Evelson de Freitas/Estadão - 21/9/2009
Evelson de Freitas/Estadão - 21/9/2009

Acusados, Del Nero e Ricardo Teixeira podem pegar 20 anos de prisão

Presidente da CBF e ex-presidente são acusados de corrupção, aponta Departamento de Justiça dos EUA

CLAUDIA TREVISAN E JAMIL CHADE, DE WASHINGTON E ZURIQUE, O ESTADO DE S.PAULO

03 Dezembro 2015 | 17h26

Atualizada às 18h13

Marco Polo del NeroRicardo Teixeira foram acusados nos EUA por corrupção e conspiração nesta quinta-feira, enquanto a Fifa abre investigações contra o presidente da CBF por violações ao código de ética e pode suspender o dirigente do futebol. 

O Departamento de Justiça dos EUA apresentou nesta quinta-feira acusações por corrupção contra mais 16 integrantes da FIFA (veja o nome de todos no final da reportagem), entre os quais o atual presidente e o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira. Se condenados, eles estão sujeitos a penas que podem chegar a 20 anos de prisão.

"Del Nero, Marin e Teixeira conspiraram de forma intencional para criar um esquema para fraudar a Fifa e a CBF", afirma o documento de indiciamento do Departamernto de Justiça dos EUA. "Del Nero recebeu propina para a Copa América e para a Copa do Brasil (torneio mata-mata). Ele (Del Nero) ainda pediu, ao lado de Marin e Teixeira, propinas para a Taça Libertadores da América."  A Justiça americana indicou que os três dirigentes compartilharam as propinas em diversos outros contratos e "privaram a CBF e seus direitos". 

Segunda a procuradora-geral Loretta Lynch, procuradora americana, uma das suspeitas se refere ao contrato da CBF com a Nike. Teixeira teria recebido propinas para fechar o acordo. "Todos os que tentarem fugir, eu aviso: vocês não vão escapar", disse. Outras suspeitas apontadas pela Justiça se refere à escolha da Copa de 2010 na África do Sul e à eleição na Fifa, em 2011.

Com as novas denúncias, o número de pessoas denunciadas no processo quase dobra, para um total de 41. O caso teve início em maio, com apresentação das acusações em uma corte do Brooklyn, em Nova York. Até agora, 12 indivíduos e duas empresas de marketing esportivo foram condenados e US$ 100 milhões recuperados pelo governo dos EUA.  

Com a acusação confirmada, todos os três cartolas que comandaram a CBF nos últimos 30 anos estão sob suspeita ou serão julgados: José Maria Marin, Del Nero e Teixeira. Questionado se Del Nero poderia continuar na presidência da CBF, o chefe do Comitê de Auditoria da Fifa, Domenico Scala, apontou para um situação insustentável. "Essa é uma questão muito pertinente", disse. 

No total, o Departamento de Justiça dos EUA indiciou um grupo de 16 cartolas, a maioria deles da América Latina. Pela manhã, em Zurique, dois vice-presidentes da Fifa, Alfredo Hawit e Juan Napout, foram presos e aguardam extradição aos EUA. A Justiça, porém, também confirma o que a reportagem do Estado havia revelado com exclusividade em 15 de setembro: Del Nero estava sendo investigado pelo FBI. 

Agora, ele é acusado formalmente por receber propinas em contratos comerciais envolvendo a CBF. O Estado apurou que o governo americano estava costurando um pedido de cooperação com o Brasil para que Del Nero fosse preso ou pelo menos ouvido pela Justiça. 

Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, também foi indiciado por corrupção. Ele é suspeito de ter feito parte de um esquema de corrupção em um contrato com a Nike, ainda nos anos 90. 

Mas, conforme a reportagem do Estado revelou com exclusividade, uma decisão de uma juiza no Rio de Janeiro suspendeu todo o tipo de cooperação entre americanos e brasileiros envolvendo o escândalo da Fifa. Com isso, o MP brasileiro fica impedido de cumprir qualquer solicitação do FBI relacionado com o caso. 

