Marcos Mendes/Estadão - 05/05/1999
Marcos Mendes/Estadão - 05/05/1999

Daniel Batista, Diego Salgado, Glauco de Pierri, Gustavo Zucchi, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2014 | 06h00

Se na maioria dos clubes a camisa 10 é o símbolo do craque do time, no Palmeiras essa responsabilidade é dividida com a 1 – ou com a 12. O Alviverde sempre teve grandes goleiros que marcaram época e uma tradição inegável de revelar jogadores excepcionais para defender o gol palmeirense (contrastando com a raridade em jovens talentos em outras posições).

"O Palmeiras teve quatro dinastias de goleiros excepcionais: na década de 1940 com Oberdan Cattani, na primeira academia com Valdir Joaquim de Moraes, comigo nos anos 70 e com o Marcos", diz Emerson Leão, que honrou a tradição da camisa 1 de 1968 a 1978 e depois voltou em 1984 e 1986.

Como afirmou Leão, a tradição de goleiros do Palmeiras começou ainda na época de Palestra Itália. Oberdan, famoso por suas mãos enormes, foi talvez o principal ídolo Alviverde nos anos 40, justamente na transição para o novo nome motivada pela 2.ª Guerra Mundial.

Mas, se existe um responsável pela continuidade da escola de goleiros no Palmeiras, é Valdir Joaquim de Moraes. Como jogador compensava sua pouca estatura (cerca de 1,70m - para efeito de comparação, Marcos tem 1,93m) com muita impulsão. Fora de campo foi o precursor da preparação exclusiva para a posição, que ajudou a revelar não apenas o titular no título mundial brasileiro em 2002, mas também outros craques, como Velloso. 

"Eu tive a felicidade de iniciar o trabalho de preparação de goleiros no Palmeiras, em 1970. Foi fundamental. Não existia isso naquela época. Isso ajudou a revelar os goleiros no clube. Iniciei uma profissão que não existia", relembra.

Leão chegou ao Palmeiras em 1969, um ano depois de Valdir encerrar a carreira de goleiro. E deu sequência à tradição. "Uma coisa que o Valdir ensinava para mim já me ajudava a melhorar, mesmo que eu fosse melhor que ele", diz Emerson Leão.

Logo no fim dos anos 80 surgiu Velloso para o gol Alviverde. Este ficou no clube por quase 10 anos (com pequenas saídas por empréstimo para União São João e Santos). Titular na conquista da Copa do Brasil em 1998, só perdeu posição para Marcos, o último grande ídolo Alviverde debaixo das traves.

"Vi muito o Velloso jogar. Era meu ídolo. Votaria nele como o melhor de todos os tempos. Lembro vagamente do Leão. Mas eu lembro mais do Velloso. Mas Oberdan, Valdir e Leão também merecem destaque", disse o craque que consagrou a camisa 12 no clube, justamente por virar titular sendo o reserva de Velloso na temporada.

SEGREDO

Mas qual é a fórmula mágica para o Palmeiras revelar tantos craques para vestir a camisa 1? Por que o Alviverde tem tanta facilidade em encontrar bons jogadores para proteger seu gol?

"Acho que a escola de goleiros do Palmeiras vem muito daí, da orientação e do prazer que nós tínhamos de representar bem o antecessor. Isto foi feito até o Marcos. Depois parou. Ou não acreditaram naquilo que eles tinham ou não souberam elevar o moral para que eles se tornasse mais um. São bons goleiros, mas pararam no limite", explica Emerson Leão. "Antes de eu parar de jogar já pensava em fazer esse trabalho específico com os goleiros. Fui aplicando minhas ideias aos poucos", diz Valdir. 

Hoje o titular do Palmeiras é Fernando Prass, que mais velho chegou com uma carreira já consolidada ao clube. Para continuar a tradição da escola de goleiros, Leão dá a fórmula: "O Palmeiras precisa contratar hoje dois goleiros jovens que já têm certa experiência mas que precisam aparecer e deixar que compitam entre si. Não pode ter preguiça de procurar. O time precisa voltar a ser uma família". 

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Daniel Batista, Diego Salgado, Glauco de Pierri e Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2014 | 06h00

Se há uma posição que historicamente o Palmeiras nunca foi carente foi a de goleiro. Muitos tiveram qualidade excessiva, mas muitos poucos tiveram tanta personalidade quanto Emerson Leão. Dos sete presidentes Alviverdes ainda vivos, dois, Salvador Hugo Palaia e Arnaldo Tirone, o colocam como o melhor arqueiro que passou pelo gol palmeirense. Jogou quatro Copas do Mundo como jogador do Palmeiras. Por pouco, no entanto, essa história não foi construída.

