", continua.

O biólogo lembra que houve várias conversas com a gerência de responsabilidade social da Fifa – o objetivo inicial era tirar o animal da lista de espécies em risco de extinção em dez anos. Para isso, ele estima que seriam necessários entre R$ 20 milhões e R$ 50 milhões. "Até procuramos os patrocinadores da Copa do Mundo, que pagam US$ 90 milhões apenas para vincular a marca ao evento. Conseguimos apenas uma doação de R$ 100 mil da Continental."

AO NATURAL

Com o tamanho de uma bola de futsal e pesando entre 1 kg e 1,3 kg, o tatu-bola é fácil de ser capturado, pois quando sente uma ameaça, se enrola. Isso faz com que caçadores consigam colocá-los em sacos para futura venda. "Em dez anos, houve uma redução de 30% da população. A caatinga está 50% degradada. E detectamos que não se caça mais por fome. Faz-se isso porque é cultural, recreativo ou comercial. Do jeito que está, o tatu-bola não vai sobreviver mais 50 anos", denuncia.

Quase não existem espécies em cativeiro, pois sobraram tão poucas que mesmo um caçador habilidoso tem dificuldade de achar os animais na natureza. "Capturar é difícil porque são muito raros", diz. Ele conta que a próxima lista que será enviada para a União Internacional pela Conservação da Natureza já foi fechada e o tatu-bola vai passar de espécie "vulnerável" para "em perigo", ou seja, está mais perto ainda da extinção.

Nas lojas da Fifa, a mascote é sucesso de vendas. O modelo de plástico, de 22cm, custa R$ 59,90 no site oficial da Fifa, enquanto o de pelúcia, de 30cm, é vendido por R$ 79,90. Ao contrário do bichinho real, os bonecos de pelúcia não se enrolam – talvez por isso a vinculação ao animal seja mais complicada.

Esperançoso, Rodrigo ainda sonha com futuro melhor para o tatu-bola, para que não desapareça e se transforme em uma mascote obsoleta. "Protegendo o tatu-bola, você está protegendo todo o ecossistema. A Fifa usou o argumento de utilizar um animal ameaçado como mascote, mas não deu nada em troca. Isso não é ético", lamenta.

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