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Doping em São Paulo triplica e Federação adota 'tolerância zero'

Entre 2015 e 2016, casos passaram de cinco para 15 em todas as divisões do futebol paulista

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Gonçalo Junior

19 Março 2017 | 06h00

A Federação Paulista de Futebol adotou política de tolerância zero em relação aos casos de doping, que triplicaram entre 2015 e 2016, passando de cinco para 15 jogadores que utilizaram substâncias proibidas pela Wada (Agência Mundial Antidoping).

 A primeira medida foi aumentar o número de amostras de urina analisadas. Em 2016, serão 1650 amostras coletadas em todas as divisões do futebol paulista. Isso significa um aumento de mais de 200 exames em relação ao ano passado. A Uefa, entidade que controla o futebol europeu, costuma analisar mil por ano. A Conmebol, 1500. A CBF é a “campeã mundial” com mais de 6000 testes por temporada.

Outra medida para coibir o uso de substâncias proibidas é a adoção de penas rigorosas. “Os auditores têm a mão pesada e geralmente recomendam a pena máxima”, diz Antonio Assunção Olim, presidente do Tribunal de Justiça Desportiva.

Fernando Solera, presidente da Comissão de Controle de Doping da Federação e da CBF, afirma que existe uma recomendação expressa da Federação Paulista de Futebol de buscar o jogo limpo a todo custo. “A orientação é tolerância zero com os casos de doping”, sustenta Solera, nomeado pela Fifa na semana passada como a maior autoridade de teste antidoping no Brasil. O argumento principal usado pela entidade, alinhada com as determinações do COI e da Wada, é a necessidade de se garantir uma disputa justa.

Wagner Peres, meia do Água Santa, é um dos jogadores suspensos do futebol paulista. Depois que foi encontrada a substância benzoilecgonina, derivada do metabolismo da cocaína, em seus exames, ele foi suspenso do futebol até 2020. Wagner diz que não sabe o que deu errado com os exames e que poderá voltar no fim do ano que vem, se tudo der certo, após pedir revisão do caso. Já tem acordo com uma equipe de Goiás. A suspensão, obviamente, traz problemas econômicos. Hoje, ele mora com a sogra para economizar. Conta que não procurou outra profissão porque tem esperança de voltar a jogar.

Wagner foi um dos poucos a relatar sua história de doping ao Estado e, mesmo assim, a contragosto. Um traço marcante nos casos é o silêncio dos atletas. Os irmãos gêmeos Mario e Matheus Augusto Destro, que atuavam no São Carlos, estão suspensos até 2018 e foram proibidos por seu agente de comentar a pena. “Eles são meninos do bem, que deram vacilo com um medicamento não autorizado. Se ficarem expostos, será difícil empregá-los de novo”, diz o empresário Edson Khodor.

A palavra “doping” está diretamente associada à ingestão de substância para ter uma vantagem em relação aos oponentes. Os anabolizantes, por exemplo, provocam o crescimento dos tecidos musculares, resultando na melhoria do desempenho físico. O uso de qualquer substância presente na lista anual da Wada leva o atleta a julgamento. Ele pode ser advertido ou até banido do esporte.

O doping acidental, no entanto, não é raro. Aqui entra o terceiro tópico de atuação da Federação Paulista: a prevenção. Preocupada com a diminuição do doping involuntário, aquele em que o jogador não sabe que está tomando substâncias proibidas, especialistas percorrem os clubes para oferecer palestras gratuitas de conscientização. Uma dobradinha entre a CBF e a Federação resultou na visita de 40 agremiações.

Eles alertam para questões simples. Atletas não podem tomar analgésicos a base de isomepteno (como Neosaldina) ou remédios para hipertensão a base de clortalidona (como Higroton), por exemplo. Qualquer medicamento deve ser informado ao médico do clube. Nesse quesito, o vilão é o suplemento alimentar, que pode estar contaminado. “Os fabricantes não são obrigados a discriminar todos os componentes das fórmulas”, alerta Solera.

CASO ALECSANDRO

O atacante Alecsandro, do Palmeiras, foi condenado, mas depois absolvido em um caso de doping no ano passado. O primeiro julgamento, em agosto, terminou com a punição e suspensão de dois anos pela presença da substância proibida O-Dephenylandarine no seu organismo. A defesa do atacante alegou que o componente era fruto de uma reação química de produtos presentes em loções capilares, de uso pelo jogador na época. Em setembro, a Federação Paulista recebeu da Agência Mundial Antidoping (Wada) um comunicado que finalmente absolvia o atacante. “Há de se considerar que este é o primeiro caso relatado no mundo com esta interação metabólica em seres humanos”, esclarece o comunicado da Wada.

