Amanda Perobelli
Amanda Perobelli

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 07h00

Depois que saiu da Portuguesa e começou a ter dificuldades para encontrar outro clube, o meia Rai decidiu vender sua BMW. Prata, coisa linda, mas ele tinha de reduzir custos. Quando os calotes se tornaram mais frequentes - no Vilhena, de Rondônia, ele chegou a ser ameaçado de morte por cobrar cinco meses de atraso no salário -, o meia de 32 anos se tornou corretor de seguros. Hoje, espera uma proposta do futebol chinês, mas a bola virou plano B.

Para Bruno Henrique Silva Carvalho, o desemprego piorou o que era já difícil. No primeiro semestre, ele atuou pelo Suzano, time da quarta divisão do futebol paulista, mas não recebia salários. "Os dirigentes diziam que o time era uma vitrine e que não precisava de salário", diz o atleta de 21 anos. Depois de seis meses sem receber, foi dispensado porque o time não terá mais competições para disputar em 2017.

Hoje, para ajudar a renda na família, ele vende doces caseiros, feitos pela própria mãe. Após os treinos, sai pelas ruas de Suzano, na grande São Paulo, oferecendo brigadeiros, beijinhos, pães de mel. O pai, Marcelo, é eletricista de manutenção e a mãe, Maria Elenir, é faturista no hospital da cidade. Bruno tem um irmã nova, de dez anos.

Rai e Bruno Henrique mostram alguns dos efeitos do desemprego entre os jogadores de futebol. De acordo com a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol, o Brasil possui hoje 18 mil atletas profissionais. A entidade avalia que os índices de desemprego variam ao longo por ano por causa da mudança no número de competições. Os clubes menores, aqueles que não disputam as Séries A, B, C e D do Campeonato Brasileiro simplesmente fecham as portas no segundo semestre, pois não tem competições para disputar. Com isso, milhares de atletas ficam a Deus dará. "No mês de abril, temos cerca de 30% dos atletas trabalhando no Brasil todo. No final do ano, esse número cai para apenas 6%", afirma o presidente Felipe Augusto Leite.

Esse é o drama vivido por Bruno Henrique no pequeno Suzano e também por Marco Antônio da Silva Oliveira, campeão da Série A3 do Campeonato Paulista com o Nacional.

Aos 29 anos, ele não renovou contrato e simplesmente não tem onde jogar até o final do ano. "Tenho meus 29 anos e ainda me sinto em condições de jogar. Mas, claro, sei da minha realidade hoje, que está um pouco distante, mais que não é impossível, só basta portunidade e sequência. O calendário brasileiro está ruim para nós, que não temos nome no cenário do futebol brasileiro", diz o jogador.

Naturamente, a questão não se esgota na venda de carros de luxo e nos bicos para completar a renda. Existe um problema emocional quando um jogador fica desempregado. Outros jogadores ouvidos pelo Estado citam a cobrança familiar - as contas não param de chegar - "O maior desafio é manter a motivação, treinar sozinho e não desistir", confessa o zagueiro Guilherme Bernardinelli, ex-Santos.

Depois de uma temporada na terceira divisão espanhola, o jogador de 25 anos deu de cara com a falta de oportunidades no retorno ao Brasil. Enquanto aguarda a abertura da próxima janela de transferências, ele contratou um personal trainer para manter a forma, mas já pensa em um plano B. Diariamente, dá expediente na área administrativa da empresa do pai, uma fábrica de injeção plástica.

"Pensei até em procurar um médico. A gente vive o sonho, de ser famoso, ganha tapinha nas costas e almoço grátis por onde passa e, de uma hora para outra, tudo acaba. É preciso muito equilíbrio emocional", diz Rai. "Eu tinha vergonha de chegar a pé nos jogos, sem carro, e, por isso, nem ia jogar", confessa o jogador que esteve no Taubaté.

Em vários casos, os jogadores esbarram na falta de qualificação profissional para buscar uma recolocação no mercado. "Muitos amigos me negaram um emprego porque diziam que eu não sabia fazer nada", lamenta Rai.

Rai e Bruno estão em momentos diferentes na luta contra o desemprego. Hoje, Rai tem sua própria empresa de seguros, a DR Group, e grande parte dos seus clientes é formada por... jogadores de futebol, seus colegas de profissão. Teve chance de comprar carro, mas preferiu andar de metrô, ônibus e Uber. Ainda precisa economizar, pois a empresa ainda precisa decolar.

Horas depois da entrevista ao Estado, Bruno Henrique manda uma mensagem via whataspp. No dia 15, ele avisa que vai atuar pela final da Liga de Mauá, o clássico entre São João e Gralha Azul. Ele atua na várzea para completar a renda e ganha cem reais por jogo. No dia seguinte, ele mandou outra mensagem. "Quando você perguntou das minhas qualidades, tenho bom preparo físico, bom desarme, sei sair para jogo, com qualidade, e chega bastante na área do adversário".

 

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 07h00

Se os clubes de futebol representam o mercado de trabalho dos jogadores, o currículo para buscar um emprego é o DVD, conjunto dos melhores lances em vídeo de um jogador. A análise do DVD é a primeira para a contratação de um jogador. Anos atrás, ainda existia o objeto físico, aquele CD em estojo plástico, com a foto e o nome do jogador em destaque. Hoje, o DVD foi substituído por um link na internet. Independentemente do formato, o vídeo, como é chamado entre os jogadores, virou item obrigatório, principalmente entre os desempregados.

"Em todas as negociações, sempre falam que viram meu DVD", diz Guilherme Bernadinelli, zagueiro que estava no Silva Sociedade Desportiva, da terceira divisão e agora procura novo clube, dentro ou fora do Brasil. "A globalização do mercado esportivo, a necessidade de comunicação ágil transformou o DVD é uma peça obrigatória em todas as negociações", diz Fabio Pere, ex-jogador e proprietário da empresa.

A Golmaisgol, produtora de vídeo especializada no mercado esportivo e uma das líderes do mercado, produz em média 60 vídeos por mês no primeiro semestre, quando a procura é mais intensa por causa dos campeonatos estaduais. Atualmente, possui sete funcionários. A empresa faz a filmagem e edição dos vídeos - a distribuição é feita pelos próprios jogadores e pelos empresários. Cada DVD tem, no máximo, 10 minutos e custa entre 600 e 800 reais. Normalmente, a peça é atualizado uma vez por ano.

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 07h00

Para ajudar os atletas sem emprego, o Sindicato dos Atletas criou o projeto Expressão. Trata-se de uma equipe de futebol com programação regular de treinos e jogos que prepara os jogadores técnica, física e emocionalmente para uma oportunidade de emprego. "

Quando a chance surgir, o jogador está pronto do ponto de vista físico, técnico e emocional", diz Rinaldo Martorelli, presidente do sindicato e idealizador do projeto. Cada amistoso é uma espécie de vitrine para os desempregados. Em outubro, o projeto está passando por um processo de reformulação. Os treinamentos serão feitos em Guarulhos, na grande São Paulo, e o time poderá receber clubes visitantes. São oferecidas entre 30 e 40 vagas.

Números do sindicato dão uma ideia do problema no mercado paulista. Atualmente, existem seis mil atletas associados à entidade. Mas são apenas 89 clubes no estado, considerando todas as divisões. Isso representa, a grosso modo, pouco mais de 2,5 mil vagas de trabalho. A conta não fecha.

No final do ano passado, um torneio nacional chamado o I Torneio de Jogadores Livres da Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol). A competição reunirá projetos de treinamento diário para atletas desempregados dos sindicatos de seis estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Ceará). O Expressão Paulista foi o campeão.

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