Deficiente acusa juiz de preconceito

Um lance atípico, ocorrido no jogo entre Comercial e Botafogo, no Estádio Francisco Palma Travassos, em Ribeirão Preto, pelo Campeonato Paulista Sub-15, no sábado, chamou a atenção para um detalhe das regras do futebol. O lateral-esquerdo Wayne Raphael Araújo, de 15 anos, do Botafogo, que não tem a mão esquerda, cobrou três vezes um arremesso lateral e o árbitro Jenkins Barbosa dos Santos marcou reversão em todos. No último desses lances, ainda no primeiro tempo, o técnico Zito invadiu o campo e questionou Santos, mas foi expulso. O caso foi parar no 1º Plantão Policial, com boletim de ocorrência registrado como discriminação. Os parentes de Wayne não querem indenização financeira ou punição para Santos, mas que a Federação Paulista de Futebol (FPF) reconheça que houve erro de interpretação do árbitro e que Wayne, capitão e líder do time, possa continuar normalmente a sua carreira, sem sofrer preconceito. "Se isso não ocorrer, o técnico poderia não escalar mais o Wayne alegando que ele não tem como cobrar um lateral", diz William Araújo, irmão e assessor de Wayne. Santos e o representante negaram-se a comentar o caso após a partida e o caso será decidido pela Comissão de Arbitragem da FPF. Mas o diretor da Escola de Arbitragem da FPF, Gustavo Caetano Rogério disse, na tarde desta terça-feira, que o caso é atípico e que Santos errou. "Ele (Santos) foi inexperiente, induzido ao erro, mas agiu com uma burrice...", comentou Rogério. "A atitude dele pegou mal para nós (da Escola)." Segundo Rogério, a regra diz o seguinte: "no arremesso lateral, a bola deve ser solta com ´ambas´ as mãos, ao ´mesmo´ tempo". Rogério explica: "Se ele usasse apenas uma mão, estaria errado." E acrescenta, afirmando que não está sendo ofensivo ao usar a expressão "toco": "Ele (Wayne) usou a mão e o toco para fazer a cobrança, o que está absolutamente correto." Ou seja, o procedimento foi correto. E o curioso é que Wayne sempre cobrou laterais e nenhum árbitro havia interpretado como irregularidade. "O árbitro não teve bom senso, equilíbrio e discernimento", comentou Rogério. Bronca - Jenkins Barbosa dos Santos já esteve na Escola na segunda-feira e foi advertido. Ele ainda está em formação - deve receber o diploma até o final do ano. Para Gustavo Rogério, ele conduziu a situação da única maneira que não poderia ocorrer, o que levou os parentes dos jogadores e os botafoguenses a encararem a situação como preconceito. "Poderia conversar com o técnico, dizer que tinha dúvida e pedir para que outro jogador cobrasse o lateral, por exemplo", exemplificou ele. "É preciso respeitar o deficiente e incentivá-lo à prática esportiva, não criar um fator inibidor", comentou Rogério, afirmando que foi a primeira vez que um caso desses aconteceu em seus 40 anos de arbitragem. Segundo ele, o caso agora será usado como exemplo durante as instruções da Escola e até com os árbitros profissionais. William disse que a família só iria às últimas conseqüências, ou seja, a Fifa, se a FPF alegasse que Wayne não poderia cobrar o lateral. Nesta quarta dirigentes do Botafogo devem ir à Federação e pedir uma retratação da entidade, já que Zito foi expulso e o time, desestruturado com o fato, não conseguiu sair do 0 a 0 contra o Comercial. O próprio Botafogo teve um jogador deficiente nos anos 80, o atacante Rinaldo, que não tinha desde o antebraço direito. Nessa situação, sim, ocorreria reversão no arremesso lateral, pois ele não seria cobrado regularmente como recomenda a regra. O jogador deficiente mais famoso da história do futebol é o uruguaio ´Manco´ Castro, que, na Copa de 1930, era um dos destaques da Celeste Olímpica, marcando o último gol na final, na vitória por 4 a 2 sobre a rival Argentina. Ele também não tinha uma das mãos.

Agencia Estado,

20 Agosto 2002 | 18h18

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