Desta vez não deu

A Libertadores, inflada por vários novos coadjuvantes, é o produto para dar novos lucros

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 05h00

Futebol é dinheiro. Ou por outra, futebol se tornou um produto igual aos outros disponíveis no mercado e gerador de lucros. Para isso deve crescer sempre de modo a fazer cada vez mais dinheiro. Como proceder para fazer o mercado crescer? Criando novas competições, novos hábitos e nova maneira de ver o futebol. Pegando, por exemplo, uma competição que interessava só para alguns clubes grandes e aumentando-a, somando aos grandes, equipes pequenas, mas de diferentes lugares. Inventando novas rivalidades antes reservadas aos poucos e antigos grandes times, trazendo para o palco clubes sem tradição, mas que poderiam atrair consumidores novos com sua participação. 

Essa experiência de marketing foi feita com a Libertadores de America, torneio outrora confinado a dois times uruguaios, dois ou três brasileiros e dois ou três argentinos. E ponto final.

Esse torneio estava semimorto na suja imobilidade quando resolveram ressuscitá-lo para que passasse a realmente dar dinheiro. O processo é sempre revolucionário: para existir faz vítimas. As vítimas começaram com um longo trabalho de extinção dos campeonatos regionais, acompanhado do mesmo trabalho feito para atingir o torneio nacional. Hoje o resultado desse trabalho infatigável junto à mente dos “consumidores” é que a maioria dos clubes não pretende mais ganhar o Brasileiro. Almeja só o direito de disputar a Libertadores. Só se fala nesta competição, só se fala nesta obsessão, pois já entrou nos corações e mentes que ela é o mais importante dos troféus. 

A Libertadores, inflada devidamente por vários novos coadjuvantes, é, de fato, o produto novo necessário para dar grandes lucros. Os resultados, claro, seriam obtidos sempre quando se confrontassem grandes torcidas, geralmente de dois países: Brasil e Argentina. A quantidade de camisas vendidas aumentaria muito, ingressos vendidos explodiriam, audiências televisivas, principalmente, iriam às nuvens. 

Havia até uma estratégia alternativa elaborada. No caso de algum clube de grande massa sair da competição foi imaginada outra menor, mas feita para não deixar esse eventual grande clube invisível durante um bom período. E foi criada a Sul-Americana para possíveis contratempos. Tudo ia no melhor dos mundos. Na Globo de quarta-feira, antes de Palmeiras e Barcelona, o narrador titular declarou que seu sonho era ver na final cinco brasileiros e três argentino em épicos combates.

No fim da noite as coisas tinham mudado um pouco, creio que comprometendo bastante os lucros tão sonhados. A saber: dos grandes do Brasil, que é o mercado que mais interessa, só Santos, Botafogo e Grêmio sobraram. E não são, com toda a grandeza de suas histórias, capazes das grandes façanhas de audiência. Um já vai despencar necessariamente no próximo jogo. Ficarão dois e, fora, Corinthians, Flamengo São Paulo, Palmeiras, Vasco, Internacional, Cruzeiro, Atlético-MG, Fluminense, isto é a grande massa de consumidores brasileiros.

Em seus lugares estarão Barcelona de Guayaquil, Jorge Wilsterman, da Bolívia, e Lanús, da Argentina.

Sim, resta a Sul-Americana. Nesta mesma quarta-feira o Flamengo, diante de uns vinte mil torcedores ganhou de um time chamado Palestino, de procedência que fiz questão de não saber. Aliás, a competição em que estão metidas as duas maiores torcidas do Brasil oferece como prêmio participar da próxima ... Libertadores! O fato é que desta vez os deuses do futebol entraram em campo e modificaram planos de marketing tão elaborados. 

E pode ser ainda pior: quem garante que a final gloriosa desta Libertadores não será, por exemplo, Jorge Wilsterman x Lanús, com transmissão direta, em horário nobre, para todo o Brasil?

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