"Eriberto" surpreende com falsificação

Adulterar data de nascimento é prática antiga no futebol. Forjar ancestrais europeus para obter passaporte ?comunitário? é irregularidade recente. Mas apresentar-se com nome falso está no grupo das maracutaias mais raras. Nesse último caso se encaixa Eriberto Conceição da Silva, meia que despontou como revelação no Palmeiras, em 1997, com "18 anos". A projeção foi rápida: em 98, teve o passe vendido para o Bologna e daí para o Chievo Verona. Agora, depois da frustrada transferência para a Lazio se descobriu que ?Eriberto? se chama Luciano Siqueira de Oliveira e que tem 27 anos. O mais recente escândalo no futebol veio à tona nesta sexta-feira, depois que os jornais italianos divulgaram a história de Eriberto/Luciano. O enredo tem identidades trocadas, sonho de ascensão, suposta chantagem, arrependimento, confissão, manifestações de surpresa e de solidariedade, defesa e risco de suspensão. E, principalmente, dúvidas em torno da carreira. A trama começou a ser desfeita quando Eriberto/Luciano deixou a Itália, uma semana atrás, depois de telefonema da mulher, que mora no Brasil. Àquela altura, ele estava ligado à Lazio, que só abriu mão do contrato porque não pagou a primeira parcela ao Chievo. Os dirigentes romanos estranharam a atitude, foram atrás do caso e, então, surgiram novos fatos. Luciano nasceu em 3 de dezembro de 1975 e não em 21 de janeiro de 1979, como o verdadeiro Eriberto, que é outra pessoa. Segundo se especula na Itália, a fraude teria ocorrido em 96, quando ele ainda era juvenil. Luciano teria decidido diminuir a idade para ter mais chance no futebol. Como de fato ocorreu. Ele chegou a participar do Mundial Sub-20 com a seleção brasileira. Na ocasião em que o Bologna o contratou, a documentação era a mesma de hoje - embora o passaporte sempre tenha sido brasileiro. Esse detalhe é uma atenuante no caso, já que ele não tentou passar por europeu, como outros. A identidade verdadeira não seria descoberta, não fosse o próprio Luciano a procurar a Justiça, no Brasil, junto com seu procurador Pedrinho Vicençote, e abrir o jogo. Ele teria decidido desabafar porque se sentia desconfortável com a situação e também porque, nesse tempo, estaria sofrendo ameaças de pessoas interessadas em chantageá-lo. "Errei, peço que me perdoem e espero em breve voltar para a Itália", garantiu o jogador, por meio de Pedrinho Vicençote, lateral do Vasco e do Palmeiras nos anos 80. "Tirei um peso da consciência", avisou. Bologna, Chievo e Lazio juram que não tinham a mínima idéia de que estavam envolvidos numa novela intrincada. "Sou solidário com ele, do ponto de vista humano", declarou Renato Cipollini, presidente do Bologna. "Nada além disso, pois há algum tempo não pertence a nosso elenco", frisou. "Às vezes, eu brincava com Eriberto e dizia que ele tinha cara de mais velho", recordou o goleiro Gianlucca Pagliuca, seu ex-companheiro no Bologna. "É uma pena o que está acontecendo, mas ele pode contar comigo." O Chievo garante que não abandonará Eriberto/Luciano. O departamento jurídico já prepara a defesa e, pelo menos aparentemente, as portas do clube continuarão abertas, depois que tudo for superado. "Esperamos que essa história termine bem", informou Luca Campedelli, presidente do clube veronês. "Trata-se de profissional competente e a quem receberei de volta com satisfação", emendou o técnico Del Neri. "Espero que a Justiça Esportiva entenda os motivos que o levaram a buscar, no futebol, saída para uma vida de privações." O caso foi parar na União Européia de Futebol e na Federação Italiana. Eriberto/Luciano em princípio fica suspenso por quatro meses. O Ministério Público de Bolonha também pode abrir processo por falsidade ideológica.

Agencia Estado,

23 Agosto 2002 | 18h24

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