Nos EUA, a apuração sobre Del Nero se debruçava sobre pagamentos feitos por José Hawilla, dono da Traffic. A Justiça apontava como o empresário brasileiro foi obrigado a compartilhar um contrato que tinha com a CBF para os direitos da Copa do Brasil com a Klefer a partir de 2011. Para o período entre 2015 e 2022, a Klefer pagaria à CBF R$ 128 milhões pelo torneio, minando a posição privilegiada que Hawilla tinha desde 1989. 

Para evitar uma guerra comercial, Hawilla e a Klefer entraram em um entendimento. Mas só neste momento é que a Klefer informou que havia prometido o pagamento de uma propina anual a um cartola da CBF, cujo nome não foi revelado.  

Essa mesma propina teria de ser elevada a partir de 2012 quando dois outros membros da CBF entrariam em cena. Um deles é José Maria Marin, preso em Zurique e extradito aos Estados Unidos. O outro, segundo os americanos, seria Del Nero. 

Dois documentos revelados ainda no dia 27 de maio pelo Departamento de Justiça dos EUA confirmavam a suspeita. Del Nero negava que ele fosse a pessoa indiretamente apontada nos informes. 

Num deles, um empresário "informa Hawilla que o pagamento de proprinas aumentou quando outros dois executivos da CBF – especificiamente o Co-Conspirator #15 e Co-Conspirator #16 - pediram propinas tambem". 

O documento explicava  que o co-conspirador 15 era membro do alto escalão da CBF e membro da Fifa e da Conmebol – a descrição apenas pode ser preenchida por José Maria Marin. Naquele momento, ele era o presidente da CBF, era membro da Fifa e da Conmebol. 

Já o co-conspirador 16 seria membro do alto escalão da Fifa e da CBF. Nesse caso, apenas Del Nero mantinha um cargo na CBF (vice-presidente) e na Fifa (membro do Comitê Executivo). 

"Hawilla concordou em pagar metade do custo da propina, que totalizava R$ 2 milhões por ano, para ser dividido entre Co-Conspirator #13, Co-Conspirator #15, e Co-Conspirator #16" , indicou o indiciamento do empresário.

O mesmo caso é contado no documento que serve de base para o indiciamento de José Maria Marin e, neste caso, o nome do ex-presidente da CBF é apresentado. No indiciamento, a Justiça traz até mesmo um diálogo entre Marin e Hawilla, em que o cartola insiste que o dinheiro precisa ir para ele também. A reunião gravada ocorreu nos EUA em abril de 2014.

No documento de maio que cita Marin, Del Nero não é citados nominalmente na acusação. Mas a Justiça explica que um "co-conspirador 12" teria também recebido parte da propina. Esse co-conspirador 12 seria um  "alto funcionário da Fifa e da CBF". Um avez mais, apenas Del Nero se enquadra nessa descrição.

CONTAS

Para chegar ao atual presidente da CBF, a Justiça americana tem examinado depósitos e pagamentos feitos pela Traffic nos EUA, assim como pela Klefer. Já na motivação para pedir a extradição de José Maria Marin, os americanos apontaram dois depósitos como exemplos de como o sistema financeiro americano estava sendo usado no esquema entre os cartolas da CBF.

Uma das contas, porém, chama a atenção do FBI. Trata-se de uma transferência da Klefer, avaliada em US$ 500 mil no dia 5 de dezembro de 2013 a partir de uma conta no banco Itaú Unibanco de Nova Iorque para o HSBC em Londres, em nome de uma empresa fabricante de iates de luxo. O que a Justiça quer saber é quem teria sido o beneficiado pela compra do iate ou pelo pagamento. 

SUSPENSÃO

Del Nero ainda passou a sofrer um processo na Fifa, que abriu uma investigação. Se punido, Marco Polo Del Nero poderá ser suspenso do futebol e terá de deixar a CBF. 

Com base nas informações enviadas pela CPI do Futebol no Senado, a Fifa abriu um processo investigativo e Del Nero poderá ser suspenso do futebol, o que significa que ele terá de deixar a CBF.

