Campeão no divã

Quando ídolos saem de cena, fãs ficam à deriva, sentem que parte da vida deles se aposenta

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 03h00

Para que não fique nenhuma dúvida: o São Paulo mereceu vencer o clássico da noite de ontem, pela terceira rodada do Brasileiro. O time de Rogério Ceni esteve mais equilibrado do que o Palmeiras, teve controle dos nervos e soube aproveitar as chances que apareceram – as duas melhores com Pratto e Luiz Araújo, suficientes para garantir os 2 a 0. Com dois resultados bons na sequência, e em casa, acalma-se de vez o ambiente no Morumbi. Treinador e jogadores podem concentrar-se bem na disputa da Série A.

Mas, sem caça às bruxas, o São Paulo contou com ajuda do rival, em geral, e de Fernando Prass, em particular. O goleiro, um dos ícones do campeão brasileiro, vive período oscilante. As falhas têm sido recorrentes, na atual temporada, e em alguns momentos importantes. Certo que tem crédito excedente, pelo que já fez pelo time. No entanto, pode fazer com que cresça a sombra de Jaílson, decisivo na campanha do título nacional de 2016. Para ficar alerta.

Atento, sobretudo, deve estar Cuca. Vá lá que acabou de retornar. Porém, tem de agir com rapidez para acabar com a instabilidade da equipe. O Palmeiras, badalado e incensado, balança além do razoável, a ponto de transformar-se em time imprevisível. E isso não é bom. Hora de todo mundo ir para o divã.

DESPEDIDAS

Quem ama futebol sabe como jogadores símbolos são essenciais para sedimentar a paixão por um clube. Mas se tornaram exceções os fidelíssimos a uma camisa, nestes tempos em que é necessário mudar e mudar, para faturar. Por isso, quando um desses seres especiais sai de cena, os fãs sentem o baque de forma intensa.

Chuteiras famosas foram penduradas na Europa com o encerramento da temporada. O alemão Phillip Lahm, campeão mundial, parou aos 33 anos, depois de 14 temporadas de dedicação ao Bayern de Munique. O inglês John Terry, 36, despedaçou corações dos seguidores do Chelsea, ao anunciar a retirada, após 20 anos de casa.

Uma das mais esperadas reverências a craque em fim de carreira está marcada para este domingo, no Estádio Olímpico, onde Francesco Totti entrará pela última vez com a número 10 da Roma. Com 40 anos completados em setembro, Er capitano, Er Re di Roma se despede, diante do Genoa.

Totti serviu a único senhor por 24 anos! Fato extraordinário. Romano da gema e romanista de nascença, a maior glória giallorossa enfim rende-se ao tempo, o marcador implacável, mais impiedoso do que muitos beques que maltrataram os tornozelos e os joelhos dele. Já há algum tempo, não tem mais pulmão nem pique para aguentar o desgaste de treinos, viagens, jogos. Por isso, optou pelo arrivederci Roma. Para não virar caricatura de si mesmo.

Totti atingiu patamar reservado apenas aos astros maiores. É ídolo da Roma, mas respeitado e querido por todos. Prova veio com a faixa estendida por uma das organizadas da Lazio, na semana passada, em que se lia: “Os inimigos de uma vida saúdam Totti”. Sinal irrefutável de que os grandes senhores do mundo da bola recebem reconhecimento dos rivais. Numa comparação com lendas nacionais, ficou num nível de Pelé, Luís Pereira, Ademir da Guia, Dadá Maravilha, Zico e, mais recentemente, de Marcos. Endeusados por suas torcidas; admirados pelas demais.

No auge da carreira, o inigualável Totti despertou a cobiça de Real Madrid, Manchester United, Milan – até da Lazio! –, que o queriam a todo custo. Sempre disse não. E, no início da atual temporada, numa carta aberta os fãs revelou alguns dos motivos que o levaram a recusas constantes diante de assédio. “Roma é a minha família, são meus amigos, as pessoas que eu amo... Roma, para mim, é o mundo. Este clube, esta cidade, têm sido a minha vida.”

É ou não é pra arrepiar?

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