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Coração de ouro

Daniele De Rossi, um barba ruiva da Roma, costuma ser o terror dos adversários. Não alisa nas divididas, faz careta pra assustar incautos, deixa marca das chuteiras em pernas mais abusadas. Tem razoável coleção de cartões vermelhos, alguns conquistados em clássicos com a Lazio.

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Antero Greco

18 Março 2016 | 03h00

Houve episódios em que ficou transtornado porque a equipe perdia para a rival eterna da Cidade idem. Teve vez em que ficou fora da refrega, pois o técnico de plantão considerou prudente resguardá-lo; o moço é romanista fanático.

De Rossi compõe o personagem clássico do vilão do meio de campo, uma espécie de Chicão italiano. A turma veterana vai lembrar de Francisco Jesuíno Avanzi, tipo rude que marcou época em diversos clubes, sobretudo no São Paulo dos anos 1970. No Mundial de 1978, fez parte da tropa brasileira que foi para a Argentina. Era reserva do jovem Toninho Cerezo.

Chicão saiu do banco uma vez apenas, quando o capitão Cláudio Coutinho o escalou para o jogo que a seleção faria com os donos da casa, em Rosario. Na primeira dividida, com alguns segundos de bola a rolar, Chicão enquadrou os anfitriões, que ensaiavam impor-se na base da ignorância: lascou uma botinada em Mario Kempes, que murchou no restante do duelo.

Coragem não falta a De Rossi, 33 anos a completar em julho. Talento também. Não é por acaso que há década e meia tem lugar fixo na Roma e se tornou figura carimbada na Squadra Azzurra. Treinadores do time e da seleção da Itália confiam na garra, na visão de jogo, no chute forte desse romano da gema e ogro dos gramados.

Agora se sabe que De Rossi tem coração de ouro e desprendimento pouco comum. No começo da semana, foi para Florença acompanhar o funeral de Pietro Lombardi, durante décadas roupeiro da Azzurra. “Spazzolino” (ou Escovinha) morreu aos 92 anos e era querido pelos jogadores pela forma carinhosa como cuidava do material e pelo capricho ao lustrar-lhes as chuteiras.

De Rossi chegou nas Cappelle del Comiato – um dos velórios florentinos –, se emocionou ao ver Lombardi e lhe prestou homenagem muito peculiar: tirou do bolso a medalha de ouro conquistada na Copa da Alemanha, em 2006, e a depositou no caixão. Um presente póstumo para um dos heróis da Azzurra na campanha na Alemanha.

O reconhecimento do valor desses seres anônimos, quase invisíveis, que passam pelas nossas vidas sem nos darmos conta de como são importantes. De Rossi mostrou que Lombardi era tão imprescindível para a seleção quanto o técnico, os médicos, os preparadores físicos, os cozinheiros.

De Rossi tirou ali a máscara de homem mau, num gesto de simpatia simples e imenso. De desapego. De humildade. Num momento em que vivemos tensão enorme, em que se expande o ódio e se clama por sangue e justiçamentos, arrepia ver um movimento de carinho. A medalha de ouro no caixão do Escovinha renova a esperança na humanidade. Não entro no bloco dos que acham que o Homem não deu certo. Há muita coisa boa a nossa volta; basta abrir os olhos.

A saída de Marcelo. Critiquei a demissão de Marcelo Oliveira, por considerá-la incoerente com a modernidade que o Palmeiras mostra em várias iniciativas. Estranhei a revelação de Alexandre Mattos de que a troca estava planejada desde dezembro.

As observações mereceram um esclarecimento ponderado de Mattos. Num contato cordial, o dirigente esclareceu que a saída de Marcelo era um dos cenários imaginados no final de 2015. “Na época, estávamos felizes com o título da Copa do Brasil, mas conscientes de que não jogávamos bem. Em vez de tirar o técnico, trocamos jogadores e esperamos os resultados. Ao mesmo tempo, simulamos diversos panoramas. Um deles era o da falta de evolução da equipe. E, como infelizmente, esse prevaleceu, só então optamos pela demissão. Não foi intempestivo.”

Assim faz sentido.

De Rossi colocou a medalha de campeão do mundo de 2006 no caixão do roupeiro da Azzurra.

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