O brasileiro não viaja ao exterior desde maio, quando José Maria Marin foi preso em Zurique. Na semana passada, o cartola obrigou a Conmebol a realizar sua reunião no Rio de Janeiro para que um substituto fosse escolhido para seu lugar no Comitê Executivo da Fifa. O escolhido foi Fernando Sarney.

O Estado apurou que a CPI do Futebol enviou dados sobre Del Nero para o Comitê de Ética da Fifa no dia 11 de novembro deste ano. No pacote foi enviado suspeitas de como Del Nero teria influenciado votos para sua eleição graças a um contrato de patrocínio da Chevrolet com as federações estaduais. Os acordos vigoraram entre 2013 e 2014, período em que o atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, era vice-presidente da entidade. 

O primeiro contrato da Chevrolet ocorreu com a Federação Paulista de Futebol na época em que Del Nero era seu presidente e quando o dirigente passou a ocupar a vice-presidência da CBF, a montadora passou a patrocinar federações estaduais por todo o País. Entre 2013 e 2014, 22 federações tiveram contrato com a empresa.

Mas, neste ano, quando Del Nero assumiu a presidência da CBF – venceu as eleições em 2014 –, a Chevrolet passou a patrocinar apenas na entidade nacional, que rompeu anos de parceria com a Volkswagen.

Um dos contratos com uma federação estadual, obtido pelo Estado, revela o compromisso da montadora de pagar R$ 320 mil em patrocínios para 2013 e outros R$ 320 mil para 2014, num total de R$ 640 mil em dois anos.

O que chama a atenção dos investigadores da CPI é o valor de R$ 40 mil que seria destinado para “ativações e ações promocionais”. No contrato, a empresa confirma que o patrocínio é de R$ 600 mil. 

Mas, numa carta-acordo de intermediação de patrocínio, outros R$ 40 mil são adicionados. O documento aponta que o valor deve ser passado para a SG Marketing e Comunicação Ltda., representada por Sergio Luis de Sousa Gomes. O montante coincide com o valor final indicado no contrato principal de patrocínio, elevando o total para R$ 640 mil.

Pela carta, a empresa de veículos explica que o pagamento de R$ 40 mil ocorre “por razões operacionais internas” e ordena que a federação estadual repasse o dinheiro da “seguinte forma”: direito de intermediação comercial e ativação do patrocínio. E indica que a SG Marketing é a detentora exclusiva desses direitos. 

Na avaliação da CPI, os valores citados abrem a suspeita de que a inédita cobertura de uma mesma marca em tantas federações pode ter beneficiado Del Nero na eleição para presidente da CBF. Ele obteve 44 dos 47 votos possíveis (votaram as 27 federações, mais os 20 clubes da Série A do Brasileiro). Seu mandato termina em 2019

Outro aspecto destacado pela CPI para a Fifa foram compras de imöveis a preços atípicos e que poderiam apontar para lavagem de dinheiro. 

OS 16 INDICIADOS PELA JUSTIÇA DOS EUA Alfredo Hawit (Concacaf presidente) 

Ariel Alvarado (ex-presidente da Federação do Panama)

Rafael Callejas (ex-presidente da entidade de Honduras)

Brayan Jimenez (presidente da Federacao da Guatemala)

Rafael Salguero (da Guatemala e membro da Fifa)

Hector Trujillo (secretário-general da Federação da Guatemala)

Reynaldo Vasquez (ex-presidentee da Federaçaão de El Salvador)

Juan Angel Napout (presidente da Conmebol)

Manuel Burga (ex- presidente da Federação de Futebol do Peru)

Carlos Chavez (Federação da Bolivia)

Luis Chiriboga (Equador)

Marco Polo del Nero (presidente da CBF) 

Eduardo Deluca (secretário-geral da Conmebol),

Jose Luis Meiszner (ex-secretário da Conmebol)

Romer Osuna (auditor da Federação da Bolivia)

Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF)

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