"Eu era um menino do interior, um garoto de 19 anos que já havia jogado 5 anos como profissional. Tanto que eu não queria nem ir (para São Paulo). Eu estava lá em Ribeirão Preto, havia acabado o tiro de guerra e meu pai apareceu lá falando que os caras (do Palmeiras) estavam me procurando. E eu disse 'ah pai, eu não vou não', mas acabei vindo para três meses de teste", relembra.

Pouco conhecido na época, acabou tendo a sorte ao seu lado para virar titular, semelhança com Marcos (que ganhou posição na Libertadores com a lesão de Velloso). "O Chicão (goleiro titular na época) machucou e aí eu entrei no gol inesperadamente. No dia em que eu fui entrar a primeira vez, era minha vez de ficar no banco. O Filpo Núñez fazia um rodízio. Na hora de entrar ele perguntou: como é que você chama. Eu disse: 'sabe que eu esqueci', acabei com ele. Ganhamos de 6 a 2 da Juventus".

FASES

Um dos pilares da segunda Academia do Palmeiras, acabou acompanhando o time nos bons e maus momentos. Voltou na década de 1980, no meio da fila, para encerrar sua carreira (atuou entre 1984 e 86). Virou técnico entre 1989 e 90 no clube que o projetou como goleiro e novamente em 2005, já em um período de vacas magras. Fala com conhecimento de causa da situação atual.

"Hoje o Mundo Palmeiras..", fala com desgosto. "Antigamente, você conversava com diretores, antes o presidente, o Facchina, o Paschoal Giuliano. Falar com o presidente era honra. Ele vinha a campo todo encapotado, São Paulo com o clima . Era um prazer recebe-lo", explica. Mas isto não significa que não acredita no trabalho do atual presidente, Paulo Nobre.  

"Acho que ele tem coisa boa. Não que ele seja perfeito.  Acho que ele esta precisando de apoio e de gente".

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Daniel Batista, Diego Salgado, Glauco de Pierri e Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2014 | 00h48

O goleiro gaúcho Valdir chegou ao Palmeiras em 1958 para fazer história e se tornar uma das maiores referências do clube na posição. Em dez anos, defendeu as cores do time em 482 jogos, tornando-se um dos líderes da Primeira Academia. "O Palmeiras me projetou para o futebol nacional e internacional. Abriu as portas para minha vida como jogador. Foi o alicerce, onde vivi as minhas maiores alegrias", disse o ex-goleiro em entrevista ao Estado.

Com Valdir na meta, o Palmeiras conquistou quase tudo o que disputou, mesmo durante o auge de Pelé no Santos. Em 1959, por exemplo, bateu o time santista por 2 a 1 na decisão do Campeonato Paulista. No ano seguinte, conquistou a Taça Brasil, fato que repetiria em 1967 - no mesmo ano, a equipe alviverde levantou a taça de mais um torneio nacional, o Robertão.

"O título mais importante para mim foi o Paulistão de 1959. Todos os títulos são grandes, mas essa conquista é especial", afirmou Valdir, que também conquistou o estadual em 1963 e 1966.

Em 1968, o goleiro deixou o Palmeiras e passou a defender o Cruzeiro de Porto Alegre. O retorno, porém, logo aconteceria. Convidado por Oswaldo Brandão, Valdir tornou-se preparador de goleiros do time. O primeiro trabalho foi com Leão, que aos 19 anos, iniciava mais uma dinastia da camisa 1. "Dou muita importância também ao lado humano. Transformei meus goleiros em meus filhos. Fico muito orgulhoso disso", ressaltou.

Segundo ele, o trabalho, aos poucos, foi colocado em prática. O fato ajudou o Palmeiras a manter a tradição de revelar craques para o gol. "Sempre me falavam: onde o goleiro pisa não nasce grama. É mentira. A posição era apenas mal cuidada."

Ao voltar para o clube em 1970, Valdir pôde fazer parte da Segunda Academia, que ainda contava com o talento dos ex-companheiros Dudu e Ademir. Dessa forma, o preparador de goleiros voltou a conquistar título nacionais (Brasileirão de 1972 e 1973) e estaduais (em 1972, 1974 e 1976). "É difícil apontar qual academia foi melhor. São dois grandes times. Cada um tinha o seu valor", disse.

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