Desperdício palestrino

O Palmeiras botou o pé em 2017 como candidato a ganhar tudo e só acumula frustrações

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 04h00

Tão logo foi dado o pontapé inicial de 2017, o consenso no mundo do futebol era de que o Palmeiras teria ano brilhante. Ao menos assim parecia, pela euforia do título brasileiro recém-conquistado, da grana fenomenal com patrocínio e das contratações de peso. Seria versão atualizada do papa-tudo, a versão 4 da Academia, depois daquelas dos anos 60, 70 e 90.

Pois a temporada entra na reta final e deixa para os palmeirenses a constatação de acúmulo de frustrações e desperdício de energia, de talento, de investimento. Não só não levantou nenhuma taça como passa por momentos constrangedores, como os das demissões de técnicos – primeiro Eduardo Baptista e agora Cuca.

As trocas de comando são os indícios indesmentíveis dos erros de cálculo da direção, da falta de rumo e do desespero diante da realidade. Na verdade, a primeira pisada de bola foi a aposta em Baptista, técnico novo, promissor, porém ainda sem estofo para controlar egos e pressões de um elenco milionário. Com tanta gente a considerar-se apta a vestir a camisa titular, e com a torcida empolgada com a perspectiva de sucesso, era necessário ter professor cascudo, rodado.

A sombra de Cuca cresceu, Baptista caiu e o campeão de 2016 retornou nos braços do povo. Justiça se faça à cartolagem verde: foi atrás do único nome forte o suficiente para acalmar a massa. No entanto, desde o primeiro momento pairou sensação estranha no ar. O comandante mostrou-se inseguro, inquieto, mexeu, remexeu na escalação, deu força e desgastou jogadores, sem que montasse um time.

Amigo leitor, até no empate fatal diante do Bahia (2 a 2), na quinta-feira, o que se viu foi um amontoado de atletas a correr para cá e para lá, não uma equipe com estratégia de jogo definida, bem distribuída, consciente do que pretendia. Poderia até ser frágil escolha, e teria alguma sustentação, desde que se visse uma proposta tática, como tem, por exemplo, o Corinthians de Fábio Carille. Nada de nada. Alguém sabe quem são os 11 titulares palestrinos?

O Palmeiras de Cuca Ano 2 foi uma bagunça, uma aflição de início ao fim, a depender de lampejos individuais. Nem a segurança defensiva, tão importante na campanha do Brasileiro passado, desta vez prevaleceu. Mesmo quando não era brilhante, não passava sufoco, que agora se tornou rotineiro.

Um time que tinha a presunção de revalidar o título não pode ter nove derrotas na conta – e várias diante de adversários em situação inferior na tabela. Não pode ter deficiência nas laterais, não ter um armador, não ter um definidor. E esse é o Palmeiras 2017.

Cuca não conseguiu recuperar Tchê Tchê, tampouco tirou o máximo de Guerra, assim como eclipsou Borja. (Ok, o colombiano não se ajudou muito, mas é melhor do que Deyverson.) E Cuca foi desautorizado no caso Felipe Melo. Depois do que o moço falou, em áudio vazado em rede social, não havia mais condições de convivência: um dos dois deveria ir embora.

Em princípio, o treinador ganhou a parada, com o afastamento do volante. Depois, se enfraqueceu, com a reintegração e, pior, ao colocá-lo em campo no meio da semana. Ali, carimbou a derrota. Emblemática a imagem do dia seguinte, com Felipe Melo a carregar os coletes a serem distribuídos antes do treino. E o clube que arque com o significado...

O Palmeiras em rebuliço parecia página virada, após a arrumação com Paulo Nobre, o mecenas tão criticado por alguns por “ser vaidoso” e que inegavelmente tirou o clube do atoleiro. A negligência de novo dá o ar da desgraça, para satisfação de dirigentes que estavam fora de cena e que voltaram a ditar regras nos bastidores, com ideias mumificadas. Como consolo, hoje tem Paul McCartney no Allianz. Ao menos algo para alegrar a casa verde.

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