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CPI do Futebol suspeita de desvio de verba da Fifa

COL depositou US$ 23,7 milhões em uma conta nos Estados Unidos

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Isabela Bonfim / BRASÍLIA e Jamil Chade / GENEBRA

26 Março 2016 | 07h00

Atualizada às 13h30

O Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2014 (COL) transferiu dinheiro para um paraíso fiscal e fez pagamentos milionários nos EUA em contas não identificadas. Os dados obtidos com exclusividade pelo Estado  ainda revelam, segundo os membros da CPI do Futebol no Senado, uma disparidade entre as contas declaradas pelo COL  e os valores obtidos depois da quebra de sigilo bancário.

Os parlamentares suspeitam de desvio de recursos e vão convocar o presidente licenciado da CBF, Marco Polo Del Nero, uma vez mais para depôr em Brasília. 

Além disso, a CPI vai acionar a Fifa, enviando na segunda-feira, 28, um dossiê para que o fato seja apurado pela auditoria da entidade máxima do futebol. A suspeita é de que pessoas ligadas à Fifa também estejam envolvidas, já que o desvio de milhões de dólares dificilmente poderia ocorrer sem o conhecimento de cartolas em Zurique.

O COL foi criado com a função de organizar o Mundial e teve como seu presidente Ricardo Teixeira e José Maria Marin. Numa última fase a partir de abril de 2015, ela foi liderada por Marco Polo Del Nero. 

O que chama a atenção da CPI é que a diferença na contabilidade é exatamente o valor depositado em contas nos EUA. Os repasses do COL para contas no exterior equivalem à quantia que foi emprestada pela Fifa e não divulgada no balanço patrimonial que o comitê brasileiro apresentou à CPI.

Ao Estado, a assessoria de imprensa da entidade máxima do futebol em Zurique explicou que o " COL foi financiado por empréstimos feitos pela Fifa " e que " todos foram quitados pelo COL em linha com as estruturas contratuais estabelecidas ". 

A Fifa também sai em defesa do Comitê Organizador Local e diz que as " transações financeiras foram feitas sob um sistema de governança estabelecido que exige que pagamentos sejam feitos para contratos de fornecedores com base em acordos adequadamente executados ". 

A entidade, por fim, também afirma estar "  comprometida em ajudar os reguladores em suas investigações por meio de canais oficiais ". 

Ao Estado, membros do alto escalão da auditoria da Fifa indicaram que estão dispostos a investigar o caso. Os auditores querem examinar os documentos para tentar entender qual seria o motivo do pagamento. 

 

Desde o ano passado, a Fifa já bloqueou todo repasse de dinheiro para a CBF, alegando que não existe garantias sobre como o dinheiro é utilizado. Em Zurique, não há previsão de quando os recursos voltariam a ser transferidos para a entidade no Rio de Janeiro.

ENTENDA AS TRANSFERÊNCIAS

Entre 2012 e 2015, a Fifa na Suíça transferiu ao COL um total de R$ 1 bilhão para gastos com a Copa do Mundo. Ainda segundo o material preparado pela CPI a partir de dados do Banco Central, o COL recebeu entre 2009 e 2012 cerca de US$ 66,7 milhões da Fifa à título de empréstimo. Ou seja, valor que deveria ser devolvido à entidade internacional.

O Comitê começou a devolver o empréstimo em 2013, mas US$ 23,7 milhões foram destinados pelo COL, em quatro depósitos, para uma conta do Itaú nos EUA no dia 6 de fevereiro de 2013, e não na Suíça como todos os demais. No registro do Banco Central, os depósitos apenas aparecem como " empréstimos direto ". 

O principal objetivo de investigação da CPI, no momento, é saber quem é o beneficiário desta conta nos EUA. A CPI fez um requerimento exigindo os dados bancários da conta ao Banco Itaú na última quarta-feira, 23, e concedeu prazo de cinco dias úteis para que o banco envie as informações.

DIVERGÊNCIAS NAS CONTAS

As disparidades também foram encontradas em outros itens. O Balanço Patrimonial do COL oferecido pelo órgão no âmbito da CPI do Futebol demonstra que a FIFA repassou R$ 55 milhões para o comitê em 2012. Já a quebra de sigilo bancário do COL demonstra que, em 2012, a FIFA fez três transações para o comitê totalizando R$ 105 milhões. 

Há, portanto, uma diferença de R$ 50 milhões entre o que aponta o Balanço Patrimonial oferecido pelo COL e o que demonstra a quebra de sigilo informada pelo Banco Central. 

O que impressiona os membros da CPI é que o mesmo documento do Banco Central informa que estes R$ 50 milhões equivaleriam a US$ 24, 104 milhões naquele momento. O valor, segundo a CPI, é muito próximo dos US$ 23,750 milhões que faltaram em pagamento à FIFA e que foram transferidos para conta desconhecida nos EUA.

Outros R$ 51 mil ainda foram transferidos para uma conta nas ilhas Canárias, considerado um paraíso fiscal, entre 2013 e 2014, sem informar o beneficiário para o qual seria depositado.

Em outra apuração, a CPI descobriu emails de Del Nero para um de seus filhos indicando, em 2007, uma conta no HSBC de Miami. O cartola sugere falar com a gerente Margarida Coutinho sobre o saldo da conta e opções para abrir um negócio.

As informações foram encontrados em um notebook de Del Nero, com 27,5 mil emails registrados. A Justiça havia confiscado o material em 2012, durante a Operação Durkheim. Agora, esses dados chegaram até a CPI do Futebol. 

Os senadores, agora, avaliam apontar para falsidade de testemunho por parte de Del Nero. Em dezembro, ele garantiu em depoimento na CPI que não possuía contas no exterior. 

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Jamil Chade, correspondente em Genebra

26 Março 2016 | 07h00

O COL garante que suas contas estão dentro da lei, nega que tenha contas nos EUA e insiste que os dados divulgados pela CPI do Futebol são “falsos”. 

“Inicialmente é importante esclarecer que o COL é uma empresa privada e que jamais recebeu qualquer verba pública”, indicou a entidade, em um comunicado. “Seus balanços e demonstrações financeiras foram devidamente auditados por empresas especializadas de alto renome”, diz o COL em nota. 

Sobre os valores pagos pelo COL para a Fifa, a explicação é que eles “decorreram do pagamento de empréstimos feitos pela Fifa ao COL, todos para viabilizar o início da operação deste, sendo certo que já foram integralmente quitados”.

Sobre as transferências ao exterior, o COL diz que jamais teve conta no Itaú nos EUA: “O COL esclarece, ainda, que é absolutamente falsa a informação de que mantinha conta corrente no Banco Itaú nos Estados Unidos, o que já foi, inclusive, atestado pelo próprio banco nesta data. O COL jamais manteve qualquer conta bancária no exterior”. O COL ainda chama de “especulação” o pagamento para conta nas Ilhas Canárias. De qualquer forma, “a relação de todos estes pagamentos será devidamente apresentada para a CPI”, garantiu. 

 

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