Desconfiança no futebol

Antes havia esperança, paciência e confiança. Hoje há cobrança e descrédito

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2018 | 04h00

Antes se acreditava. Agora se desconfia. O futebol brasileiro mudou e com ele o sentimento de seus personagens. Vivemos a era da desconfiança dentro de campo, nos estádios, do planejamento da temporada, no pênalti que será cobrado. Desconfia-se de tudo e não há mais paciência para nada. Nem bem começou o ano e já tem uma penca de jogadores e técnicos com a corda no pescoço.

O Botafogo do Rio mandou o seu treinador embora depois de apresentá-lo como substituto de Jair Ventura. Estavam certos de que ele seria o cara. Não ficou nem 50 dias de um contrato, até onde se sabe, de três anos. A desconfiança sobre Felipe Conceição ficou pesada após a eliminação da equipe na Copa do Brasil frente ao Aparecidense. Não suportou nova derrota, e grande passeio, para o Flamengo na semifinal da Taça Guanabara.

Quando Borja tomou a bola para si a fim de cobrar o pênalti que ele mesmo sofreu na partida do Palmeiras contra o Mirassol, sábado, pelo Paulistão, muita gente torceu o nariz. “Ele não”. Desconfiou-se da qualidade de sua cobrança até Dudu, o batedor oficial da equipe, conforme atestou o técnico Roger Machado depois da partida, tomar-lhe a bola e ele sim assumir a responsabilidade como estava combinado no vestiário se saísse algum tiro livre. Em Dudu ainda se confia. Em Borja, não.

Em Minas Gerais, terra da liberdade e dos inconfidentes, Oswaldo de Oliveira saiu correndo atrás de um repórter e o Atlético o colocou para correr do clube no dia seguinte. Não se acreditava mais em seu trabalho. A discussão em público, com quase vias de fato, foi o pretexto para demiti-lo. Não havia mais esperança nele. Tenho comigo que Oswaldinho chegou debaixo de muita desconfiança em Belo Horizonte e nem o ar na nova temporada o salvou da degola.

A falta de crédito no futebol só se faz aumentar ao longo das partidas e do calendário. Cada um tem a sua desconfiança e ninguém confia em ninguém. A torcida não acredita na força do time, o time não confia no trabalho do treinador, o treinador espera pela demissão a qualquer momento, não acredita no contrato tampouco na palavra da diretoria. A diretoria vive às turras com a desconfiança da torcida, que, por vezes, consegue desagradar a todos no futebol.

Dentro de campo, há goleiros que não inspiram a menor confiança. Sempre houve, mas agora eles são linchados nas redes sociais. Muralha foi escorraçado do Flamengo por causa das defesas que não fez. O São Paulo viveu isso um ano antes, quando Rogério Ceni entregou suas luvas para Denis. Ninguém confiava nele no Morumbi. Foi embora sem olhar para trás. Desconfia-se agora dos outros goleiros do time.

Pior mesmo é a falta de crédito da arbitragem. Até a mãe do juiz desconfia de sua atuação. Dos personagens do jogo, ninguém confia nele. Estão fadados ao descrédito até a hora da morte. Possivelmente em suas lápides estará escrito “aqui jaz um árbitro de futebol no qual ninguém confiava”.

Por fim, mas não menos sem crédito, estão as entidades esportivas. O Brasil tem os últimos três presidentes da CBF, um deles ainda no cargo, presos, investigados ou com medo de deixarem o País. O problema é a corrupção, que todos eles negam. Credibilidade zero. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) vive situação igual após prisão, soltura e afastamento de Carlos Arthur Nuzman, até então eternizado no cargo. São personagens de um Brasil que recebeu Copa do Mundo e Olimpíada seguidamente. Alguém confia nestes caras ou nestas instituições? Pouco provável.

E o pior de tudo é saber que o futebol brasileiro, em todas as suas instâncias, tem dado motivos para tamanha desconfiança. Lá atrás havia esperança e confiança.

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