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Esportes

Ugo Giorgetti

De nomes e apelidos

Não sei se é a informalidade do Carnaval, mas alguma coisa me fez recordar apelidos. Sim, nomes que, adotados, se tornam mais importantes do que o próprio nome oficial da pessoa. Eram muito comuns no Brasil de alguns anos atrás, mais ameno, mais carinhoso, em que cada família elegia algum membro para denominá-lo de forma especial. Era um tal de Dudu, Beto, Guga, Lili, Bel...

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Ugo Giorgetti

07 Fevereiro 2016 | 09h15

No futebol eram evidentemente muito numerosos, com uma diferença que os distinguiam dos inofensivos apelidos familiares: eram muito mais irreverentes e sarcásticos. Não se limitavam a simples abreviações dos nomes. Eram criação das ruas, da várzea e das esquinas, impiedosas na arte do apelido. O profissionalismo pôde muito pouco contra isso.

Alguém poderia aceitar com naturalidade, nos dias de hoje, um goleiro da seleção brasileira chamado Cabeção? Pois Cabeção estava lá, na seleção brasileira de 1954, disputando a Copa do Mundo na Suíça. Para completar teve um companheiro, também goleiro, também notável, chamado Veludo.

O futebol, como sempre, representava o tempo. Nessa sociedade mais informal, o futebol ainda um pouco amador, pertencia a quem sempre esteve na parte de baixo dessa sociedade. E os jogadores eram livres para exibir orgulhosamente seus apelidos e ir em frente com suas carreiras: Turcão, Pé de Valsa, Pagão, Canhoteiro, Biguá, Fio, Mão de Onça, Tostão, Manga, Formiga, Pitico, Chinesinho, Biro-Biro, Picolé, Alfinete, cito de cabeça e fora de ordem. A seleção brasileira que já havia abrigado Cabeção e Veludo, em 1958 , quando ganhou a primeira Copa, não deixou por menos. Lá estavam Didi, Vavá, Pelé e Garrincha. As coisas foram mudando, mas fomos nos arrastando com um Zico aqui, um Kaká ali, fazendo as honras da casa. Até que chegamos a hoje.

Nestas eliminatórias da Copa de 2018 que estão sendo jogadas, o Brasil, no papel, é completamente diferente. Nada de apelidos, nada de lembranças de um país abolido. Somos europeus. A escalação do Brasil num desses últimos jogos faz mais lembrar uma página da história dos reis de França do que um time de futebol daquele país que encantava todos com seus malabarismos inesperados e divertidos. Estamos agora cheios de Felipes e Luizes, até Augustos, mas bola que é bom ficamos devendo. No banco, aliás, como inesperada ironia do destino, está o que resta do velho Brasil dos apelidos: Dunga.

Os jovens jogadores brasileiros, observando o sucesso de seus semelhantes em campos da Europa, e agora Ásia, procuram desesperadamente se aproximar deles em tudo, inclusive nos nomes. Um caso curioso aconteceu na ultima Copinha. O Corinthians, dentro de suas tradições, revelou, entre outros, um garoto parece que de grande futuro. Seu apelido é Jabá, de som doce e evocativo como os velhos craques de outros tempos, inventado certamente nas ruas por moleques cheios de criatividade. Um pouco deslocado, concordo, para os dias de hoje, mas de qualquer maneira agradável.

Não sei se o garoto estava feliz com esse apelido. Talvez lhe conviesse, ou mesmo lhe fosse indiferente, quando era um desconhecido, mas as coisas agora mudaram na sua vida. Há quem o tenha visto, numa entrevista, tentando corrigir o nome e evitá-lo, antes que a fama o tornasse irremediável. Alguém teve uma ideia salvadora: antecipou-se o apelido, que já caiu nas graças da torcida, pelo nome real do jogador. Ele deve ser chamado agora Léo Jabá. Há esperanças de que com o tempo o Jabá vá caindo no esquecimento e que, quando esse garoto sair do Brasil para seu futuro destino na Espanha, ou provavelmente China, seja apenas conhecido como Leo, mais conveniente. Como os garotos desde cedo pensam no momento de sair do Brasil, tenho de admitir que Leo, pelo menos em inglês, é bastante apropriado. Eu, homem de um outro país que se perdeu, prefiro Jabá.

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