O volante Arouca foi suspenso preventivamente por um mês, também em 2016, pela presença da substância Hidroxytriamcinolone acetonide. O Palmeiras conseguiu sua liberação até o julgamento, que ainda não ocorreu.

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Gonçalo Junior

19 Março 2017 | 06h00

O meia Luiz Carlos Medina cita com orgulho uma das grandes passagens de sua carreira. Os dois gols que fez pelo Guarani no ‘Dérbi do Centenário’ contra a Ponte Preta em 2012, na semifinal do Campeonato Paulista. Entrou no lugar de Fumagalli e resolveu o jogo, que terminou 3 a 1. No final do torneio, o time perdeu para o Santos e foi vice-campeão, mas Medina virou ídolo.

Depois da passagem pelo Guarani, Medina atuou no XV de Piracicaba e no União Barbarense, onde viveu o pior momento da carreira no ano passado. Foi pego no exame antidoping por causa de corticoides, substâncias normalmente presentes em anti-inflamatórios.

Medina denuncia a falta de estrutura do clube como a causa da suspensão de oito meses, de abril a dezembro da última temporada. “A estrutura era precária, com salários atrasados. O médico passava uma vez por semana no clube. Acredito que meu doping tenha sido causado por uma injeção que o massagista me deu antes da partida. O médico não ia nos dias de jogos”, diz o atleta de 26 anos. “Quando eu recebi a notificação de doping, já havia saído do clube. Tive de pagar tudo do meu bolso. Fiquei oito meses sem receber e sem atuar, correndo atrás da situação. Os maiores culpados foram o clube, o médico e o massagista. Eu acabei pagando por tudo sozinho.”

A assessoria de imprensa do União Barbarense informou que a diretoria atual não poderia comentar o episódio, pois iniciou a gestão apenas neste ano – Medina foi suspenso após o doping em abril de 2016.

O jogador defende que os clubes também sejam fiscalizados nos casos de doping. Ele argumenta que, nos times menores, são os massagistas que costumam aplicar injeções, por exemplo. “É o médico que têm de fazer isso”, defende.

O ex-jogador do Guarani conseguiu dar a volta por cima. Hoje, atua na segunda divisão do México, no Potros. Como meia ofensivo, já fez três gols. Está bem, recebe em dia e não pretende voltar ao Brasil agora. “Quero voltar um dia e queria encerrar minha carreira no Guarani.’’

Além de cobrar fiscalização nos clubes, ele também gostaria que os jogadores tivessem mais chances de defesa no julgamento. “Em meu primeiro julgamento, nem me ouviram direito.

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Gonçalo Junior

19 Março 2017 | 06h00

1. Em 2016, o futebol paulista registrou 15 casos de doping. Isso preocupa?

Sim. A Federação Paulista de Futebol e o Tribunal de Justiça Desportiva estão preocupados. É uma de nossas prioridades. Não queremos prejudicar ninguém, mas vamos cumprir a lei. Os auditores do TJD têm a “mão pesada” e costumam pedir a pena máxima em casos de doping. O esporte precisa de igualdade de condições para todos os competidores. Ninguém pode usar substâncias para levar vantagem. Nós vemos atletas perdendo medalhas nos Jogos Olímpicos e isso é muito ruim para o esporte. A competição perde a credibilidade. Não queremos doping no futebol paulista. Queremos uma disputa limpa. 

2. Por que ocorrem tantos casos de doping?

Na maioria dos casos, os jogadores tomam as substâncias por conta própria e não avisam os médicos do clube. Em outros casos, os clubes menores não têm estrutura para transmitir a orientação adequada aos jogadores e controlar as substâncias. Mas sempre chamamos o clube e o médico para se explicarem. Nossa política é de tolerância zero com o doping.

3. Como o senhor analisa o tempo das punições?

O atleta tem de ser muito cuidadoso com aquilo que ele toma. Uma punição de quatro anos, por exemplo, como algumas que aconteceram no ano passado, pode acabar com a carreira de um jogador. Dificilmente, ele vai conseguir se recuperar e vai ficar com essa marca na carreira. Mas nós estamos apenas cumprindo a lei. Não temos interesse em punir A ou B. É a legislação que tem de ser seguida em todos os casos.

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